De novo a questão dos pilotos com pouca experiência – Ou: Onde um piloto recém-formado vai ganhar experiência, afinal?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Por indicação do amigo Beto Arcaro, li esta matéria sobre a questão dos pilotos com pouca experiência (ainda tratando do assunto do tal copila do A320 da Germanwings): “Comment: Rising number of inexperienced pilots may lead to more crashes“. Ok, seria desejável que todo aeronauta fosse mega-experiente, é claro, mas há a questão econômica – como bem resume o artigo: “‘Everybody wants their $99 ticket’, but (…) ‘you don’t get [Captain] Sully for ninety-nine bucks”'”(Capt. Sully, para quem não ligou o nome à pessoa, é o comandante do A320 que pousou no rio Hudson, em N.York ) – e, principalmente, da estrutura de formação aeronáutica mesmo, que em minha opinião é muito mais difícil.

A questão do custo até dá para equacionar, mas e a existência do tal piloto experiente numa quantidade tal que supra todas as necessidades de todas as companhias aéreas do mundo? A China e o Oriente Médio estão resolvendo isso “comprando” essa mão-de-obra a peso de ouro, mas não dá para replicar esse modelo mundo afora. A “fonte primária” de treinamento de pilotos, a aviação geral, é pouco desenvolvida em quase todo lugar, fora EUA e Brasil. E mesmo nessas localidades, parte da operação – em especial os postos de trabalho para pilotar aeronaves ‘single pilot’ mais sofisticadas – não é amigável aos recém-formados. A atividade de instrução até pode servir como formadora de mão-de-obra experiente, mas ela também tem um limite, e quase todas as demais requerem pilotos com mais experiência – aviação agrícola, serviços aéreos especializados, etc. Sobram traslados, puxar faixa na praia, esse tipo de atividade que ocupa muito pouca gente, e em que não se voa tanto assim. Daí que, por exclusão, voltamos à linha aérea, e o assento da direita de uma aeronave comercial torna-se essencial para a geração de pilotos experientes – que era exatamente a situação do copiloto da Germanwings… Complicado, né?

 

10 comments

  1. Thiago Henrique
    2 anos ago

    Terminei o PC já tem 2 anos e até agora não consegui fazer 1 vôo nem que fosse de graça. Não estou dizendo que a culpa toda seja do “sistema” e eu não tenho culpa nenhuma, mas que é bem complicado arrumar lugar para voar, isso é. Muitos do que entrei em contato me falaram que não tinha experiência suficiente. E ai ? Como faz ?

  2. 200-250 horas têm hoje a esmagadora maioria dos nossos trainées para F/O Initial Training / B737NG, na Ásia. Temos 12 sessões (i.e. 48 horas de treinamento, metade como PF, metade como PNF, ou PM, como queiram) para recomendá-los (ou não) a cheque. Afora isso, o volume de aula teórica ministrado é “algo”, ao longo de vários meses. Aprovados, voam um tempão no “jump” e depois na direita, com safety pilot no “jump” e depois mais um tempão operando, só com o instrutor, até poderem fazer o tão sonhado cheque de rota e terem o “full package” de salário e benefícios efetivado. Pode levar até um ano, o processo todo. No que se refere à nossa parte, aquilo soa para mim como uma instrução de link trainer de aeroclube num FFS (Full Flight Simulator) Nível “D”, ensinando desde o Bê-a-Bá, tipo ergonomia (como ajustar o assento, como acertar o “cutoff angle” para as aproximações em low vis), como interceptar uma radial ou QDM, como operacionalizar o CRM, a distribuição da carga de trabalho, como estruturar um briefing, até mesmo “dressing code” para o dia do Oral Exam etc…é um massacre, pq os caras não vivenciam antes essa aviação pequena, o tempo de “rato de hangar”, a AFA etc…nada disso existe nesses países, é tudo “pagou-levou” e a maior parte feito no Ocidente (se bem que o número de escolas locais esteja aumentando), agregadas a isso as barreiras lingüísticas (pensem ter que estudar um avião em coreano ou chinês e/ou ter que descrever uma situação de emergência num idioma desses de forma coloquial; é como eles se sentem, tendo que fazer tudo em inglês, além do que precisam pensar em dois alfabetos, um latino e um de alguns milhares de caracteres) e culturais. Apesar dos pesares, ainda acho mais realista do que o tal de MPL. Esses sistemas de cortar caminho e relativizar a experiência nunca deram muito resultado. Na minha modesta opinião, são “bad news”…

  3. João
    3 anos ago

    Essa é a questão, onde conseguir horas e experiência necessária…. Aquele projeto do piloto estagiário ou algum tipo de treinee na aviação comercial, quem sabe!!!
    O fato é que enquanto não tiver uma alternativa para conseguirmos horas de voo após CHT INVA e PC, a única alternativa é infelizmente ser explorado em algum aeroclube trabalhando como INVA sem carteira assinada ou nenhum outro vinculo empregaticio, ganhando qualquer trocado.

  4. Marcos
    3 anos ago

    Ficou dúbio, o comentário e/ou matéria mas tem algo muito importante que não foi falado. Não conheço experiência adquirida por osmose, experiência é antes de mais nada vivencia, exercício prático no dia a dia mas esse problema poderia ser resolvido se os Srs proprietários de escolas olhassem menos para lucros e mais para a formação e unidos desenvolvessem um projeto pra pleitear ao Governo que os custos para a formação de novos pilotos fossem o mais baixo possível ou até que se tirasse alguns impostos que incidem sobre combustível, aparelhos, peças e outros itens usados nas aeronaves das escolas, isso por si só, já seria um enorme avanço porque ao inves de 43/46 hs no curso pratico, o aluno poderia fazer 100hs ………… fica a dica.

    • Marcos Véio
      3 anos ago

      Meu xará. Como está o voo pra Marte? Quando retornares reporte na curta final da terra. Abç

  5. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Voltamos ao velho chavão:
    Ah! Mas na minha época…
    Não tem como não voltar.
    O único lugar no qual se arranjava algo como “Traineé” era na Varig.
    200 Hrs, PC checado!
    Nos anos 90, até todo mundo que entrava na VASP, TAM, ou Transbrasil, já tinha voado muita “Faixa”, ou Seneca/210 de Fazendeiro.
    Já tinha lançado muito PQD.
    A maioria tinha mais de 1000 Hrs.
    Era comum o cara ter 1000 Hrs na direta de um Lear, por exemplo.
    Na minha opinião, essas “outras Aviações” servem como um “Filtro” para que se evitem casos como o da Germanwings.
    Agora:
    O que é mais cômodo para o “Mercado”?
    Nos anos 90 não era?
    Algo mudou?

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Na verdade, mudou (e não estou me referindo unicamente ao Brasil)…
      Não há como mandar todo mundo prá ganhar experiência lançando PQDs, Betão, essa é que é a questão do post.
      Colocar o ‘novinho’ na direita do Boeing não é uma opção, mas uma necessidade.

      • Drausio
        3 anos ago

        Tá, tudo bem. Colocar os novinhos na direita dos narrow é uma necessidade.
        Mas precisa mesmo desprezar quem hangariou um pouquinho mais de experiência, como tem sido feito sistematicamente?

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        O problema Raul, é que se tivéssemos uma Aviação saudável, essa experiência “Pré Linha Aérea” seria possível e muito proveitosa.
        O problema de lá (EUA) é que a Aviação deles se tornou pouco atrativa em todos os setores.
        Dá pra imaginar o tipo escaço de gente que é bem formada, e mesmo assim vai voar pelo “Minimum Wage”.
        Aqui, ainda existe, por incrível que pareça, a idéia do “Vai faltar piloto”, aspirantes de PP dizem claramente que não interessa o salário. Que é tudo pelo “Sonho”!
        Só por aí, já levariam pau em qualquer psicotécnico!
        As Escolas aqui no Brasil, já estão há um bom tempo, produzindo esse tipo de piloto feito pastel. Só que com um controle de qualidade muito ruim.
        No final, tanto vai fazer né ?
        Será ?

  6. Julio Petruchio
    3 anos ago

    Tostines…
    Não voa por que não tem experiência, não tem experiência por que não voa.

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