Sobre as estatísticas sobre acidentes aeronáuticos divulgadas pelo CENIPA: como se “desacidenta” uma ocorrência aeronáutica?

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Na semana passada, comentei aqui o Panorama Estatístico da Aviação Civil Brasileira para o decênio 2005-2014 do CENIPA, publicação que também foi divulgada no ano passado, quando o órgão publicou o mesmo estudo para o decênio 2004-2013. Ocorre que um leitor ultra-detalhista comparou ambos relatórios nos anos coincidentes (2005-2013), e verificou que havia pequenas diferenças nas quantidades anuais de acidentes e incidentes entres ambas publicações – que, no total, apontavam para menos 20 acidentes e mais 10 incidentes, se tomarmos como correto o relatório mais recente (por enfadonho, não vou repetir os números e os cálculos aqui, mas basta abrir os dois documentos acima e comparar os dados ano a ano).

Em minha opinião, é fácil de explicar um aumento de número de acidentes/incidentes em um relatório mais recente (não se sabia da existência da ocorrência quando da publicação do relatório anterior, que agora se sabe); e até dá para entender a diminuição de uma categoria de ocorrências se há contrapartida na outra – seria uma mera questão de reclassificação: o que era anotado como acidente passa a ser contabilizado como incidente, ou vice-versa. O fato, porém, é que com -20 acidentes e +10 incidentes no relatório mais recente, o resultado líquido é que 10 ocorrências desapareceram das estatísticas, e isso não é de fácil compreensão. Como é que um acidente pode desaparecer das estatísticas? E vinte (ou dez “ocorrências líquidas”)? Gostaria muito de saber por que isso acontece – não que eu duvide da integridade do órgão, mas me incomoda não saber explicar porque uma ocorrência desaparece das estatísticas. Vou encaminhar este post para a assessoria de comunicação do CENIPA, e estou certo de que eles têm uma boa explicação para tal (que, evidentemente, será reproduzida aqui assim que a obtiver).

Também gostaria de saber por que as ocorrências com a aviação experimental não são sequer contabilizadas, conforme disse no post da semana passada (vide primeiro link acima). Não vou nem entrar no mérito de por que elas não são investigadas, mas acredito que seja um direito da sociedade pelo menos saber quantos são os acidentes/incidentes e quantas pessoas morrem anualmente neste segmento da aviação. Concorda, CENIPA?

2 comments

  1. Humberto Branco
    3 anos ago

    Raul, como já comentamos em outras ocasiões, dado o caráter rudimentar do tratamento de dados sobre acidentes no Brasil, quase toda conclusão que se tira é especulação. Sem informação não há análise e sem análise não se pode tirar conclusão correta sobre nada. Apesar do esforço do pessoal do Cenipa, as análises quantitativas são simplórias. Quem trabalha com isso sabe que as estatísticas inexistem, devidamente classificadas, relativizadas. Seguindo a lógica vigente, o segredo para a segurança aeronáutica no Brasil é simples: basta parar de voar. Quanto menos aeronaves no céu, menos acidentes no chão. Convido-o a acessar: http://www.appa.org.br/2015/05/26/e-preciso-conhecer-a-doenca-para-acertar-o-remedio/

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