Voltando aos parafusos: a metodologia PARE e a “recomendação” do RBAC para o seu treinamento

By: Author Raul MarinhoPosted on
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A questão dos parafusos e suas respectivas recuperações é quase uma obsessão deste blog. Já tratamos diversas vezes deste assunto aqui, desde 2011 (ano em que o blog foi fundado), e voltaremos a falar disto sempre que houver o que dizer, como é o caso agora.

Primeiro, gostaria de recomendar mais um post do Boldmethod, o “The 4 Steps Of Spin Recovery, Explained“, que traz uma metodologia de recuperação de parafusos denominada PARE, que significa:

  • Power To Idle;
  • Ailerons Neutral;
  • Rudder Opposite Spin;
  • Elevator Forward.

Nenhuma novidade nisso, eu sei (já falamos do assunto no blog diversas vezes, inclusive), a não ser o próprio termo mnemônico – o que, por si só, já é uma grande ajuda, e por isso achei que valeria a pena citá-lo. Outra ferramenta interessante do post – além dos gráficos sempre fantásticos do BoldMethod com as explicações do fenômeno físico – é o vídeo que segue abaixo (sempre é bom observar como a coisa toda acontece, né?):

Depois, quero comentar um “detalhe” do RBAC-61 atualmente em vigor (EMD005) sobre o treinamento de parafusos. Vejam o que diz o item v da seção 61.79-a-1 (Requisitos de instrução de voo para concessão da licença de piloto privado – categoria avião) do referido regulamento:

parafuso rbac

Em primeiro lugar, a redação é ambígua: o “quando possível” se aplica somente ao parafuso, ou abrange todas as demais manobras do item (ou só algumas – o estol completo e o parafuso, por exemplo)? Com a redação adotada, é difícil saber – porém, seja qual for a interpretação do texto, o parafuso, especificamente, é uma manobra somente “recomendável” (treinado “quando possível”) pelo RBAC, disso não há como interpretar de maneira diferente. Mas… Quando é possível???

Aí que está o problema! É subjetivo, e se ninguém achar possível, ninguém treina, e pronto – que é, a propósito, o que de fato acontece na formação prática de PPA na maioria dos casos. Mas, ao contrário do que reza a lenda dos aeroclubes, inexiste “proibição da ANAC” para o treinamento de parafuso, a Agência só não obriga que se treine a manobra! A propósito, na seção 61.99-a-1-v (Requisitos de instrução de voo para concessão da licença de piloto comercial – categoria avião), não há o termo “quando possível” para o treinamento de parafuso (logo, ele seria obrigatório) e, na realidade, também não se treina parafuso na maioria dos cursos práticos de PCA.

Pesquisando nos meus arquivos, vi que o termo “quando possível” dos requisitos de instrução de voo de PPA para parafuso não constava no RBHA-61. Somente quando da publicação do RBAC-61, em junho de 2012, é que o treinamento de parafuso passou a ser opcional para a concessão da licença de PPA. Isso é algo que gostaria de entender melhor: qual a razão da não obrigatoriedade do treinamento de parafuso para PPAs a partir de 2012? Se alguém souber, favor informar.

16 comments

  1. Leandro
    3 anos ago

    O texto já estava na emenda original do RBAC 61:
    http://pergamum.anac.gov.br/arquivos/RBAC61EMD00.PDF

    Pra ter ideia da justificativa de alteração com relação ao RBHA 61, sugiro procurar por “parafuso” em:
    http://www2.anac.gov.br/transparencia/pdf/26/relatorio.pdf

    • raulmarinho
      3 anos ago

      A versão que eu tenho da EMD000 é diferente: http://wp.me/a5lq4p-2vz. Mas o seu deve ser o que foi efetivamente publicado.
      Qto à justificativa, pelo que eu vi é aquele papo do “os aeroclubes só tem Boero/Paulistinha, e não dá para treinar parafuso nessas aeronaves”, o que eu acho que não faz sentido. Mas obrigado pelas contribuições, ajudaram muito!

      • Leandro
        3 anos ago

        A versão que está no link é uma minuta, com “xx de yyyyy de zzzz” como data de emissão.

        Se a justificativa não é adequada, pode não ser… Mas td indica q foi a partir dessas contribuições q a ANAC decidiu incluir o “quando possível”.

        • raulmarinho
          3 anos ago

          Já alterei o texto de acordo com a versão do RBAC-61 EMD000 que vc me enviou, obrigado.
          Entretanto, essa justificativa para a não obrigatoriedade do treinamento de parafusos ainda não me convenceu. Porque, como respondi ao leitor abaixo, as escolas que formam PPs geralmente formam também PCs, os aviões são comuns, e no curso de PC ainda é obrigatório o treinamento de parafuso pelo regulamento. Então, não faz sentido…

          • Leandro
            3 anos ago

            Veja, não quero defender que faz sentido… Como disse, “pode não ser uma justificativa adequada”.

            Mas se não estava na minuta e incluíram no texto final, depois de analisarem essas contribuições, mt provavelmente foi isso q justificou a mudança.
            E isso explica tb pq não mudaram pro PC (pq o comentário só foi direcionado ao 61.79).

  2. Carlos Bertozzo
    3 anos ago

    Muito provavelmente isso se deve a proibição de parafuso na maioria das aeronaves de instrução utilizadas no Brasil, pelo fabricante através de ADs. Caso fosse obrigatório toda escola deveria ter um semi acrobático para ministrar instrução, como já foi em outros tempos quando a acrobacia fazia parte do currículo do curso prático.

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Então… Esse é um assunto cheio de pano preto. Porque, em tese ao menos, os cursos práticos de PCA deveriam dar o treinamento de parafuso (é requerido pelo RBAC), e quase toda escola que tem curso de PPA também tem curso de PCA. Logo, não faria sentido o argumento que vc citou – e que eu já ouvi diversas vezes de instrutores e pessoal administrativo de aeroclube/escola -, já que as aeronaves são comuns. Precisa mesmo de avião semi-acrobático para ensinar parafuso? (A pergunta não é retórica, eu não sei mesmo). Quem restringe o parafuso, a ANAC ou os donos/presidentes de escolas/aeroclubes? Praticar parafuso num C152 ou num Cherokee seria arriscado? É verdade o que dizem sobre o Boero, que não sairia de parafuso? Vou atrás dessas informações, e as publico assim que tiver algo concreto.

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        Raul,
        Aeronaves como Cessna 172/152 desde que voadas dentro do peso para Categoria “Utilitária” podem ser usadas para treinamento de recuperação de parafusos.
        O Aero Boero, como toda aeronave certificada (Exceto o Cirrus) deve ter características de recuperação de parafusos dentro de certos padrões.
        No Paulistinha, treinava-se numa boa.
        Aí o DAC proibiu, pois dizia que as células estavam muito velhas e tal.
        Só que tanto um parafuso, quanto à sua recuperação, não causam esforços estruturais maiores do que uma curva de grande inclinação.
        Manobra que era treinada à exaustão, nos aeroclubes e escolas.
        A coisa é meio confusa.
        O que se vê, nos placares, em alguns aviões é:
        Proibido a entrada em parafusos intencionais.
        Ora, os “não intencionais” não podem ser proibidos, não é mesmo?
        E qual a diferença “para com o avião”, em termos estruturais, ou de recuperação, se o parafuso é intencional ou não ?
        Eu acho que esse “Quando for possível” veio só para tirar de vez a recuperação de parafusos do programa de treinamento.
        Pra ficar “legalmente correto”.
        Então a escola, ou o aeroclube tira isso do curriculum, alegando que “nunca é possível”.
        Assim, não dá trabalho e não assusta os alunos nem os instrutores.

    • Aviador
      3 anos ago

      Muito bem Silvio Santos.

  3. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Se não fosse esse sujeito, Raul Marinho, intrometido, para investigar nas entranhas dos RBAC’s…..
    Lembra do “Scooby Doo”?

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Tks, mas quem levantou essa lebre do “se possível” não fui eu, e sim um amigo… Eu só pesquisei nos RBACs e RBHA.

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        Então Scooby….
        Se não fosse esse sujeito intrometido do amigo do Raul Marinho, investigar as entranhas dos RBAC’s…..KKKKKK

  4. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Como é que pode, um órgão regulador de uma área tão “precisa” quanto à Aviação, ser tão subjetivo para com um assunto tão crítico como a formação aeronáutica?
    Acho que eles nem lembram que escreveram isso em algum lugar.

    • raulmarinho
      3 anos ago

      É o que eu pergunto também! imagine a Receita Federal regulando o IR desta maneira…

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        Imagino….
        Quando possível, Todo o Cidadão deve declarar aquele apartamento nos Jardins…..

        • Leonardo Pigozzi
          3 anos ago

          Excelente comentário, Beto!!

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