Como assim “não temos aeronaves para fazer parafuso” nos aeroclubes do Brasil?

By: Author Raul MarinhoPosted on
2722Views31

Nos comentários ao post com a enquete sobre parafusos, publicado hoje, muita gente está comentando que “não temos aeronaves para fazer parafuso” nos aeroclubes do Brasil – um argumento que precisa ser mais bem analisado, em minha opinião:

  • Porque a manobra de recuperação de parafuso é obrigatória para obter a licença de PCA, de acordo com o RBAC-61 – e a maior parte dos aeroclubes/escolas que tem o curso de PPA também tem o de PCA. Logo, se a instituição está homologada para dar o curso de PCA, ela deveria ter avião capaz de executar a referida manobra, e esta aeronave também poderia ser usada no curso de PPA.
  • No curso de PPA é obrigatório haver um mínimo de 3h de voo visual noturno, e estas missões também são efetuadas em aeronaves “mais sofisticadas” (isto é: em algum avião menos básico que um Boero ou Paulistinha). Então, estas aeronaves também seriam, em princípio, capazes de serem usadas no treinamento de recuperação de parafuso.
  • E mesmo que um determinado aeroclube/escola não tivesse equipamento capaz de efetuar uma manobra de recuperação de parafuso, se isto for realmente relevante para a segurança de voo – e, ao que parece, é! -, não faria sentido exigir que o aluno de PPA fosse treinar esta manobra onde fosse necessário?

Na verdade, eu acho que o problema não é a falta de aeronaves capazes de realizar tal manobra, e sim a falta de instrutores capacitados para demonstrá-la aos alunos! Porque, na prática, boa parte dos PCAs se forma sem treinar essa manobra (embora seja obrigatória), e quase todos os aeroclubes/escolas que oferecem o curso de INVA utilizam justamente os Boero e Paulistinha na formação de instrutores – aeronaves que, de fato, não seriam adequadas para esta manobra. Ou a realidade é diferente?

31 comments

  1. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Existem aeronaves que conseguem voar na categoria “Utility”, dependendo do peso. O parafuso não envolve altos fatores de carga se for bem executado.
    Treina-se recuperação de parafusos, nos EUA, com Cessnas 172.
    Então o próprio País do fabricante está errado? Até 1988 era normal que se executasse a manobra no Paulistinha.
    Ocorre que temos instrutores mal preparados.
    Ocorre também, que a mentalidade das escolas, hoje em dia, no Brasil, é de “empurrar com a barriga”, não vamos dificultar para o “Cliente”, não vamos “assustar” os alunos.
    Nos dias de hoje, quem é que “toma pau” num cheque de PP, né ?
    Já viram alguma reprovação recentemente?
    Até 88, a recuperação de parafusos podia ser cobrada em cheque.
    E não recuperasse direito, pra você ver o que acontecia?

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Dá uma olhada na seção do RBAC-23 que o Aviador recomendou, Betão. Até na categoria NORMAL deveria ser possível sair de parafuso!

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        Sim, por certificação.
        Aí entra aquela história:
        Proibidos Parafusos Intencionais.
        Os não intencionais, obviamente não podem ser proibidos.
        Mas tecnicamente, estruturalmente, aerodinamicamente, qual é a diferença entre eles?
        Acho que a palavra chave de toda a questão é “Intencional”.
        Intencional não pode, não intencional “só pode”?
        Essa regra foge à técnica?

        • raulmarinho
          3 anos ago

          Mas quem proibiu, de fato, os parafusos?
          Vc já viu o documento? O que está escrito?
          (Não é pergunta retórica, eu realmente gostaria de saber o que tem de verdade nisso).

          • Beto Arcaro
            3 anos ago

            Me lembro que quando o DAC proibiu (e as aeronaves utilizadas pertenciam à ele) a justificativa era de que os Paulistinhas estavam velhos, e que não suportariam os esforços contínuos da manobra no ambiente da instrução. A proibição se estendeu aos Aeroboeros, quando estes entraram em operação, pois diziam que a recuperação de parafusos nessas aeronaves era crítica (Então ele não cumpriria as regras de certificação?).
            Acho que aí ficou cômodo pra que as escolas e aeroclubes eliminassem de vez a manobra, mesmo em outras aeronaves.
            Padronizaram por baixo.
            Onde está escrito?
            Olha, considerando que admitir que os Paulistinhas estivessem velhos (na verdade “com manutenção deficiente”), e que os Aeroboeros tiveram uma “certificação forçada”, não pegaria muito bem, acredito que essa deva ser uma daquelas coisas da Aviação Brasileira que não está escrita em lugar algum.

            • raulmarinho
              3 anos ago

              Mas mesmo supondo que os Paulistinha e Boero não pudessem executar parafusos (do que não estou convencido ainda, mas tudo bem), as questões levantadas no post permanecem. Na verdade, a maioria dos aeroclubes/escolas do país tem pelo menos um C-150/152 ou Cherokee/Tupi no acervo, então essa justificativa não faz sentido. Volto a dizer que o problema não é o avião.

              • Jáber Lima
                3 anos ago

                Concordo plenamente contigo Raul!!!!

              • Beto Arcaro
                3 anos ago

                Sim, mas é isso que eu quero dizer quando falei em “Padronizar por baixo”.
                Ficou bom pra todo mundo, e os aeroclubes se livraram do “Fardo” da recuperação de parafuso.
                O problema nunca foi o avião (Exceto talvez, no caso do Boero) tanto que os Paulistinhas efetuaram essa missão muito bem, por décadas.
                Se um Paulistinha, na época, realmente não suportasse os esforços (que são até bem poucos) de uma recuperação de parafuso, não deveria nem voar !
                Acontece, que naquela época foi mais uma forma de generalizar, para se evitar encrenca.
                Bem mais fácil do que fiscalizar e se certificar de que as habilidades dos instrutores e e a integridade das aeronaves ainda as mantinham “Parafusáveis”.
                Algo que a ANAC aprendeu muito bem com o DAC pra tratar de outras questões até hoje.
                O problema é o avião, quando se utiliza o avião errado para o serviço.
                Por exemplo, utilizar um Cirrus para o treinamento de PP.
                Avião no qual você não pode (e nem deve!) nem treinar estóis, quanto mais parafusos.
                Acho que existem muitos interesses por trás daquele detalhe do “Quando Possível”.

                • raulmarinho
                  3 anos ago

                  Sabe qual a origem do “quando possível” para o treinamento de parafuso no PP? A contribuição dos dirigentes de aeroclubes/escolas na consulta pública do RBAC-61 “original” (a EMD-000, de 2012). Eles alegavam, à época, que seus aviões não eram capazes de performar tal manobra… Ora, então, de acordo com o RBAC-23, eles nem seriam aeronavegáveis, não é mesmo? Tá vendo como essa história está esquisita???

                  • Beto Arcaro
                    3 anos ago

                    Exato!
                    Se existem regras publicadas, manuais atestando as certificações, as coisas não deveriam ser esquisitas, nem tampouco polêmicas.

  2. Pacelli Francesco
    3 anos ago

    Pra mim uma coisa parece obvia, se a escola não tem avião para fazer a manobra, então o aluno deveria procurar outra para fazer a manobra e só assim conseguir a Licença.

  3. Aviador
    3 anos ago

    Gente, falta um pouco de conhecimento. TODAS as aeronaves utilizadas na instrução atualmente no Brasil nos cursos de PPA e PCA são categoria NORMAL. Isso significa que a manobra de parafuso é PROIBIDA neste tipo de aeronave. Tanto é que existe uma placa grudada no painel dessas aeronaves informando que o paraguso é proibido. Mesmo motivo que encontra-se nos manuais de voo dessas aeronaves a proibição do parafuso. Durante os testes de voo para certificação de aeronaves categoria normal, foi demonstrado que a aeronave aguentaria em até uma volta caso entrasse acidentalmente num parafuso. A partir de 1 volta, já não se tem segurança nenhuma de como a aeronave iria responder. Muito menos como aeronave iria responder a constantes esforços estruturais de repitidas manobras de parafuso durante o curso de formação de pilotos.
    Em resumo: é PROIBIDO o parafuso em aeronaves categoria normal e a ANAC NUNCA iria obrigar um exercício numa aeronave que o próprio fabricante proibe tal manobra.

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Aviador, eu estou checando esta informação com a área de aeronavegabilidade da ANAC. Porque, se você estiver certo, então o RBAC-61 está errado, já que o parafuso é requisito obrigatório para a concessão da LPCA. Mas é um assunto interessante, sim, vamos aprofundá-lo!

      • Aviador
        3 anos ago

        Realmente Raul, relendo o RBAC 61 é requisito o treinamento de parafuso para licença de PCA. Novamente é um requisito “incomprível”, certamente colocado no regulamento por pessoas sem conhecimento do negócio, da realidade da instrução aérea no Brasil.

        • Leitor
          3 anos ago

          Prezados
          Na minha época, existia uma proibição no próprio manual do Aeroboero, por exemplo, de executar o parafuso, pela forte tendência de entrar em parafuso chato….não sei se o manual foi alterado…mas se no manual do próprio avião consta essa restrição….

        • raulmarinho
          3 anos ago

          E também tenho dúvidas sobre a proibição de aviões da categoria normal para executar parafuso. Porque, pelo que consta, até os anos 1990 podia…

          • Aviador
            3 anos ago

            Raul, dê uma lida no RBAC 23, em específico § 23.221.
            Abs

            • raulmarinho
              3 anos ago

              Se entendi corretamente, então as aeronaves utilizadas em instrução (categoria NORMAL) deveriam ser capazes de, pelo menos, serem utilizadas em treinamento de parafuso de uma volta ou 3 segundos, certo? O que já seria suficiente em minha opinião (ou estou enganado?).

              • Luiz Fernando
                3 anos ago

                Pelo que entendi Raul o avião tem q ser capaz de se recuperar do parafuso (aqui podendo ser uma volta ou 3 segundos segundos de parafuso) com no máximo mais uma volta, ou seja, ele pode fazer mais voltas, o importante é a capacidade do avião sair do parafuso com apenas mais uma volta após os controles serem colocados na posição correta para a recuperação.

                • raulmarinho
                  3 anos ago

                  Eu acho que é isso também, mas se a interpretação de um regulamento em português já é complicada, o que dizer de uma regra em inglês…

          • Kadu Lemes
            3 anos ago

            Seguem abaixo dois trechos dos manuais originais das aeronaves de instrução básica do aeroclube onde voo:

            C150M
            NO ACROBATIC MANEUVERS APPROVED EXCEPT THOSE LISTED BELOW

            Maneuver Recm. Entry Speed
            Chandelles 95 knots
            Lazy Eights 95 knots
            Spins Slow Deceleration
            Stalls (except whip stalls) Slow Deceleration

            Abrupt use of controls prohibited above 97 knots. Spin Recovery: opposite rudder – forward elevator – neutralize controls. Intentional spins with flaps extended are prohibited.

            AB11
            Categoria normal: Todas las maniobras acrobáticas prohibidas, incluido tirabuzón.

            Acho que o problema é a aeronave com o manual em espanhol…

  4. Arthur
    3 anos ago

    Em duas escolas de aviação que eu voei (no curso de PC) eu ouvi a desculpa que a ANAC e o manual do C-152 não deixam fazer parafuso, oito preguiçoso e chandelle.

    Inclusive conversei com os diretores de operação dessas escolas e pedi para eles liberarem, o que não adiantou nada. O mesmo aconteceu com voos solo.

    Acho inadmissível formar um piloto comercial sem voos solo e sem ensinar como recuperar de um parafuso.

    • Jáber Lima
      3 anos ago

      Concordo contigo Arthur.
      Na minha formação do PP pedi ao instrutor para realizarmos o parafuso e ele negou de imediato dizendo, principalmente, que a manobra era proibida pela escola.
      Depois de alguns indagações ele concordou e realizamos a manobra várias vezes.
      O avião usado foi um Cessna-152 e esse instrutor me confessou que já havia realizado a manobra anteriormente com outros alunos. Na opinião dele, a manobra deveria ser obrigatória para o curso de PP e principalmente para o curso de PC. Eu particularmente concordo com ele!

  5. ANTONIO CARLOS DONDÉ
    3 anos ago

    DEI INSTRUÇÃO BÁSICA DE MANOBRAS ELEMENTARES USANDO UM LIVRO COM ESSE MESMO NOME PARA NOÇÕES BÁSICAS E MAIS TODO O CONHECIMENTO QUE ME FOI PASSADO NO ARGS, AEROCLUBE DO RIO GRANDE DO SUL EM BELEM NOVO, PORTO ALEGRE RS.
    LÁ NÃO ME ENSINARAM PARAFUSOS. MAS NESSE LIVRO DE MANOBRAS ELEMENTARES, ESTAVA ESCRITO PELO AUTOR QUE ERA CRUCIAL APRENDER A ENTRAR E PRINCIPALMENTE SAIR DESSA MANOBRA, O PARAFUSO. NOSSO AVIÃO ERA UM TAYLORCRAFT 1947. 65 HP IGNIÇÃO MANUAL, NA HÉLICE. NAS MANOBRAS ALTO ACIMA DE 3.000 FTS ENSINAVA O ALUNO A LEVAR O AVIÃO A ATITUDE DE STOL ELE CAIA DE ASA E LEVANTAVA A OUTRA E INICIAVA O PARAFUSO NA TERCEIRA VOLTA COMANDAVA OS COMANDOS AO CONTRARIO A ROTAÇÃO, E O AVIÃO SAIA DE BOA. SOLEI VÁRIOS PILOTOS. E ME SINTO ORGULHOSO POR ISSO. O PARAFUSO É UMA MANOBRA QUE TODO O PILOTO TEM QUE TREINAR !

    • Augusto Fonseca da Costa
      3 anos ago

      Pois é, Antonio Carlos, se você tivesse dado instrução para meu filho de 19 anos, tenho certeza que ele estaria vivo. Morreu porque ninguém mais aprende nas escola de aviação sequer identificar um parafuso, quanto mais sair dele.

  6. Luiz
    3 anos ago

    Acho tudo isso muito estranho. Fiz o meu curso de PPA no Aeroclube de Bragança Paulista no final dos anos 80 e lá era normal treinar parafusos com Paulistinha mesmo. Tudo bem que eram 1 ou 2 voltas somente, mas, aprendíamos a recuperação, que é o que interessa nessa história toda. Em 1990, ao fazer o curso de PCA no Aeroclube de SP, treinei a manobra em Cherokee 140, com no máximo 2 voltas também. Nunca houve essa polêmica toda.

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Pois é, parece que a mistificação do parafuso aconteceu nos anos 1990, quando os Boero chegaram ao Brasil. Coincidência?

    • Augusto Fonseca da Costa
      3 anos ago

      É Luiz, bons tempos… Eu também quando fiz no cherokee 140, só tirei carteira de PP porque sabia sair de parafuso na escola Piper de Aviação.
      Só que tudo isso acabou, e os próprios instrutores estão preocupados por não poderem mais treinar parafusos e serem responsabilizados em caso de acidente.

  7. Augusto Fonseca da Costa
    3 anos ago

    Pode ser paranoia minha mas acho que a supressão do parafuso como exigência para a formação de PPAs teve relação com a entrada no Brasil de centenas de Aero Boeros argentinos, que ao que parece ou não toleram parafusos ou se entrarem não saem dele.
    O mesmo vale para as aeronaves Tupi da Piper, que não são homologadas para treinar parafusos, e são comuns em escolas de aviação por aí.
    Não duvidaria que houvesse um lobby para mudar as normas e ajustá-las aos limites dessas aeronaves.
    Muitas escolas operam aeronaves arrendadas e seus instrutores denunciam que por força desse contrato não podem fazer estóis completos e parafusos, e nem sequer deixar o aluno fazer voo solo. Essas escolas, verdadeiros vendedoras de carteira de piloto, geralmente alegam que a ANAC proibiu parafusos, coisa que nunca aconteceu.

  8. Humberto Branco
    3 anos ago

    Curioso, Raul: não há curso de planador em que os alunos não sejam apresentados a manobra e tenham que demonstra-la antes de serem checados. Esse “tabu”, acho, é próprio do mundo da aviação motorizada. Eu suspeito que a melhor aeronave para que alguém aprenda o que é um parafuso é o planador. Porém, pergunte aos Aeroclubes e Escolas de Voo a Vela como andam suas situações pelo Brasil… Não há regulação apropriada, a disseminação de instrutores é nula ou precária e o apoio a atividade, inexiste.

Deixe uma resposta