O Anuário Estatístico do DECEA (e algumas extrapolações para começarmos a entender corretamente os acidentes da aviação civil brasileira)

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O DECEA acabou de publicar seu Anuário Estatístico de Tráfego Aéreo em 2014, publicação que começou a ser produzida e disponibilizada no ano passado (sempre em relação ao ano anterior) – abaixo, os links para as duas edições disponíveis:

Anuário Estatístico DECEA – 2014

Anuário Estatístico DECEA – 2013

Há muitos dados, tabelas e números nos PDFs acima, sem dúvida – informações que podem ser úteis para muita coisa, de fato. Apesar disso, dependendo do que se pretenda compreender, a utilidade destes para o entendimento da aviação brasileira não é das melhores. Por exemplo: não há totais de movimentos por segmento da aviação – comercial, geral, instrução, etc. – ano a ano. Se tivesse, daria para confrontar os dados de tráfego aéreo com os dados de acidentes, publicados pelo CENIPA, para começar a entender se os acidentes no Brasil estão realmente diminuindo, como o Panorama Estatístico da Aviação Civil Brasileira (publicação do CENIPA) sugere. Mas como o próprio DECEA se coloca à disposição em seu anuário, vou entrar em contato para tentar obter tais números. Enquanto isso não acontece, vejamos o que ocorreu no aeroporto de Campo de Marte, em S.Paulo, um dos mais típicos da aviação geral do país, que eu acho que dá uma boa dimensão de como tem evoluído este segmento da aviação nos últimos anos. Os dados abaixo se referem a movimentos (pousos, decolagens, cruzamentos e TGLs) da aviação geral neste aeroporto:

estatSBMTImpressionante como a aviação geral vem perdendo espaço, não? As operações de SBMT diminuíram em mais de 1/5 nos últimos quatro anos!

Agora, vejamos como tem se comportado o número de acidentes neste mesmo período (dados do DECEA):acidCENIPAPercebem como, depois de saber o que ocorreu com a movimentação em SBMT, as estatísticas de diminuição de acidentes aeronáuticos parecem bem menos otimistas? Se o Campo de Marte for representativo da atividade brasileira na aviação geral, e sabendo que a maioria dos acidentes aeronáuticos acontece justamente neste segmento, então uma queda de 8,8% nos acidentes em 2014 não parece ser um bom número, se a aviação geral encolheu suas operações em 14,5% neste mesmo ano, não é mesmo? Na verdade, esses indicadores sugerem que a segurança da aviação pode ter piorado significativamente no período! Se os acidentes caíram cerca de 10% nos últimos 4 anos e a movimentação aeronáutica caiu 20%, a conclusão é que a taxa relativa de acidentes pode ter, na realidade, aumentado* no quadriênio 2011-2014.

É claro que não se pode extrapolar os dados de SBMT para todo o Brasil (isso já foi comentado, inclusive), e será necessário obter mais dados para se chegar a uma conclusão consistente. De qualquer maneira, os dados acima são interessantes para ilustrar como não dá para tirar conclusões de grande utilidade só com as quantidades absolutas de acidentes.

(*Obs.: Vejam o comentário do leitor Maicon, explicando que este aumento seria da ordem de 11,25% (e não “o dobro”, como eu havia dito inicialmente de maneira equivocada).

 

 

 

 

6 comments

  1. Maicon
    3 anos ago

    Não se pode falar que a taxa relativa teria dobrado. Não há essa possibilidade.
    Com queda de 10% nos acidentes e 20% nos voos, o aumento na taxa relativa será de 1/8 da taxa anterior.

    Exemplo: tínhamos 10 acidentes em 100 voos: taxa de 10%.
    Os voo caíram 20%: indo a 80.
    Os acidentes caíram em 10%, indo a 9.
    Nova taxa: 9/80=0,1125=11,25%
    O aumento foi de 1,25% (ou 1/8 de 10%, a taxa anterior).

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Muito obrigado pela correção! Já consertei o texto do post.

      • Maicon
        3 anos ago

        Ok. Mas o número de 11,25% seria a nova taxa de acidentes, no caso de o inicial ser 10% (que é uma taxa absurda: um acidente a cada 10 voos).

        O que é fixo, independente de exemplo, é q a taxa vai aumentar 1/8 (12,5%) em relação à taxa anterior.
        Se a taxa inicial for de 0,01% (um acidente a cada 10000 voos), a nova vai ser 0,01125% (um acidente a cada 8889 voos, aproximadamente).

  2. Augusto Fonseca da Costa
    3 anos ago

    Caro Raul, seria interessante que o DECEA disponibilizasse esses dados em format CSV para que se possa converter em banco de dados no Excel. Eles sabem fazer isso porque a ANAC o faz graciosamente às companhias aéreas, em 48 planilhas no anuário Anuário do Transporte Aéreo 2013 – Dados Publicação (ver em http://www2.anac.gov.br/estatistica/anuarios.asp.)

    • raulmarinho
      3 anos ago

      Já solicitei ao DECEA.

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