O incidente de tráfego aéreo que levou a uma “rota de colisão” entre um Boeing da Gol e um ATR da Azul

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Ontem aconteceu um incidente de tráfego aéreo que levou a uma “rota de colisão” (palavras de um dos pilotos envolvidos na ocorrência) entre um Boeing-737 da Gol e um ATR-72 da Azul – vide esta matéria da Folha de S.Paulo. A propósito, o “fórum de aviação” a que a reportagem da Folha se refere é, muito provavelmente, este tópico do Fórum Contato Radar que contém o áudio da fonia entre controladores e pilotos envolvidos na ocorrência.

Que há problemas de controle de tráfego aéreo no Brasil que persistem desde a época do “caos aéreo” é um fato – na verdade, nossa infraestrutura de ATC é muito parecida com a de 10 anos atrás, e o volume de tráfego cresceu bastante no período. Daí que este incidente pode ser só a ponta de um iceberg gigantesco que não vem sendo percebido claramente até agora. Veremos o que virá no relatório do CENIPA* sobre este incidente.

Porém, um outro aspecto que me chamou a atenção ao ouvir o áudio da comunicação entre o ATC e os pilotos – em especial a parte em que é o piloto da Gol quem fala – foi a falta de padronização, imprecisão, informalidade excessiva, e até certa inconveniência mesmo. Seria razoável o piloto chamar os controladores de “minha querida”/”meu querido”, reclamar sobre ter sido colocado em “rota de colisão” durante o voo, e falar que passou a 200ft da outra aeronave para, logo depois, afirmar que foi a “menos de 100ft”? É claro que estes erros não geraram o incidente, mas se queremos cobrar profissionalismo dos controladores, eu acho que é preciso demonstrarmos, primeiro, nosso próprio apreço por uma conduta estritamente profissional. Ou estou sendo muito “chato”?

– x –

Atualização de 01/07: De acordo com o leitor EC., o incidente seria investigado pelo próprio DECEA, e não pelo CENIPA. Acho um assunto importante, então vou colher mais subsídios para escrever um post explicando os limites de uma investigação de incidente de tráfego aéreo num futuro post.

 

17 comments

  1. Foreflap
    3 anos ago

    Raul e demais colegas, porque o TCAS das aeronaves envolvidas não os alertou da proximidade da colisão?

    • Marcos Véio
      3 anos ago

      Ora meu caro, se não ouve alarme do TCAS, logo não ouve rota de colisão. Simples assim.
      É tanto mimimi e Blablabla desse fóruns de pilotos de FS que olha….
      E esse povo que fica o dia olhando FlightRadar o dia todo? Vão namorar gurizada. rsss
      Sobre a fraseologia fora do padrão – sabem de nada inocentes.

      • Marcos Véio
        3 anos ago

        *h

  2. Anderson
    3 anos ago

    Uma das magias da aviação é com certeza a padronização que se segue tanto na fonia quanto na pilotagem! Foi um pouco fora do comum, mas “minha querida” foi pouco perto do susto e o sangue que deve ter subido a cabeça ao identificar uma rota de colisão ou possível colisão! Se um Urubu já deixa o cara apavorado e com vontade de falar! Imaginem um ATR-72?
    Uma coisa é certa, não devemos dar mídia para casos em que envolvam falta de padrão na fonia pois se a moda pega como já esta acontecendo em outras profissões que eram lindas de se acompanhar e hoje estão com um dialogo idiota e sem respeito o caos vai ser maior!

  3. Renato Ducap
    3 anos ago

    Caro Raul,
    O EC está correto em sua afirmação. Os incidentes de tráfego aéreo são investigados diretamente pelo DECEA, órgão responsável, como sabemos, pelo controle de tráfego aéreo no Brasil. As estatísticas desse tipo de incidente também é responsabilidade do DECEA. Gostaria de parabenizá-lo pelo excelente texto. Se desejamos que o outro faça a sua parte corretamente, devemos, pelo menos, fazer a nossa parte.

  4. Foreflap
    3 anos ago

    Nesse episódio, que considero grave, discutir “falta de padronização, imprecisão, informalidade excessiva, e até certa inconveniência mesmo” na FONIA é algo bastante improdutivo, uma vez que esses fatores em nada contribuíram para o evento foco. O Blog tem envergadura pra abordar a questão de pontos de vista muito mais produtivos e pertinentes. Por exemplo comentar que essa discussão desnecessária pós evento poderia deixar outras aeronaves na mesma situação de risco por não estarem com a frequência livre para receberem instruções. Ai ia ser bacana!

    Raul, isso é apenas minha humilde opinião, não veja como agressão por favor. Sou fã do site. O direcionamento para um assunto assim tão grave poderia ser focado na forma inicial do texto, infraestrutura, treinamento dos controladores, condições de trabalho, stress… Ou ainda o interessante fato da controladora ter sido imediatamente substituída após o incidente. Interessante esse padrão, gostaria de saber mais sobre isso, e esse é o blog que sei que dá esse tipo de informação interessante! Afinal, é um controle interno que pelo jeito funcionou quando instalada a “crise”.

    Exemplos de falhas de fraseologia padrão podem ser muito bem observadas em áudios (no youtube) de eventos no JFK e outros grandes aeroportos pelo mundo onde os controladores por vezes soltam pérolas mas que nem por isso são execrados por fugir do padrão.

    Não necessário publicar esse comentário, foi mais para dr ideias de temas para futuras colunas. Parabéns pelo blog!

    Abraço!

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Foreflap, acho suas críticas bastante válidas, então não vejo por que não publicá-las.
      De fato, suas sugestões são bastante pertinentes, e pretendo realizar esta abordagem num futuro post. o problema é que, infelizmente, minha disponibilidade de tempo está bastante exígua, então não estou tendo tempo para me aprofundar como deveria. Mas, graças a leitores como vc, a gente vai arrumando as coisas pelo caminho… Obrigado pela contribuição!
      Abs,
      Raul

    • Renato Ducap
      3 anos ago

      Nobre Companheiro Foreflap, a minha intenção também não é gerar nenhum distúrbio com o seu comentário, mas sim colocar a minha opinião. É sabido que toda padronização tem como objetivo simplificar os processos e diminuir os erros. Isso também se aplica a frase o lógica na aviação. Termos padronizados servem para facilitar a comunicação e evitar erros de entendimento. Esse é um dos motivos que o “ok” não deve ser utilizado. Um outro exemplo é falar “afirmo ” ao invés de “afirmativo”. Também é sábado que, no JFK que o Sr citou, é comum os controladores utilizarem termos que fogem da padronização. Por isso, também é comum achar na Internet, vários episódios em que alguns pilotos, na maioria estrangeiros, tiveram problemas por causa disso. Concordo quando o Sr coloca o problema da infraestrutura. Não sabemos até que ponto isso teve influência no ocorrido, mas todos do meio aeronáutico sabem que esse é o principal problema a ser enfrentado em todos os setores, seja controle de tráfego ou infraestrutura. Acho ser essa a nossa briga com as autoridades. Desde já deixo meu apreço pelos leitores do blog e desejo felicidades a todos.

      • Foreflap
        3 anos ago

        Excelente contribuição Renato Ducap. Não causou distúrbio algum ao meu comentário, inclusive gostei muito do ponto de vista, há muito o que falar sobre fatos dessa natureza e suas diversas nuances. Sorte termos um espaço para debater e tentar melhorar um pouco nossa profissão. Mais uma vez méritos e agradecimentos ao Raul.

  5. EC.
    3 anos ago

    Esse incidente não é investigado pelo CENIPA, vai ser investigado internamente no próprio órgão através do RICEA, conduzido por um oficial CTA indicado pela SIPACEA 3. Existem inúmeros airprox que não são divulgados. O iceberg que está debaixo d’agua realmente assusta.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Obrigado pela correção, já adicionei uma atualização ao post com suas informações. Se vc puder me passar a regulamentação sobre os limites de investigação de incidentes de tráfego aéreo (isto é: quando é o CENIPA e quando é o DECEA que investiga), eu agradeço, pois gostaria de publicar um post sobre este assunto.
      Abs,
      Raul

      • EC.
        3 anos ago

        Prezado Raul,
        No site de publicações do DECEA se realizar uma busca pelas ICA’S com a numeração 65 achará farto material que trata do assunto.

        • EC.
          3 anos ago

          Perdão, são as ICA’S 63. Especificamente a 63-30

  6. Fred Mesquita
    3 anos ago

    Como o áudio não está muito bem audível, deu para perceber um repentino atraso na resposta do ATR da Azul em relação à ordem da Controladora. Notem que ela repetiu por duas vezes uma solicitação para baixar com razão máxima. Talvez ela tenha percebido o erro e tentou sair dele. Também a proa inicial do GOL era 060º, depois por indicação do controle para livrar o tráfego, seria 350º. Nesse espaço de tempo entre ou ou outro obedecer de imediato é possível que as aeronaves tenham chegado tão próximo. Mas estou apenas conjecturando, minha hipótese.

  7. O “Minha Querida” não soou lá muito bem, realmente, além do que não é das coisas mais produtivas bater boca em fonia em freqüência congestionada. Quando pousar, mete a caneta (ou o teclado) e pronto. RELPREV neles, com a melhor riqueza de detalhes possível, e deixa o Safety da empresa encaminhar a questão.

  8. DarwingDuck
    3 anos ago

    Analisemos o cenário com calma: Quase colisão, risco potencial de acidente, situação completamente inesperada e um avião lotado de passageiros. Existem situações onde ser polido, padronizado e calmo na fonia é perfeitamente possível. Existem outras onde, por mais que nós achemos ruim, é completamente difícil. Assim como também é difícil tecer uma análise a respeito do comportamento dos pilotos e da controladora responsável por aqueles tráfegos. Somos humanos ainda.

    Raul, acho seu questionamento bastante interessante, mas confesso que temo (até mesmo pelo notório alcance do blog) pelos aviadores quando questionamentos assim surgem em locais bastante frequentado por pilotos/empresas.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Você acha mesmo que esse tipo de comportamento na fonia ocorreu pelo nervosismo da situação? Ou não lhe pareceu uma fonia comum de se ouvir por aí, em situações corriqueiras?

      Quanto à importância do blog, fico lisonjeado, mas quando escrevi estas mal traçadas, os fatos já estavam na Folha de São Paulo e no Fórum Contato Radar (fora o Estadão, o R7, etc.).

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