“A crise no mercado de trabalho” – e algumas particularidades da aviação

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O Estadão do último sábado, 04/07, publicou um excelente editorial sobre “a crise no mercado de trabalho” – que, agora, gostaria de expandir com algumas particularidades do mundo da aviação. A regra geral sobre o momento em que vivemos em termos de empregabilidade está toda no artigo citado, mas como a aviação possui uma dinâmica peculiar e muitos segmentos diferentes, então acredito que vale a pena falar sobre disso também:

1)Aviação Comercial (linha aérea – avião) – estabilidade com viés de alta

Nas quatro grandes do setor – TAM, Gol, Azul e Avianca – não há rumores de demissões em massa. Pode ser que haja algumas contratações em pequeno volume para repor os aeronautas que estão deixando o país (para voar na China e no Oriente Médio, principalmente), ou que estão se aposentando; e talvez ocorra alguma contratação um pouco mais substancial na Azul. Enfim, dado o cenário brasileiro atual, até que a linha aérea brasileira está reagindo bem. Se o PDAR ressuscitar em 2017, pode ser que tenhamos um médio prazo melhor.

2)Aviação off-shore (táxi aéreo especializado – helicóptero) – mercado em baixa com riscos adicionais

Enquanto a Petrobras e o próprio mercado de petróleo não reagirem, este segmento deve continuar em baixa, e as demissões devem se intensificar neste segundo semestre, infelizmente. Há, entretanto, riscos ainda maiores: se uma grande empresa de táxi aéreo offshore aparecer envolvida em algum escândalo de corrupção (o que é algo a que todo fornecedor da Petrobras está sujeito no momento), então a situação pode se agravar ainda mais. Neste caso, haveria a substituição da empresa envolvida por alguma outra no longo prazo, e no final a demanda por pilotos não se alteraria – afinal, “alguém tem que levar os funcionários das petroleiras até o local de trabalho” -, mas enquanto esse movimento estiver em curso, muita gente poderá ser demitida.

3)Aviação agrícola (avião) – mercado em alta, mas cada vez mais saturado

Como o agronegócio é a única atividade que realmente cresce no Brasil, é de se esperar que a aviação agrícola vá na mesma toada – e, de fato, este é um negócio que vai bem no portfolio aeronáutico brasileiro. Só que uma coisa é o negócio, outra é a empregabilidade de quem atua nesse negócio, que nem sempre andam juntas… Explicando isso em números: se a frota de aeronaves agrícolas cresceu de 900 para 1.923 aviões de 2004 a 2013 (aumento de 114% no período), a quantidade de pilotos agrícolas formados anualmente no mesmo período saltou de 83 para 230 PAGAs (aumento de 177%). Então, há que se tomar cuidado com essa história de “a aviação agrícola tá bombando!, ‘bora fazer o CAVAG!?

4)Táxis aéreos e aviação executiva/particular (avião e helicóptero continental) – mercado em baixa

Estes são segmentos que flutuam de maneira similar à economia como um todo. Se o país cresce, executivos têm que cruzar os ares para prospectar negócios, engenheiros têm que fazer análises técnicas do outro lado do país, etc., e todos usam o táxi aéreo ou a aviação executiva/particular com muita frequência. Já se o país está em recessão, não há porque viajar tanto a negócios e, por outro lado, deve-se cortar custos. Então, enquanto a economia não reaquecer, as empresas de táxi aéreo não voltarão a crescer e os empresários não investirão em novas aeronaves – e, por consequência, as contratações de pilotos não acontecerão. Simples assim.

5)Instrução (avião e helicóptero) – mercado em baixa

O mercado da instrução aérea vive de expectativas. Se a sociedade acha que “vai faltar piloto”, os aeroclubes/escolas de aviação ficam abarrotados; já se acontece o oposto… Bem, e apesar de “reportagens” ufanistas como esta ainda estarem sendo veiculadas, não me parece que o público em geral siga acreditando na lenda do “apagão de pilotos”. Além disso, há a falta de recursos para investir na instrução aeronáutica, que é e sempre foi muito cara. Então, eu acho que a profecia descrita neste post está se concretizando…

Conclusão

De acordo com o estudo apresentado no post em que falei sobre o IEP-Índice de Empregabilidade de Pilotos, subdividi a aviação de asa fixa e rotativa de acordo com o número de vagas de trabalho para aeronautas em seus principais sub-segmentos, da seguinte forma:

graficos de empregabilidade

Assim, levando-se em conta a análise efetuada no início deste post, temos que, para a asa fixa, pelo menos 39% do mercado (os 31% da linha aérea e os 8% da aviação agrícola – os percentuais com círculo vermelho no gráfico acima) estaria entre neutro e positivo; logo, a crise estaria afetando 61% do mercado de trabalho para pilotos de avião. Já para a asa rotativa, infelizmente todos os sub-segmentos estão sendo afetados pela atual crise.

Finalmente, há que se comentar um fato negativo que está afetando fortemente os pilotos da aviação executiva/particular (asa fixa e rotativa). Como neste sub-segmento há uma predominância de contratos de trabalho informais ou ‘pejotizados’, neste momento de crise, os pilotos têm sido chamados a renegociar estes contratos com reduções significativas, na maior parte do casos entre 20% e 40% (mas, não raramente, superando os 50%). Desnecessário lembrar que, se estes contratos estivessem corretamente formalizados (registro em CTPS), esse problema não existiria.

17 comments

  1. Felipe Franco
    2 anos ago

    Boa tarde. Tenho 31 anos e tenho grande interesse em ingressar no ramo, como piloto de helicóptero. Sou de Santa Catarina, Balneário Piçarras, e gostaria de saber se, na minha idade, seria coerente investir R$ 100 mil para ingressar no ramo e buscar novos caminhos profissionais. Há mercado para tais profissionais? Quanto tempo eu levaria para estar apto, já dispondo dos recursos financeiros para realização de cursos e horas/aula?

    • Raul Marinho
      2 anos ago

      Minha sugestão: inteire-se sobre a atividade, experimente fazer um voo de instrução, frequente o meio antes de qualquer coisa.

  2. Eduardo Marinho
    2 anos ago

    Ola possuo 20 anos tenho interesse em entrar na area de aviação, sei que o mercado não se encontra em boa fase, mais quero muito. Eu não tenho muitas condições então farei todo esse processo lentamente iniciei minhas aulas de ingles que durarão 5 anos e calculei meus gastos pra cumprir o pp e pc no mesmo prazo do curso entre 5 a 6 anos espero que eu realmente consiga pois os valores são bem acima do que eu realmente possa pagar mais irei perseverá, caso o mercado dentre esses 5 anos melhore, voces acreditam que haverá espaço para jovens pilotos recem-formados como eu no mercado ? Desde ja agradeço.

  3. Diogo
    2 anos ago

    Estou cursando o PPA, e tenho intenção de cursar o PCA. Porém é assustador o cenário atual da aviação, um investimento muito alto e com uma chance muito baixa de empregabilidade.

  4. Erick
    3 anos ago

    Pretendo ser piloto comercial, porém, os meus recursos não são muitos, eu pretendo tirar a certificação de CPD, CPR (ultraleve) por enquanto, ir tirando umas horas de vôo enquanto termino o ensino médio e depois PP (pois sei que é necessário ensino médio completo) e depois PC. O que você acha?. As horas para ultraleves são mais baratas?.
    Obrigado.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Seria muito mais vantajoso vc começar sua instrução pelo Planador. É muito mais barato que CPL (CPD e CPR não existem mais), dá muito mais “pé e mão”, e permite abater horas do PC.

  5. Erick
    3 anos ago

    Esqueci de dizer, Moro no Rio de Janeiro e pretendo fazer para avião e helicóptero e o meu objetivo sempre foi táxi aéreo.
    Att: Erick

  6. Erick
    3 anos ago

    Pretendo ser piloto e iniciar o curso ao final do ano que vem, pois, as condições ainda não são favoráveis, eu tenho medo de investir muito dinheiro e não conseguir um emprego.
    Será que vale apena iniciar o curso?.
    Existe alguma previsão de melhora daqui a alguns anos?.
    Não posso arriscar financeiramente a minha vida, porém, esse sempre foi meu objetivo.
    Obrigado.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Honestamente, se vc “Não posso [pode] arriscar financeiramente a minha [sua] vida”, então não “invista” num curso de piloto.

  7. PilotoAG
    3 anos ago

    Trabalho na aviação agrícola e estou na terceira safra. Dei instrução por um período de quase 2 anos e também como lançador de paraquedistas simultaneamente. A principio a meta era voar na executiva ou comercial, fiz faculdade de CA, Jet, tirei todas as carteiras e estava na época com o inglês afinado, só faltou fazer a banca ICAO. Eis que empresa alguma estava chamando, e eu caio na real que a executiva é aquela coisa, ou tem sorte e esta no lugar certo na hora certa, ou tem que ficar lambendo alguém, coisa que nunca me permeti fazer pois não é do meu feitil.
    Como sabe-se instrução chega um momento que a melhor coisa é passar sua vaga a outro e dar continuidade a vida, e foi nessa que decidi fazer o CAVAG. Muitos podem falar o que for, mas aqui aprendi muito, tomada de decisão principalmente, porém o buraco é mais embaixo. Uma piscada e todos sabem muito bem o final.
    Atualmente voltei a praticar o inglês e estou estudando novamente regulamentos, peso e balanceamento, cartas, etc. A idéia e tentar me encaixar na comercial, só que tomei decisão justo no pior momento, mas vamos a luta.
    Cada um tem seu espaço no momento certo, só não deixarmos aqueles pessimistas nos levarem para baixo.

  8. thiago felype
    3 anos ago

    Seu Raul Marinho, estou pesquisando tudo sobre a profissão devido a meu interesse, mas pelos comentários acima confesso q realmente fiquei com medo de entrar…
    você poderia me enviar um e-mail para que eu possa conversar melhor com você!? Sou de Florianópolis, tenho 23 anos… meu e-mail é dc.projetos@outlook.com
    obrigado pelo mesmo e aguardo retorno!

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Estou às ordens, mas eu recomendo que vc antes explore o blog e leia o e-book, pois 99% de suas dúvidas provavelmente já foram respondidas aqui nestes mais de 4 anos de PSP.
      Meu e-mail: raulmarinho@yahoo.com

  9. Eduardo
    3 anos ago

    Depois de 4 anos de formação, quase 100.000 reais investidos, 1 ano trabalhando como piloto (C172 de um empresário e copiloto de Seneca II)…
    Estou largando a aviação comercial por falta de colocação.
    À aviação é uma paixão cara e um mercado extremamente instável!

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Lamento muitíssimo, Eduardo! Acompanhei a sua formação quase inteira, e sei do teu entusiasmo para com a aviação. Mas se vc quiser se manter ativo no meio, mesmo que não necessariamente voando, entre em contato, pois tenho vários projetos onde vc pode se encaixar. Vc sabe onde me encontrar, não?

  10. Leitor
    3 anos ago

    Enquanto isso….a Passaredo, que não paga FGTS desde OUT/2011, atrasou os salários desse mes de novo…

  11. Bruno T.
    3 anos ago

    Concordo com a postagem Raul mas mesmo dando uma bela visão da atual realidade ela me parece ainda mais amena do que a realidade atual.
    Felizmente ainda tenho conseguido manter meu emprego (contratado formalmente via CTPS) mas está claramente ficando mais difícil pois, embora não seja possível a redução do salário, o que mais temos recebido na empresa são currículos de outros pilotos dispostos a receber muito menos, alguns se oferecendo pelo piso!
    Costumo dizer que a “prostituição” no mercado já começou com tudo mundo se oferecendo em todos os lugares…
    Infelizmente na aviação somos técnicos especializados na operação de um equipamento específico (e raro, para o mercado nacional) e fora da aviação um piloto com 100 horas ou com 10.000 horas dá no mesmo para uma empresa te contratar em algum cargo, comercial, vendas, etc…

    Por isso a necessidade também de nunca pararmos no tempo achando que nossa carreira é vitalícia pois o que mais temos na nossa frente são obstáculos… Sejam exames médicos, psicotécnicos, buRRocracia da Anac, concorrência desleal, etc… E termos por conta disso tudo, sempre um plano B, uma reserva de emergência, enfim… Nos preparamos sempre para os voos, temos que nos preparar para estes tempos turbulentos também… Confesso que se perder o emprego para um “colega” que se vendeu mais barato, acabaria tendo que abandonar a aviação por um tempo e arrumar algum emprego qualquer até o mercado voltar a se aquecer pois se ja está ruim para quem está dentro, para quem está fora do mercado vejo pouca esperança…

    Bons voos e que esse temporal melhore adiante a todos…

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Pois é, mas já que vc é contratado com registro, para o teu patrão te demitir, ele vai ter que pagar 50% de multa sobre o FGTS, férias e 13o proporcionais, aviso prévio… Para economizar quanto? Depois de quanto tempo o piloto mais barato vai começar a se pagar? Até lá, o proprietário pode ter se recuperado ou falido de vez, né? E se o mercado se reaquece, esse piloto vai ser o primeiro a procurar outro emprego, e aí? Percebe como fica tudo mais difícil? Já para o pejotizado, não, basta emitir a nota 20%/30%/40% a menor no mês que vem e estamos conversados…

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