“Considerações sobre agendamento voo de cheque” – O relato de um INSPAC

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O texto abaixo me foi enviado por um INSPAC que atua como checador da ANAC, e trata-se de uma espécie de “Guia para o piloto que quer ser checado”. Pelo menos foi esta a intenção de seu autor, que assinou e detalhou o local onde trabalha na mensagem que me foi originalmente encaminhada – informações que omiti para evitar eventuais retaliações de sua chefia e/ou de outras áreas da Agência. De qualquer modo, caso haja dúvidas ou contestações a fazer, escrevam seus comentários (ou enviem-me um e-mail, caso queiram manter discrição) que eu os encaminharei posteriormente ao autor.

Ocorre que, muito mais do que um guia para pilotos, este relato revela a precariedade administrativa da atividade de verificação de proficiência de pilotos por parte da ANAC. Embora não tenha sido esta a intenção de seu autor, a descrição do processo de agendamento de cheques expôs um procedimento confuso, ineficiente e amadorístico relacionado a uma atividade absolutamente crítica de uma agência reguladora de aviação, que é a verificação de proficiência de pilotos. Sei que há um novo regulamento sobre cheques de pilotos em construção neste momento, e estou ciente dos esforços da SPO para melhorar diversos procedimentos operacionais da ANAC. Mas, apesar disto, é chocante ler que o agendamento de cheques ainda é feito da maneira abaixo relatada.

Segue o texto exatamente como chegou até mim, somente com a supressão dos dados do autor:

Prezado Raul,
Vejo que muitas pessoas tem dúvidas e reclamações quanto a voos de cheque, especialmente quanto a demoras para agendar o exame. Então resolvi apresentar umas considerações.
Mas antes de tudo gostaria de apresentar minha estatística pessoal:
– De todos os exames que fui escalado para fazer este ano, mais de 2/3 foram cancelados.
Isso mesmo, tenho 2/3 de cancelamentos. Numa busca rápida no sistema da escala, diversos colegas que conheço também tem um índice de cancelamento entre 50 e 85%. E essa é a principal razão que causa atrasos na marcação do exame.
Como a escala funciona e por que isso acontece?
 – Primeiro de tudo, você precisa saber que todos os exames são realizados por servidores voluntários. Não há um grupo de pessoas dedicadas para isto. A escala pergunta aos INSPACs, um a um, se poderia realizar o seu cheque. Para isso a escala segue uma lista que divide os inspetores em grupos, por qualificação do inspetor e tipo de exame – de cara, se seu exame é de uma habilitação incomum dentre os servidores, como por exemplo INVA, seu cheque só vai poder ser realizado por um grupo bem restrito de pessoas. INVA é incomum? Sim. Poucos inspetores, civis ou militares, tem essa habilitação. Rebocador de planador é uma ainda mais difícil. Se seu exame for inicial de PLA ou PLAH, também cai numa lista restrita.
 – Ou seja, estou lá, no meu dia a dia de trabalho, em um setor que não tem nada a ver com habilitação de pilotos, quando recebo um e-mail da escala perguntando se eu teria disponibilidade para realizar de 2 a 6 exames em determinada localidade, e como um pacote fechado – não posso fazer só uma parte, em princípio são todos ou nenhum. Esse e-mail lista os exames em questão, os dados de contato dos interessados, e o local que você preencheu onde será realizado o cheque. Tenho 2 dias para responder se sim ou se não – e se responder que não o mesmo e-mail vai para o próximo inspetor da lista.
 – Se eu já tenho muitos exames pendentes, ou muitas outras tarefas que requeiram minha continuada presença em meu setor, ou tarefas externas do meu setor, nem leio o conteúdo e já recuso o cheque, para a fila andar mais rápido. Se eu vou sair de férias, também aviso à escala para que não me mande convocações no período.
 – Agora começam os problemas: a primeira coisa que eu vejo quando penso em aceitar um cheque, é o local. Se for um local de difícil acesso, também é difícil que eu aceite. Por que isso, estou sendo chato? Não. É uma mera questão logística. Tenho o maior prazer de ir em diversas localidades do interior, ou capitais do norte, como sempre faço. Mas a minha principal questão é como chego e como volto do local. Qual a disponibilidade de voos regulares para lá? Vou ter que sair de casa ou do local de madrugada? Quantos dias terei que passar fora? Ah, não tem voos regulares? Bem, consigo chegar de carro em um curto período de tempo? Se as duas respostas forem não, eu provavelmente vou recusar o cheque. E não pense que só na região norte tem lugares de difícil acesso não – recuso cheques em Varginha – MG várias vezes no mês: a cidade não tem transporte aéreo, e por meio rodoviário está longe demais de Brasília, São Paulo ou Rio. Cruzeiro do Sul – AC tem voos regulares – mas pra chegar lá são 2 dias de deslocamento para ir, e mais 2 para voltar. Por fim, se se for necessário que eu pernoite, e os hotéis de sua cidade forem caros demais para o meu bolso, também vou recusar.
– Não diga um local na solicitação e tente trocar quando eu entrar em contato. Eu vou pedir para cancelar seu cheque. Se você tem possibilidade de fazer o exame em múltiplas localidades, escolher sempre a de mais fácil acesso para o inspetor vai fazer com que seu exame seja marcado mais rápido.
– Tem ainda muita gente que solicita fazer em aeronave exames que requerem treinamento em CTAC, achando que vai conseguir burlar o requisito. A escala não filtra esses, que entram na fila e atrasam tudo. Tem também os que fazem múltiplas solicitações da mesma coisa – essas às vezes são filtrados, às vezes não.
– Mas ainda não cancelamos nada. Isso acontece DEPOIS que eu aceitei o cheque.
– Primeiro que muita gente informa dados de contato incorretos. Ou não responde meus e-mails. Ou nunca atende ao telefone quando ligo. Ou, por algum motivo, pagou um despachante para preencher o formulário do site da ANAC e o despachente informou os dados dele e não do piloto. Então, se eu não consigo contato, eu solicito à escala que cancele a solicitação. Saiba também que, por algum motivo, se você usa e-mail do Hotmail, vai ter dificuldades em receber os e-mails da ANAC, que podem atrasar ou não chegar.
– Ah, mas consegui consegui contato! Mas aí descubro que, muitas vezes, a pessoa já fez o cheque com outro inspetor, ou com um examinador credenciado, ou, por algum motivo desistiu e não falou para a ANAC.
– Ou então consegui contato, mas a pessoa não dispõe de aeronave, que está em alguma manutenção eterna, ou ainda vai pedir para um amigo e não sabe se irá conseguir. Já houveram casos em que eu fiquei 4 meses com exames pendente de execução e as pessoas me enrolando dizendo que depois marcam.
– Ainda há o caso comum de pessoas que esqueceram de avisar com antecedência que gostariam de realizar o exame juntas, e só aceitam marcar o exame se for com o mesmo inspetor. Isso implica que, se eu tiver disponibilidade, tenho que correr atrás da escala para saber se será possível. E muitas vezes não será, porque seu colega quer algum tipo de exame que não posso solicitar. Aqui é importante você perceber que, se insistir muito, poderá acabar solicitando uma combinação de exames impossível de atender. Ou ainda, você vai preferir marcar com outro. Mais um cancelamento pra mim.
– Neste momento, é muito importante que você saiba que 30 dias depois que aceitei seu cheque eu começo a receber cobranças diárias de sua execução por parte da escala.
– Lembra que disse que é um pacote fechado de exames? Então a data que você pode tem que combinar com a data que eu posso, e com a data que as outras pessoas do pacote podem. E não adianta achar que essa data será amanhã ou depois de amanhã: o serviço público federal, como um todo, exige 10 dias de antecedência de marcação de viagens. Então, na perfeita conjunção de estrelas, seu cheque será no mínimo 10 dias depois que você me respondeu. E aqui, infelizmente, muitas pessoas são egoístas e não ajudam o sistema a funcionar como deveria. É mais comum que, quando eu comece a tratar com você, as datas possíveis sejam para 20 dias depois de nossa conversa.
– Lembra ainda que eu disse que tudo isso era serviço voluntário?
Então, são 2/3 só de cancelamentos. Isso deixa o sistema inteiro mais lento que deveria ser.
Antes de terminar, vou comentar mais umas coisinhas que acho importantes:
– No dia marcado, por favor esteja com tudo pronto. Deixe o plano de voo pronto, e faça DLA conforme necessário. Apresente-se com toda sua documentação e da aeronave, e com as informações pertinentes para o voo.
– Tenha certeza que sua aeronave está em condições de voo. Já perdi a conta das vezes que cheguei no avião e descobri que seu rádio não funciona, ou sua bateria está descarregada, ou sua aeronave não possui instrumentos e você quer um cheque de IFR, ou mesmo que seu painel pega fogo na hora da partida. Você não quer que eu interdite sua aeronave, quer?
– Ainda sobre os instrumentos: não vai fazer cheque de IFR se sua aeronave não possui os instrumentos. Um deles é o cronômetro. Nada de improvisos. E se o piloto insistir muito eu vou multá-lo.
– Só vamos para o voo depois do briefing. E sim, é possível reprovar nele. O mínimo que você deve fazer antes do cheque é estudar. Se você não sabe nada do seu avião, nem deveria ter solicitado o exame.
– Quanto tempo dura o voo? O tempo que for necessário para que você me mostre todas as manobras requeridas em nível satisfatório. Isso depende mais de você e do ATC do que de mim.
Atenciosamente,

37 comments

  1. Lucas
    3 anos ago

    Muito obrigado pelo post Raul, e pelo autor do texto em mostrar a nossa realidade. Na minha opinião o problema não está no INSPAC e nem nos pilotos… Os pilotos não têm o mínimo de informações que precisam para agilizar o processo. E o INSPAC precisa seguir um processo completamente mal planejado e com uma série de falhas. No lugar dele também não me sujeitaria a certas condições, pois cada um precisa sustentar a sua família e não é obrigado a ficar arcando com despesas desnecessárias como estadia.
    Realmente espero que a ANAC ou nós pilotos possamos fazer algo a respeito… Nem que seja recorrer aos examinadores credenciados, porque a ANAC mostra claramente que não tem condições de gerenciar esse tipo de coisa.

  2. Leitor
    3 anos ago

    Poucas vezes li uma demostração de tamanha arrogância e prepotência.
    Valores invertidos….estamos a mercê de pessoas que deveriam trabalhar para nós…
    Comportam-se como donos das aeronaves e das nossas profissões,quando não passam de frustrados.
    Repugnante.
    Depois de 29 anos voando 91, 135 e 121, ter que me submeter aí isso para poder continuar trabalhando chega a ser um deboche desse cidadão.
    Muito ocupado…deve ser por isso que qualquer documento da anac demora tanto…
    Bando.

    • Beto Arcaro
      3 anos ago

      Cruzes…
      A sua interpretação de texto é que tá “invertida” amigo.
      O INSPAC foi super humilde e corajoso, em “falar a verdade”.
      Não entendi!

      • Leitor
        3 anos ago

        Caro Beto
        Referi-me a arrogância desse cidadão em escolher local em que ele vá ou não vá, conforme a distância ou a qualidade do hotel. Enquanto eles, os humildes, escolhem qual cheque fazer, ficamos sem cheque…
        Eu não estou contente com o serviço da Anac….se tu estás, ótimo.

        • Anonimo
          3 anos ago

          Onde assino?

    • Beto Arcaro
      3 anos ago

      Como “Leitor”, você deveria continuar “só lendo”.

      • Leitor
        3 anos ago

        Tens razão Caro Beto…devo continuar lendo e esperando 4 meses para uma LOA de RVSM, seis meses por uma LOS de PBN, mais um monte de tempo para sair a revalidação de ICAO….tudo isso pq os ” humildes” estão ocupados.

        • Beto Arcaro
          3 anos ago

          Ninguém aqui está contente com os serviços prestados pela ANAC.
          É justamente o que este “Servidor” tenta demonstrar.
          Você leu meu post abaixo?
          Tem gente boa na ANAC, só que esse pessoal não delibera nada!
          Existem também INSPAC’s horríveis, que nem são aviadores de verdade, mas o caso nem é esse.
          Continuo apoiando a coragem do tal INSPAC em nos mostrar a realidade dos fatos.
          PS: 4 meses por uma LOA?
          Não seriam 4 anos?
          E desde quando, LOA é exigida para efetuar um RNAV de não precisão?
          Essa é outra idéia idiota da ANAC para que se “comprem facilidades”.
          É isso não é culpa do INSPAC.

          • Leitor
            3 anos ago

            4 meses para EMITIR a LOA de PBN e de RVSM…a validade é outra coisa…e não são 4 anos.

            • Beto Arcaro
              3 anos ago

              Não estou falando da validade…

              • Leitor
                3 anos ago

                Para executar RNAV, aeronave e tripulação devem estar homologadas, com LOA,. Certo ou errado, é regulamento….que os “humildes” da Anac exigem, e demora 4 meses em média para ser emitida, depois do processo pronto. A do RVSM tbem., enquanto não sai a LOA do RVSM, VC fica voando um jato no 280 consumindo quase o dobro, e os humildes da Anac ocupados.Tem gente boa na Anac? Tem…até no PT tem gente boa.

  3. Senhor Traquitanas
    3 anos ago

    Só observo!

  4. Beto Arcaro
    3 anos ago

    É aquela velha história:
    Não posso rechecar com examinadores de Escolas/Aeroclubes em Avião TPP (No Avião que eu piloto) sendo que esses, passaram pelas mesmas Avaliações e Treinamentos que os INSPAC´s da ANAC e conhecem a Aeronave à ser voada.
    Se quiser rechecar na aeronave que voo, sou obrigado a fazê-lo com um INSPAC designado pela ANAC, que nem sempre conhece o avião e seus sistemas (na maioria das vezes, não!).
    Aí, eu vou na Escola/Aeroclube, faço o meu recheque por lá, e fica tudo certo.
    Isso não parece meio estranho?
    É difícil mudar essa situação?
    Seria rápido?
    Ou será que é mais uma daquelas coisas que a gente pergunta para o SPO e ele responde:
    “Ah! Enquanto as estatísticas não verificarem que isto não vai ter impacto negativo na “Segurança de Voo”, não podemos mudar essa questão.
    Oras!
    Como é que as estatísticas vão “Verificar”, se a resolução do problema não é aplicada??
    Situação parecida com a questão dos “Turboélices Tipo/Classe”, que aliás, nasceu daquela série de protestos contra a questão do “simulador para Tipo”.
    Houve muito barulho !
    A ANAC cedeu rapidinho, na questão dos Monomotores Turboélices, como um “Cala boca” pra Turma.
    Saíram “à Francesa”, e nada mudou.

  5. Marcius
    3 anos ago

    O Ministério da Mandioca adverte: a ANAC é prejudicial â saúde.

    Voltou minha gastrite!!!

  6. Hurt-Wing Bird
    3 anos ago

    Na verdade, o projeto de regulamentar o examinador credenciado ‘freelancer’ não vai pra frente porque os Inspac da ANAC não querem largar o osso. Afinal é sempre maneiro descolar uma viagem para um lugar diferente, sair um pouco do escritório, expandir a rede de contatos e influência no mercado e ainda ganhar umas diárias daqui e outras milhas dali. Chamar um trabalho como esse de voluntário chega a soar como piada. A culpa é nossa, de nós pilotos, que permitimos estarmos tão mal representados ao ponto de servidores da ANAC sobreporem interesses particulares sobre as nossas necessidades.

  7. Wagner
    3 anos ago

    Boa noite Raul, gostaria q vc, se poder ou alguém q siga o blog, possa responder minha duvida aqui no blog ou até mesmo o próprio autor do texto acima, minha duvida e a seguinte eu gostaria de saber uma estimativa de tempo realistas porem com uma visão pessimista, sobre o tempo para checar meu PP-A e PP-H? desde do dia do agendamento do cheque até o dia do voo cheque? ex: 10 dias, 1 mês? A já ia me esquecendo parabéns por publicar o texto e a informação acima, e também parabéns ao autor pela coragem e sinceridade, na minha opinião foi um texto e uma informação de extrema importância, e por outro lado muito triste a informação acima, de como a aviação civil no Brasil e tratada, mas sempre há esperança no fim do túnel não é.

    Aguardo contato.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Na verdade, vc checa o seu PPA/PPH com checador da própria escola, em poucos dias.

      • wagner
        3 anos ago

        Boa noite Raul, obrigado pela resposta, só tem mais uma perguntinha, quanto tempo demora para a CHT constar no site da ANAC e rápido não é? E quanto tempo a CHT demora para ser emitida, ou seja chegar na minha residência?

        Aguardo contato.

        • Raul Marinho
          3 anos ago

          É randômico… Às vezes, é no dia seguinte, às vezes demora meses.

          • Wagner
            3 anos ago

            Nossa! Ok Raul muito obrigado.

  8. Marcelo
    3 anos ago

    Raul
    Seria tão fácil resolver isso ! Na época DAC havia muitos checadores credenciados ! Aviadores que conheciam os equipamentos pois voavam os mesmos e tinham muitas horas neles !
    Pois bem bastaria setorizar e levantar quantos pilotos por Ex de King air c90 existem na região tal quantos fizeram simulador do equipamento quantas horas tem voadas no equipamento? Sr vc gostaria de ser checador credenciado da Anac para a aeronave tal na região tal ? Receberá um valor x por cheque! Ou como na época do DAC vc terá toda taxa de qualquer serviço do órgão isenta de pagamento! Teríamos talvez 3 ou 4 ou mais checadores com conhecimento específico e experiência na aeronave ! Mas não deve ser interessante para a agência !

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Isto é, na verdade, muito próximo a proposta da SPO que eu citei no post, sobre a regulamentação de checadores não-INSPACs.

      • Marcelo
        3 anos ago

        Se quiserem resolver é fácil basta terem boa vontade !

  9. Antonio Joaquim Carvalho Guimarães
    3 anos ago

    É triste é humilhante para todos os Brasileiros verem um relato como este. Não sei onde iremos parar com tanta humilhação, tanto abuso de autoridade, tenta ineficiência. Devemos reagir e exigir nossos direitos garantidos na Constituição, indo buscá-los na JUSTIÇA que ainda é o último reduto para alcançá-los. Não podemos é nem de emos ficar à mercê desses BURROCRATAS dirigindo nossas vida, nossa profissão e cerceando nossos direitos. REAJAMOS! Calados e só falando em blogs ou facebook não chegaremos alugar nenhum.

  10. Drausio
    3 anos ago

    A situação descrita é mesmo aterradora (com o perdão ao trocadilho, hehe).
    Qual seria o encaminhamento de uma solução?
    Que tal a iniciativa privada? Ela já solucionou, à sua maneira, esse problema dos cheques e re-cheques de pilotos. Você precisa re-checar uma habilitação? Vá numa EJ, pague o que eles cobram e faça o seu re-cheque em um ou dois dias. Não quer pagar? Então solicite um checador da ANAC e se submeta ao procedimento descrito pelo INSPAC neste post, e enquanto espera ascenda uma vela por hora para São Longinho das Causas Impossíveis.
    Ao invés de ficarmos tentando consertar a ANAC, criando normas, procedimentos, esperando definições regulamentares que só se complicam em sucessivas emendas aos RBACs criando um manicômio regulatório, rezando para que gente minimamente competente assuma cargos de direção na agência reguladora, apelando para a boa vontade dos servidores, quê tal cortar logo o mal pela raiz? ANAC é Estado. É da natureza do Estado ser problemático, ineficiente, propenso à corrupção. Eliminar o Estado pode ser uma boa solução. O Brasil poderia fechar a ANAC e reduzir a regulamentação brasileira a um único artigo que diga: vale no Brasil o que vale nos EUA. Aliás, algo dessa natureza já foi feito na Argentina por Carlos Menem.
    É claro que os servidores da ANAC não concordariam com esse tipo de solução. Para eles a solução é contratar mais gente, aumentar o tamanho do Estado. Acredito nas boas intenções da maior parte dos servidores da ANAC, mas há uma cisão ideológica inconciliável entre eles e as pessoas do mundo real.
    Acho que já passou da hora de a comunidades aeronáutica (a começar pelas associações) assumir uma postura consistentemente liberal. Isso exige coerência, inclusive para se posicionar contra um PDAR, por exemplo. Exige também parar com essa briga de meninas com a ANAC e o DECEA – com puxões de cabelo e gritinhos em picuinhas regulatórias que não vão resolver nada na vida real – e enfiar logo umas porradas no melhor estilo Honda Housey na questão principal, que é o excesso de regulação mal feita e pessimamente implementada na aviação brasileira.

  11. Carlos
    3 anos ago

    O mais interessante talvez seja que isso não é muito diferente de quando era o DAC ou no começo da Anac. A maior diferença é que naquela época tinha que ser tudo pessoalmente (mas tenho certeza que alguém vai dizer aqui que era melhor). Você ia lá no balcão do SERAC com toda a documentação e com autorização de uso da aeronave, enfrentava a fila, e esperava fazerem uma autorização de cheque que dizia o nome e telefone do checador pra marcar com ele. Uma vez esperei mais de uma hora enquanto a moça do balcão ligava para todos os da lista atrás de um que fizesse meu cheque…

  12. Humberto Branco
    3 anos ago

    Raul, eu acredito que o relato que você recebeu reflete rigorosamente a verdade. Como temos dito, a ANAC tem muita gente (a maioria) de bem, que quer trabalhar e também um monte de outras pessoas tentando fazê-la ser forte. O problema, que comprovamos no dia-a-dia, é que o governo não acha nada disso. Está pouco se importando com a aviação e com a agência reguladora. O relato demonstra um atentado à aviação e à segurança. Toda vez que o Cenipa analisar um acidente e for constatada imperícia do piloto, deveria anexar essa mensagem que você recebeu ao Relatório Final.

  13. Raul, louvável a atitude do INSPAC. Só alguém de dentro, com sua iniciativa altruísta, para nos contar como é lento, difícil e frustrante cumprir um objetivo que é do interesse do órgão e também dos sujeitos a ele. O art. 37 da Constituição Federal impõe à Administração Pública o Princípio da Eficiência, e é muito mais fácil neste país criar uma lei sobre algo caótico do que demonstrar vontade política para viabilizar funções governamentais – peso que os próprios agentes públicos também têm de suportar, apesar de não serem os responsáveis diretos pela ineficiência do órgão (sem falar das incompetência e desorganizações atribuídas aos próprios pilotos, infelizmente). Parabéns ao INSPAC, e grato por um post tão útil para todos nós.

  14. André
    3 anos ago

    Uma das melhores postagens de todos os tempos deste blog, graças a coragem de seu autor. É bom saber que do outro lado também existem dificuldades (muitas) e que, várias delas são também provocadas pelo amadorismo dos usuários do sistema. Agora, cá para nós, uma Agência Reguladora onde check de pilotos é feito mediante voluntariado e nestas condições… Diante de um depoimento destes isto devia dar Sindicato, Ministério do Trabalho, Ministério Público e PROCON, tudo junto.

  15. Ronaldo
    3 anos ago

    pelo amor ao próximo…não gostaria de ter de saber dessas coisas que tenho que saber! ” que país é esse!”…já dizia o cantor.

  16. Beto Arcaro
    3 anos ago

    Tudo muito ruim, desorganizado, precário, mas a parte que degringolou de vez a situação, foi quando ele falou em “Meu Bolso”.
    A boa notícia é que existem “Profissionais” bem intencionados nos quadros de INSPAC da ANAC.
    Para tudo que eu quero descer…

    • Nelson
      3 anos ago

      “Meu bolso” não é diretamente “o bolso próprio”.
      Existe o pagamento de diárias, específicas para compensar gastos com essas atividades, nas mesmas regras q pra tds os servidores públicos federais:
      http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5992.htm
      Só exigiria pagamento do bolso próprio quando as diárias não forem suficientes.

      • Beto Arcaro
        3 anos ago

        Que pelo jeito, “elas nunca são”!!

    • Leitor
      3 anos ago

      Está ruim para esse cidadão?? Simples…peça para sair.

  17. Francisco
    3 anos ago

    Poxa..quanta consideração com os pilotos…afinal esses inspacs checadores..analistas..fizeram o concurso só para garantir o salario e a aposentadoria mesmo..tá explicado…

  18. Francisco
    3 anos ago

    Poxa…quanta consideração com os pilotos..afinal esses analistas ..inspacs..ou sei lá o que…fizeram concurso só para ter uma garantia de salário e aposentadoria mesmo…ra na cara…agora….

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