Começa a temporada do “apagão de empregos de piloto” na imprensa brasileira

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Houve um período – notadamente entre 2011 e 2013 – em que a imprensa se esbaldou em noticiar o “apagão de pilotos” que estaria ocorrendo na aviação brasileira. Embora a análise das relações entre novos profissionais ingressando no mercado e as vagas de trabalho criadas ano a ano na aviação (vide o estudo sobre o IEP-Índice de Empregabilidade de Pilotos) para o decênio 2005-2014 mostrasse que o tal “apagão” nunca existiu de fato – o que ocorreu foram pequenos déficits na formação de pilotos de avião em 2008, 2009 e 2011, que se diluíram numa análise de período mais longo -, tornar-se piloto era a “garantia de bons empregos” para quem lia as notícias da época. O resultado disso foram aeroclubes e escolas de aviação lotados de alunos que, ao se formarem anos mais tarde, depararam-se com uma realidade oposta: a do “apagão de empregos de piloto”, que agora entra na pauta da imprensa com esta matéria do Portal Exame: “Passeios de helicóptero desabam com piora da crise econômica“.

Em comum com as reportagens do “apagão de pilotos”, o texto acima referido traz os irritantes cacoetes de quem escreve sobre aviação sem conhecer direito do assunto – exemplos: chamar voo de helicóptero de “passeio” (como se tudo se resumisse a voos panorâmicos), ou o rotor principal da aeronave de hélice, dentre vários -, e um tom alarmista digno dos programas da TV aberta no final da tarde. Mas relevando essas questões, gostaria de comentar alguns trechos da matéria:

  • E as escolas de voos estão cheias de trainees que talvez nunca encontrem um emprego na cabine de um helicóptero comercial.
  • “A maioria desses caras [os PCHs formados em 2015] nunca vai pilotar um helicóptero profissionalmente”, disse Flemming, 55, ex-tenente-coronel da Força Aérea Brasileira.

Desconsiderando o fato de que não existem “trainees” na aviação, pelos dados apurados no estudo do IEP, a chance teórica de um PCH recém formado se colocar no mercado foi de 21% em 2013 e 28% em 2014 (o número melhorou no ano passado não por um aumento na criação de vagas, mas sim porque teve menos pilotos se formando). Na prática, essa chance é muito menor, pois existe a “barreira das 500h” (a maioria das apólices de seguro requerem esse mínimo de horas de voo dos pilotos de helicóptero) e a própria característica das aeronaves de asa rotativa “de entrada”, com reduzido reduzido número de assentos, que inviabiliza a atuação de copiloto/segundo em comando. Mas, vejam bem, em 2006 essa chance teórica estava em míseros 11%, e nos anos seguintes ela aumentou significativamente, atingindo 96% em 2009. Então, mesmo que 2015 revele números ainda mais sombrios do que os dos anos anteriores, o fato é que o mercado é cíclico e a quantidade de novos PCHs se formando está caindo assustadoramente (vide abaixo). Provavelmente, muita gente vai se formar e nunca vai conseguir se estabelecer no mercado, como disse o Flemming – mesmo porque o segmento de instrução, tradicional porta de entrada para os novatos, também está em dificuldades. Mas já ocorreu isso antes sem que o mercado ficasse definitivamente inviável, como a reportagem sugere.

  • “Para as empresas de helicóptero, a retração ocorre após cinco anos de expansão impulsionada pela exploração de petróleo no mar e pela demanda de milionários por voar sobre o trânsito e os crimes das ruas de São Paulo.”

Isso é o corolário do que afirmei acima. O petróleo está enfrentando uma grave crise de preços e a Petrobras uma gravíssima crise institucional, mas uma hora o petróleo volta a subir e a empresa se restabelece – e quando isso acontecer, a demanda por transporte de helicópteros nas plataformas deverá se recuperar. E os milionários… Bem, eles continuam aí. Voando menos, talvez, mas assim que a economia melhorar, qual abastado vai querer continuar enfrentando o trânsito e os trombadinhas (lembrando que estes jamais serão extintos)? Isso não vai acontecer tão cedo, é certo, mas também não há dúvidas de que, no longo prazo, tanto a Petrobras quanto os milionários estarão bem vivos. E voando!

  • As matrículas nas escolas de voos se multiplicaram por sete desde 2010, para cerca de 800 no ano passado. Pelo menos mais 500 novos pilotos se formarão em 2015.

No ano passado (2014), formaram-se 614 PCHs, uma redução de 18,5% sobre 2013. Então, se a mesma redução ocorrer em 2015, teríamos exatamente 500 novos PCHs ingressando no mercado este ano. Só que eu acredito que este número deverá ser bem menor, por diversos motivos. As regras da ANAC para obtenção da licença de PCH mudaram em setembro de 2014, com a introdução da obrigatoriedade de treinamento IFR (10h na aeronave ou 5h na aeronave + 5h em simulador). Isso não só encareceu a formação de PCH, como dificultou muito a conclusão do curso, uma vez que pouquíssimas escolas possuíam equipamento (aeronaves e/ou simuladores) para realizar tal treinamento. Com o encarecimento do curso, que já era excepcionalmente caro, deve haver muito mais desistências (ou, no mínimo, postergações por tempo indefinido) por parte dos alunos de PCH em 2015 do que em anos anteriores, agravado pelo fato de que as oportunidades para trabalhar como instrutor na escola em que se concluiu o curso estão minguando acentuadamente. Então, eu acredito que quando os números de 2015 forem divulgados, encontraremos bem menos de 500 novas licenças de PCH sendo emitidas neste ano, talvez menos da metade do ano passado (lembrando que a média do período 2004-2009 foi de 174 novas licenças de PCH ao ano). Isso, no fim das contas, deverá ajudar a reequilibrar o mercado de trabalho quando o ciclo se reverter.

  • Enquanto ele [Flemming “pai”] pilota para uma família rica, cujas viagens ainda incluem visitas a uma casa de férias à beira-mar, seu filho, que também é piloto de helicóptero, não tem a mesma sorte. Caio Flemming, 23, tem 1.500 horas-voo – 15 vezes mais que o mínimo necessário para uma licença comercial – e não consegue emprego.

Não citaria nomes se eles não estivessem em uma reportagem previamente publicada, mas já que estão… Bem, o Cmte. Flemming é um dos mais conhecidos e respeitados pilotos de helicóptero do mercado, além de diretor da ABRAPHE e professor do curso de Aviação Civil da UAM. Enfim, se existe alguém que teria condições para indicar algum piloto para um emprego na área, essa pessoa é o Flemming; e se há um piloto que ele indicaria se pudesse, seria seu próprio filho – que, por sinal, está longe de ser um “novato”, apesar de bastante jovem. E mesmo com tamanho QI e um currículo já respeitável, a reportagem diz que ele não consegue emprego! Agora, imaginem um PCH com “os mínimos” (pouco mais de 100h de voo e nenhuma habilitação adicional) e sem uma indicação razoável, que chances teria…

– x –

Não discordo do teor da matéria da Exame: de fato, há um “apagão de empregos de piloto” em curso no Brasil atualmente. Por outro lado, há que se compreender como o mercado funciona com mais clareza, seus ciclos, e o que interfere nas relações de oferta e demanda do mercado de trabalho. É o que tentei mostrar neste artigo.

8 comments

  1. Eder
    2 anos ago

    Obrigado pelas informacoes pois iria colocar meu filho de 18 anos fazer o curso e investiria uma grande quantia nisso dinheiro muito suado e pelo que vejo isso so melhoraria dentro de 5 anos pos Crise ou mais. Terei de buscar outra alternativa . Cheguei pensar em comprar um helicoptero. Mas acho tao pouco viavel. Oque vcs opinao.

  2. Paulo Kattah
    3 anos ago

    Ótimo artigo Raul. Parabéns!

  3. Wagner
    3 anos ago

    Boa noite Raul, queria lhe parabenizar pelo excelente texto, muito informativo para quem quer iniciar sua formação de piloto de helicóptero, agora queria q as escola e faculdades de aviação informassem esta realidade ao seus alunos, ao invés de fazer totalmente ao contrario os bajulando-os e praticamente mentido sobre a real situação, que na minha opinião e temporária mais digo temporária em uns 2 ou 3 anos, acredito eu! E concordo com a opinião do Weyne, tanto pra se formar como piloto de avião como de helicóptero no momento atual, tem q ter muita paixão mesmo aviação.

  4. Daniel
    3 anos ago

    E como anda a asa fixa? tão ruim quanto? será que melhora se sair o PDAR? se é que vai sair…

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Não tão ruim, mas nada bem também. No estudo do IEP, há uma comparação da ordem de grandeza das dificuldades nos mercados de trabalho de pilotos de avião e de helicóptero.
      Qto ao PDAR… Esquece. Só não morreu na propaganda do governo e no discurso ufanista da Azul, que ainda tem esperanças num IPO.

  5. Weyne
    3 anos ago

    A verdade do momento e CLARA,o mercado de AVIACAO,passa pela maior crise de todos os tempos,a economia Brasileira entra numa crise so vista nos anos 30,e acredito que este blog tem o alcance e o dever moral de informar(exatamente o que vem fazendo) aos leitores que aviação so vale a pena se for por PAIXAO,pois paixão não tem explicação ,não tem razão so existe por impulso e sentimento.
    R.I.P

    • Marcos Veio
      3 anos ago

      Sempre tentei falar isso desta forma, mas nunca achei as palavras corretas. Obrigado!

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