Porque o mercado de trabalho da aviação geral deverá ser especialmente afetado pela atual crise

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O Brasil está enfrentando uma grave crise política e econômica, como todos sabem. E, como também é sabido, praticamente todos os setores da economia estão sentindo seus efeitos – inclusive os trabalhadores, que estão enfrentando desemprego e arrocho salarial. Porém, algumas particularidades da aviação geral deverão agravar o quadro do mercado de trabalho para os pilotos deste segmento, e é sobre isso que trataremos aqui.

Custos em dólar

Quase todos os insumos aeronáuticos são cotados em moeda estrangeira, o que está fazendo com que os custos da hora de voo subam bem mais que a inflação. Pior do que isso (para os pilotos de aeronaves TIPO): o treinamento em CTAC no exterior é, na quase totalidade dos casos, pago em dólar. Então, os operadores devem voar menos, o que leva a menos necessidade de pilotos; e, adicionalmente, o custo de treinamento destes profissionais aumentou desproporcionalmente, no caso dos equipamentos mais sofisticados.

Ativos sobrevalorizados

Outra consequência do aumento do dólar é que as aeronaves com liquidez internacional se valorizaram em reais em 2015, dado que os respectivos valores em dólar se mantiveram mais ou menos estáveis. Daí que, além do desestímulo à aquisição de novos aviões ou helicópteros, para um proprietário que precise fazer caixa, é melhor vender o avião do que um imóvel, por exemplo. E, é claro, menos aeronaves significam menor necessidade de pilotos.

Vulnerabilidade tributária

Recentemente, vimos que o governo aumentou as TFACs em quase 80%. Agora, fala-se em aumento da CIDE (“contribuição” específica para combustíveis – inclusive AVGAS e QAV) e no retorno da discussão sobre IPVA para aeronaves. O fato é que, para um governo faminto por arrecadação, é muito mais interessante tributar a aviação “dos ricos” do que os alimentos “dos pobres”. E isto, mais uma vez, deverá ter impacto sobre os custos da hora de voo, desestimulando ainda mais os operadores a voar (e a contratar pilotos).

Juros/spreads internacionais

A consequência mais direta da perda do grau de investimento que está ocorrendo neste momento é o aumento do custo e da escassez de linhas de financiamentos obtidos no exterior. E como parte das aeronaves adquiridas pela aviação geral é financiada desta maneira, isso deve ser outro fator de desestímulo à aquisição destes bens. Mais uma vez: menos aeronaves, menos pilotos.

Petróleo/Petrobras

Especificamente para a asa rotativa, o fato de o petróleo estar com preços internacionais relativamente baixos, mais as dificuldades enfrentadas pela Petrobras, deverão ter forte impacto na contratação de pilotos para a operação off-shore. E isto se reflete no mercado continental, é evidente, deixando o mercado de pilotos de helicóptero ainda pior que o de aviões.

Concluindo

Vocês não imaginam como eu gostaria de não estar escrevendo este post…

 

9 comments

  1. João Vitor Balduino
    3 anos ago

    Excelente post, Raul. Bastante lúcido, e nos dá uma dimensão do quão poderosa é a crise econômica que afeta o Brasil atualmente. Contudo, apesar da fragilidade de nosso setor e dos atuais problemas relacionados diretamente ao Dólar, certas áreas dependentes da aviação geral ainda não sentiram o impacto econômico em toda a sua magnitude. Aqui no interior de São Paulo, na região de Ribeirão Preto, bem como em outras regiões da região Sudeste/Centro-Oeste/Norte dependentes quase que exclusivamente da agricultura (setores sucroalcooleiro, grãos e criação de gado de corte, por exemplo) a aviação continua, ainda que retraída, de certa forma movimentada. Por possuírem alta demanda de exportação destes produtos, a alta do dólar naturalmente beneficia os fazendeiros e proprietários e, por consequência, os pilotos nesta região já empregados. Porém, vale citar que a oferta de emprego nestas áreas está completamente estagnada e assim continuará por um bom tempo. Quem tem aeronave e depende delas não fará upgrades tão cedo, quem não tem continuará sem até que a situação seja mais favorável. Temos um CB enorme na nossa proa que exigirá de todos nós um desvio considerável para livrá-lo com segurança. Deixo uma sugestão de post: o quão afetada serão as escolas de aviação com a atual crise, tanto em demanda de alunos quanto em custos.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Sim, João Vítor, o produtor rural tende a ser menos afetado pela crise do que a média – assim como, até onde eu sei, o Banco Itaú e o Bradesco não estão vendendo as aeronaves de suas respectivas frotas. Mas quando o fazendeiro vê que seu Baron comparava X alqueires de terra no ano passado, e agora compra 2X, começa dar uma coceira de vender o avião que é difícil de passar… Quanto às escolas, já escrevi sobre isso aqui.

  2. Fernando Rodrigues
    3 anos ago

    Apesar das agências de classificação de risco terem rebaixado o Brasil, com a alta do dólar seria uma boa as empresas de aviação e principalmente os centros de treinamento que possuem o dólar como moeda de origem construírem uma filial no Brasil.

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Só que aí esbarra-se em dois grandes problemas:
      1)Demanda; e, principalmente
      2)Segurança jurídica.

  3. vieira
    3 anos ago

    Vi no site da ANAC hoje que foi certificado o Q400! Sera que existe interesse de aquisição por parte de alguma companhia aérea ?

  4. Marcos Veio
    3 anos ago

    Bela análise. Infelizmente, é isso mesmo. Um cenário sombrio pela frente.

    • Weyne
      3 anos ago

      Infelizmente quem oerder sua posição de trabalho hoje,nao tera muito oque fazer a nao ser buscar mercados mo Oriente.Sou temeroso em relação a situacao da classe (pilotos profissionais atantes ou que atuaram)pois o tempo passou ,e rentar um novo meio de sustento e muito complicado,ja existe muitos cmtes com experiencia de aeronaves pessadas (727,767) que estão vendendo cachorro quente em paradas de ônibus,nao que seja um trabalho desonesto ou ate mesmo desonroso, apenas nao e compatível com os anseios.Uma pena mais e a realidade do momento, que venha 2017 porqur 2016 ja esta perdido.

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