Sobre a “Bolsa Piloto” do Governo Federal

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Nos últimos dias, a SAC-PR – aquela secretaria cujo próprio titular disse que será extinta – anunciou seu programa de bolsas para pilotos que vinha sendo noticiado desde janeiro deste ano. Os comentários que publiquei naquela época continuam válidos ainda hoje (basicamente: a aviação não está sofrendo com falta de pilotos, então os recursos poderiam ser mais bem aplicados de outras maneiras), portanto vamos falar sobre os fatos novos:

Complexidade do processo X quantidade de bolsas

Leiam o Edital do processo seletivo de bolsas para pilotos – 2015, e vejam como o processo de seleção de candidatos e de aeroclubes/escolas, assim como os respectivos acompanhamento e prestação de contas, serão complexos. E boa parte deste custo é fixo, como o que diz respeito ao cadastramento das instituições de ensino – ou seja: um aeroclube com um ou com cem alunos vai dar o mesmo trabalho para ser avaliado. Ocorre que o programa irá ofertar 50 vagas para PPA e 15 para PCA, então o custo administrativo das bolsas por aluno deverá ser enorme: talvez se gaste mais com burocracia do que com horas de voo. E o benefício… Bem, os números são os acima, absolutamente ínfimos. Sorte que a aviação não está precisando de incentivo para a formação básica de pilotos, né? Se precisasse, essa bolsa seria ineficiente (mas como não é o caso, é só desnecessária mesmo).

Para que não pensem que estou de má vontade e exagerando na crítica: conceder bolsas para 50 PPAs e 15 PCAs dá uma média de, respectivamente, 1,85 e 0,56 licenças subsidiadas por Estado da federação. Sabendo que não há bolsas para pilotos desde 2011, e que não haverá um novo programa do tipo pelo menos até 2016, isto significa que estes números, numa média de cinco anos, correspondem a 0,37 PPAs e 0,12 PCAs por Estado. Esta é a relevância no programa.

A bolsa-piloto deveria fazer parte da bolsa do Prouni, custeada pelo MEC, e não ser uma possibilidade (remota) paga pela SAC-PR

Uma novidade deste programa é que “uma das exigências do edital é que o interessado seja ou tenha sido beneficiário do Programa Universidade Para Todos (Prouni)”, e que a faculdade em questão ofereça algum dos “cursos superiores relacionados à aviação civil, como Ciências Aeronáuticas, Tecnológico em Pilotagem Profissional ou Pilotagem Profissional de aeronaves, Engenharia Aeronáutica e Manutenção de Aeronaves, entre outros” – diz a nota da SAC-PR. Ok, então vejamos quem como funcionam as bolsas do Prouni. Segundo o MEC, “para concorrer às bolsas integrais o candidato deve ter renda bruta familiar de até um salário mínimo e meio por pessoa. Para as bolsas parciais (50%), a renda familiar bruta mensal deve ser de até três salários mínimos por pessoa”. Sabemos, também, que a parte prática da formação de PPA e PCA/MLTE-IFR custa algo como R$90mil – em grande parte dos casos, mais do que o custo total da própria faculdade.

Então, na verdade não faz sentido (nem nunca fez!) conceder uma bolsa do Prouni para um aluno de curso superior de aviação sem uma bolsa complementar para sua respectiva formação prática – e isso deveria ser um problema para o MEC resolver desde o início. Como é que o aluno bolsista do Prouni (logo, de baixa renda) consegue R$90mil para pagar suas horas de voo? Ou ele não consegue concluir sua formação de piloto, ou ele leva sua família para o desastre econômico, ou há alguma coisa “estranha” na sua comprovação de renda (a não ser, é claro, que haja uma boa alma disposta a pagar as horas de voo ou emprestar um avião para o sujeito, mas não podemos contar com isso numa análise dessas). Portanto, a exigência que agora se faz de o candidato ser bolsista do Prouni – que parece “justa” à primeira vista – esconde, na verdade, um equívoco gigantesco: o Prouni deveria sempre cobrir as horas de voo na bolsa do MEC, e a bolsa da SAC deveria existir para outra finalidade, e não ser uma “oportunidade” para o bolsista do Prouni.

1 PPA = 1 GRU!!!???

Não deixa de ser irônico que este programa de bolsas tenha sido lançado logo depois de a SAC, junto com o Ministério da Fazenda, ter aumentado o valor das TFACS em quase 80%, e que a tarifa para checar uma habilitação de TIPO no exterior tenha subido para quase R$17mil (coincidentemente, é este o valor aproximado de um curso completo de PPA). Ou seja: o piloto que quiser ter uma chance melhor no mercado de trabalho, obtendo uma habilitação de TIPO (em CTAC no exterior, como acontece na maioria dos casos), vai pagar uma tarifa equivalente ao valor de uma bolsa de PPA ora concedida. Embora meramente simbólica, essa coincidência resume bem o assunto…

Concluindo

Essa bolsa da SAC é irrelevante, não vai resolver nenhum problema, e seu único efeito é a espuma criada sobre o assunto. A formação aeronáutica tem que ser levada a sério: ao invés de bolsas episódicas, tem que haver uma política consistente para o setor. Não foi desta vez que isso aconteceu, e acho que não vai acontecer tão cedo.

14 comments

  1. Gabriel Augusto Ferreira
    2 anos ago

    Parece que quem fez essa bolsa não se tocou que 95% dos estudantes de aviação estão nos aeroclubes/ escolas de aviação. Além do fato, que são muito poucas vagas (80 é o mesmo que nada), deveriam ser no mínimo umas 1500 e ainda estava pouco.

  2. Blenda Rodrigues
    2 anos ago

    Essa bolsa piloto só abriu inscrições pra 2015? Mas e os outros anos? Desistiram do programa?

  3. Anackiologia
    3 anos ago

    Eu fui Beneficiado SIM,sou Prouni e fiz meu curso de aviação civil mesmo sem grana pra pagar as horas fiz por amor a aviação ,e muita fé em deus ,quando me inscrevi MAL PUDE ACREDITAR que eu tinha todos os requisitos solicitados,porém se o governo anac ou seja la quem for se habilitar a pagar as horas de voos para a formação de todos ,muitos farão apenas por ter beneficio das horas e não lutarão para conseguir,os cursos BACHARELADOS de aviação não engloba apenas pilotos e sim toda a sua expansão,como gerenciar , comissária enfim …..
    Eu abertamente agradeço muiiiiiiiiiiiiiito a deus por ter conseguido e recomendo seja qual for sua luta acredite sempre que de alguma forma vc chega lá ……
    abs a todos

  4. Flávio Moreno
    3 anos ago

    Olá, Parabéns pelo canal…. Vamos fazer umas contas, no último Domingo aereo (AFA) tinha 93.000 pessoas, digamos que 0,5% queira se tornar piloto são 465 pessoas ou futuros pilotos (número hipotético) destas quantas estão na faculdade e são bolsistas ProUNI e se enquadram em todos os requisitos para realizar sua inscrição. É um absurdo. Em São Paulo por exemplo há apenas 2 bolsas na Facul de Aviação Civil, Prouni integral / Ano em 2 turmas em três anos que é a formação temos 12 bolsas, a PUC/RS não tenho a informação de bolsas ProUNI, mas da última vez que tentei lá a PUC/RS não havia aberto a concessão (sou bolsista ProUNI), ou seja teremos mais bolsas do que candidatos, pois a média até bate de concessão bolsas x concessão Prouni, mas e os demais requisitos, quase impossivel participar desta seleção, inclusive já entrei em contato com a SAC e aviação.gov e não adianta fui informado se você não se enquadra em todos os requisitos você será desclassificado. POR QUE O GOVERNO NÃO FALA QUE NÃO QUER DAR AS BOLSAS, pois com esses pre requisitos fica dificil. (Leia o edital e se decepcione)

    Obrigado Flávio

  5. kent davidge
    3 anos ago

    Raul, não entendi bem. Pra fazer a inscrição é preciso estar cursando ou ter cursado ensino superior e também ter sido beneficiado pelo Prouni?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Sim.

  6. Daniel
    3 anos ago

    Boa tarde, Raul. Concordo com a sua opinião somente quando fala sobre a desorganização da ANAC, falando de um modo generalizado. No meu raciocínio, essas bolsas são muito importantes para aqueles que precisam delas, pois queiramos ou não, a formação aeronáutica é elitizada, inacessível para muitos e muitos que sonham com a carreira – se um desses muitos quiser pagar a parte prática, não paga o ensino superior e vice versa. Concordo que esse projeto tem sido descontinuado, porém tenho a certeza de que as vagas serão preenchidas por 65 aspirantes a aviadores, e que a grande maioria desses vai continuar sua carreira e alcançar seus maiores sonhos. Como foi nos projetos anteriores, a comunidade aeronáutica criticou muito e disse que não tem como um piloto com PP conseguir emprego, que o projeto é inutil e não faz a diferença diante de um mercado tão grande.. porém eu vi essa bolsa tendo continuidade e formando os PPs. Claro, existem várias lacunas que precisam ser preenchidas, mas aquele bolsista que está se formando no curso de CA, tem potencial mas não tem condições de voar, pra ele é um sonho se realizando. Respeito a opinião de todos, e na minha deveríamos ser mais positivos e torcer para que os mais desfavorecidos possam ter suas conquistas, falo como um ex bolsista Prouni, PP e PCA feitos através da bolsa ANAC, e hoje atingi meu objetivo na aviação.

    Um abraço

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Daniel, eu recomendo vc reler o post, pois neste texto eu não falei em “desorganização da ANAC” e muito menos que um programa de bolsas é desimportante – pelo contrário, eu disse que as bolsas do Prouni deveriam englobar as horas de voo desde a primeira concessão de bolsas deste tipo.

      • Daniel Cunha
        3 anos ago

        Raul, esse Daniel ai de cima não sou eu não! kkkkkkkkkkkkk

  7. Carlos
    3 anos ago

    Li o edital e essa bolsa me pareceu um mero desencargo de consciência para com tais alunos bolsistas do ProUni, pois o programa sempre subsidiou apenas a parte teórica. Entretanto, já presenciei alguns casos nos quais percebi que alunos bolsistas (ou não) se matricularam em cursos superiores para pilotos por quase total falta de informação, e só foram saber da furada que entraram, na 1° aula, onde o coordenador explica que, pasmem, serão necessárias 170 horas de voo (sim, o coordenador disse 170), e nessa altura do campeonato não há mais como voltar atrás, pois na instituição na qual estudei, não havia a possibilidade de transferência de bolsa (o governo deixava essas decisões a cargo de cada faculdade), aí o aluno decide tentar a sorte e se forma em um curso superior que não lhe servirá de nada, pois na maioria das vezes não consegue fazer as horas de voo.

  8. Dario Angelo
    3 anos ago

    Raul, parabéns pela coragem de colocar as verdades sobre mais uma enganação desse governo safado justamente quando acontece o Aumento-ão nas taxas da ANAC, isso sem contar que quem pagou antes do aumento para fugir desse roubo agora tem que pagar a diferença… Eu te falo CORAGEM nesse caso também porque to extranhando muito essa noticia não ter saido na imprensa em geral, e eu até deixei comentários em reportagens da UOL/BOL e nada! Eu acredito que estamos todos indignados, e no Brasil inteiro com mais esse cinismo desse governo ladrão que agora aumenta impostos pra cobrir o rombo te tanto roubo.
    Oferecer 65 bolsas e anunciar isso como uma “grande ajuda” é mais uma piada vigarista!
    Seria muito bom se a imprensa decidisse em publicar mais essa sacanagem, Será que se consegue colocar isso na midia geral???
    Continua em frente Raul!!!

  9. Daniel Cunha
    3 anos ago

    Raul, muito bom seu comentário. Compartilho da mesma opinião. Mas gostaria de saber qual sua opinião a respeito da sua colocação “política consistente para o setor”. Tenho particular interesse nesse assunto e gostaria de saber o que você consideraria como consistente para o setor. Teria como esclarecer num post específico? Você já postou algo nesse sentido?

    Abs!

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Daniel,

      Uma “política consistente para o setor” pode ser muita coisa, de fato. Porém, ter uma bolsa em 2011, outra em 2015, uma com critério de pagar 70%, outra só para bolsista do Prouni, certamente não é consistente. O que eu quero dizer é que um programa de bolsas tem que ter previsibilidade, para o sujeito saber que se ele começar a estudar agora e se preparar de acordo com determinados critérios, ele vai ter chance de obter a bolsa daqui a X anos.
      Tô enrolando, mas não respondi à sua pergunta, né? É porque isso depende de uma Política de Estado para a formação aeronáutica, que acho que não é o caso de começar a discutir por aqui. Trata-se de um assunto muito sério para que a gente levante a bola num blog e depois deixe por isso mesmo… Aí vai ficar uma conversa de botequim, entende? O que eu quis apontar é somente que espasmos de “ajuda para formação de pilotos”, como tem sido feito, é uma maneira equivocada de lidar com esse assunto. ;-)

      Abs,

      Raul

  10. Felipe Bachian
    3 anos ago

    De que adianta dar 50 bolsas e depois pedir 200h em comando para se tornar INVA? Além de tudo que você falou Marinho, o pobre infeliz recém formado PC, dificilmente vai conseguir um trabalho sem experiência (horas).

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