Sobre o “Face do manche”: dogmas, reputação e QI

By: Author Raul MarinhoPosted on
1939Views13

Desde os primeiros voos no aeroclube, fica claro para todo futuro piloto que a aeronave é sagrada. Por mais surrado que seja o Paulistinha em que se voou, não se abandona a aeronave sem antes prender corretamente os cintos de segurança sobre os bancos, fechar as cortinas, colocar os protetores, calços, travas, etc. Maltratar o avião ou mesmo manuseá-lo sem o devido respeito é visto como crime de lesa-pátria, daí a indignação que tomou conta da ‘pilotosfera’ ontem quanto à reportagem que revelou a vandalização de aeronaves na Azul: isso violou um dos dogmas mais sagrados da aviação. Os católicos não ficaram ofendidos quando um pastor evangélico chutou a Santa? Os muçulmanos não ficam possessos quando se retrata (ou, pior, se ridiculariza) o Profeta? Da mesma forma, os pilotos se indignaram quando viram o manche pichado na foto da reportagem da Folha de São Paulo… Tempos atrás, circulou na internet fotos de uma aeronave de linha aérea pichada internamente por passageiros. Isso irritou muita gente, mas afinal de contas foi um “leigo” que fez aquilo. Desta vez, não: foi “um de nós” (ou “alguns de nós”, não sei) que violou o sagrado dogma da aviação, o que é muito mais grave.

Mas muito mais complicado do que um dogma ferido é o dano à reputação que esse evento pode causar (se vai ou não haver consequências, só o tempo irá mostrar – mas as possibilidades são reais). Se já não chegou, essa reportagem não tardará a chegar aos RHs das companhias aéreas mundo afora. E aí, quando o recrutador de uma Emirates da vida for entrevistar um candidato brasileiro, que tipo de viés ele poderá ter na sua avaliação? É claro que o “Face do manche” não irá arruinar completa e definitivamente a reputação dos aviadores brasileiros – mas, convenhamos, ajudar também não vai, não é mesmo? E a imagem dos pilotos de uma forma geral perante a opinião pública, internamente? Numa futura reivindicação trabalhista, como aconteceu no início deste ano, em que as aeronautas de linha aérea paralisaram as operações por uma hora, será que a população não irá se lembrar de que há pilotos que vandalizam as aeronaves que voam? E quanto aos pilotos da Azul, especialmente os “novinhos”? (A ‘pilotosfera’ já decidiu, por unanimidade, que a pichação foi feita por um piloto contratado com pouca experiência – o que, evidentemente, é um pré-julgamento). Num futuro processo seletivo para outra companhia aérea nacional ou para uma vaga na aviação geral, será que um ex-Azul não poderá ser estigmatizado? Reputação, em termos de empregabilidade, é uma questão extremamente sensível.

Finalmente, gostaria de comentar a relação que um evento desse tipo tem com o “instituto do QI” – as indicações, tão frequentes no mercado de trabalho de pilotos. Uma indicação para um emprego serve, dentre outras coisas, para dar alguma “segurança” ao contratante de que o contratado não irá tomar alguma atitude descabida na sua atuação profissional. A pessoa que indica alguém para uma vaga de trabalho assume um papel de “fiador” dessa pessoa: se, porventura, o indicado tiver um comportamento anti-profissional, quem indicou deverá ser, de algum modo, responsabilizado/penalizado pela má indicação. Com o mercado de trabalho para pilotos aumentando, tem havido uma tendência à impessoalidade nos processos seletivos, especialmente na linha aérea, e o QI tem se tornado gradativamente menos importante (não que o QI tenha sido extinto, é claro: só estou falando em perda relativa de importância ao longo do tempo). Aí acontece um evento desses, de vandalização de aeronaves, e uma outra possível consequência é a (re)valorização do QI para as futuras contratações. Se os contratantes se sentirem vulneráveis quanto à contratação de pilotos com este tipo de comportamento anti-profissional, a tendência natural seria a de que eles tentassem se proteger da maneira que for possível. Eles podem tentar instalar câmeras nos cockpits (mas isso implica em custos, certificações, etc.), podem fazer testes psicológicos mais detalhados (mas isso também tem suas limitações e custos); porém, se o candidato tiver alguém o indicando, haverá uma barreira adicional para a prática de um vandalismo como o recentemente noticiado. Ou seja: o QI é o remédio mais barato e fácil de ser administrado para mitigar o risco de contratação de um piloto anti-profissional.

Não sei que consequência, efetivamente, poderá decorrer desta notícia do “Face do manche”. Pode até ser que caia no esquecimento rapidamente, afinal tem tanta barbaridade acontecendo no mundo que, em termos relativos, um manche pichado nem é algo tão impactante assim. Mas pode ser também que isso tenha consequências negativas importantes para a empregabilidade de pilotos oriundos da Azul – ou mesmo para todo piloto brasileiro, conforme comentado. Só o tempo dirá qual a ordem de grandeza deste impacto, mas uma coisa é certa: pichar manche não vai ajudar em nada a categoria. Mais uma vez, lamento a atitude.

13 comments

  1. Zé Maria
    4 anos ago

    Raul, boa noite.
    Permita-me:
    Esse assunto “QI” é meio dúbio, explico porquê:
    Aposto que na Azul a imensa maioria, senão a totalidade dos “QIs” tem o seguinte perfil:
    Filho, sobrinho, neto ou o escambau de algum variguiano das antigas, que à pedido do “águia” foi contratado e agora está se achando. . .e causando os problemas citados.
    Então nesse caso, o “QI” ao invés de proteger o empregador, na verdade o está sabotando.
    Posso até estar equivocado. . .desconfio que não.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Pois é, se for um “big white shark”, aí pode acontecer isso mesmo que vc fala. Mas se for aquele QIzinho mais comum, de um piloto indicando o outro, aí evita.

  2. Ricardo
    4 anos ago

    Raul,

    Vc poderia informar por que a Azul so’ contrata gente sem experiencia para ser copiloto? E’ pra pagar menos ou e’ a cultura da empresa. Ouvi dizer que os comandantes sao todos ex militares, que apesar de ter uma formacao boa, nao tem muita experiencia de voo.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Não é bem assim… O fato é que a Azul paga pouco, então não faz muito sentido contratar copila experiente, que vai atrás de coisa melhor na 1a oportunidade. E comando militar também não é a regra – na verdade, o que mais tem lá é ex-variguiano comandando.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Babaca. Não tem outro adjetivo… Mas também acho complicado generalizar. Conheço vários “novinhos” da Azul que tem caráter a comportamento totalmente diversos.

  3. Beto Arcaro
    4 anos ago

    Oi Raul.
    Falta de “nível” !
    Faltam princípios !
    Basta ver o quê o “novinho”, se não me engano da Azul, publicou em redes sociais sobre aquele Corisco desaparecido que depois foi encontrado sem sobreviventes em Minas Gerais.
    A prepotência é absurda.
    A sensação de impunidade, de “imediatismo”!
    Ninguém mais acredita que a Aviação mata.
    Ninguém acredita que ela “dá voltas”!
    Tá fácil arranjar emprego, né?

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      O pior é que o problema não é só “da aviação”, está generalizado…
      Crise econômica passa, mas crise de valores é bem mais complicado. Isso é o que me assusta.

  4. Não compreendo
    4 anos ago

    Investir o que se tem é o que se não tem
    Fazer cursos
    Estudar para diversas bandas da ANAC
    Cuidar da saúde e manutenção do CMA
    Acordar muito antes do nascer do sol
    Deslocar-se por dezenas, às vezes, centenas de kilômetros até um aeroclube ou escola e aviação.
    Enfrentar filas, falta de vagas e disputas para realizar UMA hora de voo.
    Arriscar-se, muitas vezes, em aeronaves com manutenção duvidosa.
    Sujeita-se, muitas vezes, a caprichos de instrutores mal preparados.
    Aguardar 90 dias por um cheque.
    Ser checado e aprovado,
    Aguardar 90 dias pela CHT
    Juntar mais dinheiro e prosseguir na formação aeronáutica.
    Fazer as horas de PC a prestações.
    Checar PC… IFR e MLTE algum dia.
    Conseguir algum bico, mais uma vez, em aeronaves duvidosas.
    Tornar-se INVA
    Aguardar, sem previsão, por uma oportunidade.
    Acordar muito antes do nascer do sol
    Deslocar-se por dezenas, às vezes, centenas de kilômetros até um aeroclube ou escola e aviação.
    Aguardar o aluno chegar
    Aguardar o aluno que insiste em faltar sem avisar.
    Acumular horas de voo e experiência, uma a uma.
    Arriscar-se, muitas vezes, em aeronaves com manutenção duvidosa.
    Tomar muito susto. Isto é inerente à profissão de INVA.
    Conseguir uma posição na executiva.
    Estudar inglês
    Renovar as habitações
    Fazer Jet Trainer
    Estudar manual Jeppesen
    Estudar manuais da FAA
    Renovar CMA
    Tomar cano do patrão.
    Ficar desempregado
    Voltar para o aeroclube
    Aguardar, sem previsão, por uma oportunidade de inva.
    Deslocar-se por dezenas, às vezes, centenas de kilômetros até um aeroclube ou escola e aviação.
    Aguardar o aluno chegar
    Aguardar o aluno que insiste em faltar sem avisar.
    Acumular horas de voo e experiência, uma a uma.
    Arriscar-se, muitas vezes, em aeronaves com manutenção duvidosa.
    Tomar muito susto. Isto é inerente à profissão de INVA.
    Ser chamado para uma seleção na linha.
    Ser aprovado após meses de etapas e processos eliminatórios.
    Fazer o ground
    Fazer simulador
    Ser checado
    Instrução em rota
    Ser checado em rota
    Mudar-se de cidade
    Entrar na rotina, pegar a mão do avião

    Muitos do que estão na linha são literalmente sobreviventes.
    Como podem esquecer da “estrada” pra se chegar onde chegaram?
    Como se esquecem disso tudo tão rápido?
    Ou não passaram por experiência semelhante?

    • A.M.Filho
      4 anos ago

      Parabéns pelas palavras mas esse caminho todo que você citou foi bastante encurtado para alguns. O fato é que muitos vão ter a primeira experiência de emprego na Linha Aérea e vivenciar todos os problemas da aviação lá. Infelizmente em alguns lugares a bagagem de vida na profissão não é tão valorizada.

  5. Francisco
    4 anos ago

    Mais uma vez a demonstração de quê: ..Caráter..vem de berço…de berço……

Deixe uma resposta