Nova IS para regulamentar cursos de IFR acaba com cursos só teóricos (com instrução em simulador) ou só práticos, e inviabiliza pequenas instituições

By: Author Raul MarinhoPosted on
1223Views13

Participei ontem, na ANAC/S.Paulo, da palestra de apresentação na nova IS que irá disciplinar os cursos IFR – vide comentado aqui (leia também a minuta da IS). No geral, a proposta é bastante interessante, embora dê muita ênfase à radionavegação e aborde a navegação baseada em performance (PBN/GNSS) como “um plus a mais adicional”. Mas, tudo bem: reconheço que temos uma frota muito antiga na aviação geral, e o piloto brasileiro precisa ser proficiente em NDB e VOR mesmo (muito embora as estações NDB estejam previstas para desaparecer em 2020). Porém, a proposta apresentada traz uma mudança importante fora das questões técnicas do voo IFR: ela inviabiliza o oferecimento de cursos IFR por pequenas instituições.

Atualmente, um aluno pode realizar a instrução teórica e o treinamento em simulador IFR em uma instituição, e voar em outra – que é o que realmente acontece em boa parte dos aeroclubes/escolas do Brasil. Isso viabiliza a existência tanto de pequenas escolas sem aeronaves (só com salas de aula e simuladores) quanto de outras que só têm algumas poucas aeronaves, e não precisam ter uma estrutura física maior. Mas vejam o que prevê o item n°7 da minuta da IS ora em discussão:

IS IFR 7

Com isso, a instrução prática IFR tem que ocorrer de maneira “casada” entre a parte teórica (que inclui o treinamento em simulador na maior parte dos casos) e prática – ou seja: ou a escola teórica/trein.simulador compra aeronaves para incluir a instrução de voo; ou a escola prática adquire simuladores. Em ambos os casos, o resultado efetivo é que as pequenas instituições acabarão por desaparecer ou se fundir, e só as grandes instituições, com capacidade para adquirir simuladores e aeronaves resistirão. Mais do que isso: a IS terá impacto também sobre as faculdades de Ciências Aeronáuticas, Aviação Civil e similares, que oferecem a instrução em simulador mas não possuem aeronaves. Isso é bom para o que queremos/precisamos em termos de formação aeronáutica? Bem… Essa é uma boa discussão, mas o ponto é que esse “detalhe” da IS precisa ser mais bem avaliado antes que a regulamentação seja publicada.

13 comments

  1. Lucas Marreto
    1 ano ago

    Raul, neste caso um aeroclube que possua somente a aeronave homologada IFR, e um checador credenciado, pode continuar realizando cheques iniciais e recheques IFR ?

    E caso o aluno desejar checar PC/VFR as horas obrigatórias IFR ainda podem ser ministradas por este aeroclube ?

    Muito Obrigado.

    • Raul Marinho
      1 ano ago

      Raul, neste caso um aeroclube que possua somente a aeronave homologada IFR, e um checador credenciado, pode continuar realizando cheques iniciais e recheques IFR ?
      =>O aeroclube vai ter que adquirir um simulador ou ter uma parceria com uma escola que o tenha para certificar seu curso com aeronave+simulador

      E caso o aluno desejar checar PC/VFR as horas obrigatórias IFR ainda podem ser ministradas por este aeroclube ?
      =>Poderia.

  2. Carlos Martins
    3 anos ago

    Raul,

    Haverá um período de transição? Por exemplo, eu já estou no final de meu treinamento IFR. Serei afetado pela publicação desta IS, caso a mesma seja publicada antes do meu cheque?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Sim, haverá. Está no texto da proposta.

  3. Gabriel
    3 anos ago

    Vai chegar o dia em que o Norte e o Nordeste não irão formar mais pilotos. Na maioria dos casos as instituições das citadas regiões possuem uma procura menor e um custo mais elevado no Av.Gás, fora o grande deslocamento que estes alunos ficam sujeitos para prestar a BANCA e realizar o CMA. Com essa nova IS dificultará bastante as atividades das POUCAS Escolas/Aeroclubes que ainda conseguem funcionar nestas localidades.

  4. Daniel
    3 anos ago

    Acho totalmente válido juntar as instruções. Quem garante que o aluno vai ter uma instrução satisfatória no simulador, e estará preparado quando chegar na parte prática. Se a escola prática pedir pra fazer mais simulador, vai ser acusada de pano preto, de complicar etc, quando na verdade o aluno que não tem condição de ir pra parte prática (e nesse caso, o aluno não tem nem condição de entender a própria situação)…

    Um simulador IFR mono pode ser encontrado por 70 mil reais. Não sei se vai aumentar por causa dessa IS.. Pra uma escola que já tenha avioes não é um investimento alto. Já para uma escola “teórica” que só tenha simulador, comprar um avião seria um investimento bem alto. Uma opção é virar “sócio” de uma escola, arrendando o simulador e ficando com uma fatia do faturamento.

  5. anônimo
    3 anos ago

    Bem…

    Talvez ocorra, no caso das escolas que tem apenas simulador, um arrendamento

  6. Errmano Monteiro Júnior
    3 anos ago

    Não vejo, em princípio, eventuais restrições trazidas pela nova IS que inviabilize a atividade das pequenas empresas. Vale dizer que a instrução fala em possuir, o que pode se dar por meio diverso que não seja a propriedade.

  7. Phelipe
    3 anos ago

    Eu não sei qual exatamente o objetivo desta questão do simulador e a aeronave na mesma escol, talvez para seguir o mesmo padrão para não afetar na instrução, mas pra mim é algo que a principio parece um pouco desnecessário neste momento.

  8. Wagner Santim
    3 anos ago

    Realmente é algo que vai trazer impedimentos para as pequenas, porém pode surgir novas parcerias entre escolas teóricas e aeroclubes.
    Raul, existe alguma perspectiva da data dessa IS entrar em vigor?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Aí que tá: a ANAC proíbe parcerias entre escolas/aeroclubes teóricos e práticos, é preciso que se tenha simuladores E aeronaves para ter o curso IFR aprovado. É justamente isso que está causando polêmica…

      A perspectiva é de que essa IS entre em vigor ainda esse ano, segundo informado na palestra. Mas eu acho precipitado, já que esse problema é bem mais complexo do que parece.

Deixe uma resposta