Mais um aeroclube é fechado com o mesmo discurso de sempre – agora é a vez do Aeroclube de Sergipe

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Vejam neste vídeo a reportagem sobre o fechamento do Aeroclube de Sergipe, cuja área está sendo tomada pelo Governo do Estado. Isso já aconteceu em dezenas de outras instituições e continuará acontecendo até que o último aeroclube do Brasil desapareça. O motivo foi claramente explicado pelo entrevistado, ao final da reportagem: a formação de pilotos civis não é problema do Estado, então dane-se o aeroclube, vamos vender a área “para pagar os aposentados” (como se as finanças públicas não funcionassem em regime de caixa único, mas tudo bem, nem vou entrar nesse particular). É o mesmo discurso de sempre, no fim das contas, o de que os recursos do aeroclube servem a uma elite e que, portanto, deveriam ser “aplicados no social” – por uma questão de Justiça, é claro.

Na verdade, o que está por trás disto tudo é a falência do modelo de formação aeronáutica construído nos anos 1940, baseado em aeroclubes subsidiados. É por isso que o entrevistado fala com tanta tranquilidade que está tomando a área do aeroclube para o Estado, percebem? A fala dele reflete como o poder público lida com o problema já há muito tempo: a formação de pilotos é uma questão privada, então nada mais natural do que o Estado ficar com o espólio do que um dia foi a estrutura dos aeroclubes, já que ela foi constituída com recursos do próprio Estado. Não se trata de opinião, é só observar os fatos…

8 comments

  1. Daniel
    4 anos ago

    Os Aeroclubes foram berço da aviação pormuito tempo as custas de trabalhos voluntários. No mínimo desrespeito com a aviaçãi e a história pelo governo “popular”

  2. Guilherme Araújo
    4 anos ago

    No caso do Aeroclube do estado de Minas Gerais (ACEMG), já escutei de fontes informais que a aérea era privada e o proprietário a vendeu sob a condição de que nunca deixasse de ser o Aeroclube. Nesse caso, ainda assim o governo pode fechá-lo? Grato!

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Desconheço, Guilherme.

  3. Gabriel
    4 anos ago

    Como já comentei em outra postagem, o Norte e Nordeste como regiões mais carentes do país possuem uma aviação muito fraca. Na maioria dos estados para um aluno em formação faltam aeronaves para Instrução do IFR e MUL, clinicas credenciadas ou Juntas de Saúde… isso faz com que os poucos alunos busquem entidades do SUL e Sudeste para realizar o treinamento. Os Aeroclubes daqui em sua maioria mal conseguem manter uma aeronave em condições de voo, fora a diferença nos valores do AV.Gás que é mais alto nessas regiões mais distantes. A tendência é essa mesmo, o problema que dificilmente alguém abrirá uma escola privada nesses locais as taxas e dor de cabeça são alta demais para a pouca procura.

    Abraços Raul.

  4. Thiago Sabino
    4 anos ago

    Raul….

    Não é o modelo de formação aeronáutica. É a forma como as coisas são conduzidas nos Aero Clubes. Ninguém mais quer gastar seu sábado, ou domingo, para ir a uma entidade cheia de pepinos, e desentortá-los. Isso, quando não trabalha de graça, ou mesmo, tenha de colocar dinheiro próprio na entidade.

    Os aeroclubes eram entidades fortalecidas, e com boa representatividade local até fim dos anos 80, começo dos anos 90.

    De lá pra cá, os clubes – de forma geral – se enfraqueceram. As pessoas estão mais preocupadas em ter menos atribuições, ou de , principalmente, não trabalhar sem ser remunerado. As únicas formas de trabalho que ainda sobrevivem dessa forma, são entidades beneficientes.

    Se o Aeroclube de Sergipe foi pro saco, entenda que foi primeiramente, pelo próprio enfraquecimento da sociedade. Quando a própria entidade sucumbe, representativa e operacionalmente, a etapa seguinte é de praticamente , “empurrar bêbado ladeira abaixo”….

    Já vi esse filme em vários e vários aeroclubes no interior de SP (São Carlos, Limeira, Mogi Mirim, entre outros casos), que sucumbiram exaaaatamente dessa forma.

    Aqui em Pirassununga, a briga é constante. Muito embora tenhamos um bom relacionamento com o poder público local, se não voltássemos a ter REPRESENTATIVIDADE para a população, matar um aeroclube, não é tarefa das mais difíceis, principalmente, porque a cessão das áreas dos Aeroclubes, em sua maioria, observam títulos de cessão, ou permissão precárias.

    Prato cheio para governantes, com ambições não tão republicanas, em estreita promiscuidade com empreiteiras, especuladores, entre outros parasitas em geral.

    O enredo é esse.

    E onde cada aeroclube se enfraquecer, a coisa se processa assim.

    Ou briga de frente, MESMO, ou sucumbe.

    • Raul Marinho
      4 anos ago

      Thiago, as mudanças ocorridas após a época que vc citou (fins dos anos 1980, início dos 1990) foram dramáticas e determinantes para a derrocada do modelo de negócios dos aeroclubes (tendo, por consequência, o florescimento do modelo de negócios das escolas). Primeiro, pelo já citado fim dos subsídios, que foi o principal problema para essas instituições. Depois, pelas mudanças na Lei, com a entrada em vigor da CF-88, que passou a responsabilizar pessoalmente os dirigentes dos aeroclubes – o que afastou da gestão das entidades do setor a maior parte dos empresários e profissionais capacitados, devido ao liability que o cargo passou a representar. Terceiro, pelo próprio crescimento do país, que avançou sobre os entornos das áreas ocupadas pelos aeroclubes, o que pintou um alvo na testa dos aeroclubes para a especulação imobiliária atirar. E, quarto, pela mudança de foco da maioria das instituições, de “clubes de aviação” para “escolas no formato de ONG” – e uma vez que eles deixam de ser uma entidade associativa, os aeroclubes também afastam o trabalho voluntário, as doações, o colaboracionismo da comunidade, etc. Some-se a isso o fato de os aeroclubes serem instituições muito antigas, que carregam passivos fiscais, trabalhistas, e indenizações diversas por décadas (aí entra a questão da morosidade do judiciário), e o que temos hoje é um modelo fracassado, com entidades endividadas, atacadas por todos os lados (pelo Estado, pela especulação imobiliária, pelos ex-funcionários que entram na Justiça do trabalho contra eles…), e sem condições de competir com as escolas privadas.
      É claro que existem exceções, e o Aeroclube de Pirassununga pode ser uma delas. Mas, em linhas gerais, é isso o que está acontecendo…

  5. Jackson Valério
    4 anos ago

    Raul, juridicamente há três situações distintas: a) o aeroclube foi cedido pelo Poder Público a título de permissão administrativa (forma mais precária, onde Estado pode retomar sem indenização); cedido na forma de concessão administrativa (Estado só pode retomar mediante indenização); c) doação do Estado (direito adquirido, impedimento absoluto ao Estado). Abraço.

  6. AUGUSTO FONSECA DA COSTA
    4 anos ago

    Ainda bem que o Estado brasileiro oferece excelentes escolas oficiais de formação de pilotos, né? É mais uma carência que se abre na formação de pilotos que já capenga em meio à falta de apoio do Estado, e a uma regulação precária que chega a preconizar, no “RBAC 61 – Data da emissão: 12 de novembro de 2014 RBAC nº 61 Emenda nº 05 Origem: SPO 31/89:

    61.79 Requisitos de instrução de voo para a concessão da licença de piloto privado

    (1) categoria avião:

    (v) voo em velocidades críticas baixas, reconhecimento e recuperação de pré-estol, estol completo e parafuso, quando possível;”

    QUANDO POSSÍVEL? Quem decide quando será possível, o aluno? o instrutor? a escola de aviação?
    A quem essa absurda liberalidade beneficia?
    A uma aviação segura certamente não.

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