Latam, Gol e Azul anunciam redução de frota em 2016 – E uma breve análise do mercado de trabalho (especialmente para os recém-formados)

By: Author Raul MarinhoPosted on
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De acordo com esta reportagem publicada no site da revista Época Negócios, as três maiores companhias aéreas que atuam no Brasil – Latam, Gol e Azul – estão anunciando que reduzirão suas respectivas frotas em 2016. O texto não é muito claro sobre quantas “aeronaves líquidas” (devoluções e sub-arrendamentos menos recebimentos) serão, de fato, eliminadas da frota nacional em 2016, mas ele dá a entender que por volta de 50 aviões deixarão de voar nestas companhias no ano que vem. Considerando uma média de 12 pilotos alocados por aeronave comercial (6 comandantes e 6 copilotos), teríamos então cerca de 600 postos de trabalho a menos para aviadores que atuam na linha aérea em 2016. Ou seja: mesmo contando com o fluxo de pilotos indo voar em companhias chinesas e árabes e a “escala apertada” relatada por quem voa em linha aérea atualmente, ainda assim é bastante provável que ocorram demissões de pilotos neste segmento no ano que vem.

O motivo desta redução é evidente: “[as companhias] aéreas do Brasil estão em situação terrível“, como disse recentemente o diretor-geral da IATA-International Air Transport Association, Tony Tyler. “As empresas estão enfrentando um conjunto de problemas: economia em profunda recessão, aumento do desemprego, retração do real frente ao dólar americano, e, o mais importante, as políticas governamentais impostas, a [com] custos impraticantes [impraticáveis] para a indústria.” – disse ele (as correções finais, provavelmente por falha na tradução, são minhas). Eu acrescentaria dois outros fatores, citados aqui: a perda do grau de investimento do país, com consequente aumento dos juros pagos nos contratos de leasing de aeronaves, e o aumento de impostos e taxas aplicáveis à atividade aeronáutica (ex.: as TFACs, que aumentaram 80% recentemente).

Em 2014, o Brasil formou cerca de 1.500 novos pilotos profissionais aptos a trabalhar na aviação de asa fixa (em outras palavras: a ANAC emitiu 1.500 novas CHTs de PCA). Este ano (2015) deve ser um pouco menos: algo entre 1.000 e 1.200 profissionais deverão tentar ingressar no mercado de trabalho como piloto de avião, sendo que a principal porta de entrada é a aviação geral, que já vem enfrentando uma grave crise desde, pelo menos, o ano passado. A única alternativa para gerar postos de trabalho para os recém-formados seria o segmento da linha aérea absorver parte dos profissionais da aviação geral (normalmente, os mais experientes), mas o que deve acontecer no ano que vem é exatamente o oposto: provavelmente alguns dos demitidos das companhias aéreas acabem disputando as poucas vagas de trabalho que surgirem na aviação geral. Daí que nesta briga entre os egressos da linha aérea, os pilotos experientes que ficaram desempregados na própria aviação geral, e os pilotos formados de anos recentes que ainda não conseguiram uma colocação no mercado, esses recém-formados de 2015 deverão ser o que enfrentarão as maiores dificuldades para conseguir se estabelecer no mercado.

Não estou escrevendo isso para que você, um dos 1.000/1.200 recém-formados de 2015, desista. O que eu quero te alertar é que sua situação é a mais frágil, e se o pessoal do andar de cima está numa briga de foice no escuro para conseguir uma colocação, então é preciso ter uma estratégia para enfrentar essa adversidade. Não adianta você se oferecer para trabalhar de graça, somente “pelas horas”: isso só vai gerar antipatia perante quem poderia te ajudar a conseguir um emprego de verdade; e tampouco é inteligente você se expor em atividades de risco. Se o mercado da aviação está impraticável (para usar um termo do sujeito da IATA), use o que você tem a seu favor: até hoje, você não obteve renda na aviação, certo? Isso significa que, de alguma maneira, você tem como se manter sem voar profissionalmente – então, mantenha ativa essa fonte de renda por mais algum tempo. Enquanto isso, invista em qualificação e networking dentro das possibilidades, mas o importante neste momento é não se desesperar, e para isso é imprescindível manter viva a sua atividade anterior (mesmo que não seja a profissão dos sonhos – lembre-se que é só pior um tempo).

Sabe aquela história de “aviate/navigate/comunicate“? Pois então, neste momento de crise, o foco é manter o avião voando – que, neste caso, significa ter uma fonte de subsistência, mesmo fora da aviação. Como isso garantido, você pode navegar pelo aprimoramento na sua qualificação profissional, e se comunicar melhor em termos de networking. Mas o principal é não deixar o seu avião estolar: este deverá ser o seu foco para atravessar o enorme CB que está aí!

25 comments

  1. sergio guimaraes
    3 anos ago

    Se para pilotos ta ruim…para mecânicos de manutenção de aeronaves então…

  2. Rosário
    3 anos ago

    SETE Linhas Aéreas não aguentou, não sobreviveu a crise econômica. Triste por mais uma empresa sendo afundada. Muitas pessoas desempregadas.

  3. Airton
    3 anos ago

    Tenha em mente o seguinte: o nosso pais tem dimensões transcontinental e um pouco menor que os estados unidos , o nosso povo está aprendendo a usar passagens para se deslocar a negócios ou passeios , isto não tem volta, os custos estão altíssimos, as companhias continuam ganhando dinheiro ( estão enxugando custos de todo lado , mas tudo isto tem limite) hora menos horas terão que sair deste limite extremo e voltar a operar sem explorar os limites mínimos quanto a recursos humanos, aí quando precisarem de mão de obra especializada , vão procurar os mais qualificados , keep calm San !

    Escrevi está reflexão para meu filho , que está com 22 anos com formação completa e aguardando uma oportunidade .

  4. Carlos Fernando de Barros
    3 anos ago

    O Brasil é mesmo um país “sui generis “. Voei esta semana de SDU para CFN no ATR 600 da Azul e tanto na ida como na volta o voo completamente lotado. Os dois aeroportos lotados. Então me perguntei: – Onde está a crise?

    • Gustavo
      3 anos ago

      O minimo conhecimento de como um voo é pago responde essa pergunta:
      o voo estava lotado mas não estava se pagando! baixo yield não tem 100% que pague

    • Daniel
      3 anos ago

      leia sobre IPCA, INPC, PIB, SELIC pra saber onde está a crise, leia sobre Revenue management para saber por que o voo estava lotado.

    • A.M.Filho
      3 anos ago

      Esses dias conversando com um copiloto da laranja que deve ter uns 8 anos de empresa ele disse que não entendia o porque de tanta notícia negativa se os voos estão sempre cheios. Achava que isso era “plantado” na imprensa para que as empresas não discutissem sobre o reajuste no final de ano. Segundo ele, se os voos continuarem cheios, a empresa terá que aumentar a frota e logo ele será promovido…isso é prova, infelizmente, que tem gente que mesmo estando dentro das companhias aéreas, não tem a menor ideia de como funciona o negócio.

      • Cesar Santos
        3 anos ago

        Tem muita gente que trabalha em operações mas não tem noção de como realmente funciona, gostaria que você exemplificasse isto

    • Fernando A[N
      3 anos ago

      Carlos, quero ser um piloto de avião, tenho 19 anos na sua opinião, vale apena eu investir nesta profissão?

  5. Marcel
    3 anos ago

    É válido o pensamento que, se para os recém-formados o mercado está em retração e portas fechadas, com o gráfico lá embaixo, iniciando uma formação agora do zero (PPA), estimando entre 2,5-3 anos a formação completa, talvez seja um bom momento para esse investimento pois a tendência que em 2018/2019 os IEP suba?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Difícil fazer uma projeção de prazo superior a um ano no Brasil… Mas eu acho que o cenário de 3+ anos deverá ser melhor que o atual, sim.

  6. Anônimo
    3 anos ago

    É Raul com esses dados, não consigo imaginar quando que o IEP (Índicie de Empregabilidade de Pilotos) ficará positivo, ou seja, teremos alguma vez na vida déficit de pilotos no Brasil?

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Olha… Veja como estavam os índices em 2006, e veja o que aconteceu nos anos seguintes. Naquela época, a VARIG estava falindo, o caos aéreo estava instalado, e não havia nenhuma perspectiva boa também. As coisas mudam muito rápido e de maneira inesperada para melhor, também.

    • Dutra
      3 anos ago

      O problema é que a aviação tem curtos períodos de boa empregabilidade, e longos períodos de baixa. Quando o profissional está se estabilizando no emprego, ele é dispensado na próxima crise. Fica difícil se programar e fazer planos assim. Como alguém vai ter uma vida tranquila desse jeito? A diferença é que dessa vez não tem nenhuma aérea falindo (por enquanto) e mesmo as vésperas de uma olimpíada, onde a demanda por esse setor deveria aumentar, ele retrai sem parar numa velocidade enorme, A situação econômica das cias é péssima (aliás quase sempre é) e mesmo que as coisas melhorem, levará muito tempo para absorver esse excedente de profissionais no mercado, seja de asa fixa ou rotativa. Sabe o que eu aprendi nesse tempo? Quando estiver empregado, economize, pq, mais cedo ou mais tarde vai precisar. Acho que só vendedor de picolé na praia é mais sazonal que ser piloto. Está desanimador…..

  7. Humberto Rodrigues
    3 anos ago

    No caso de demissões, é possível começar pelos empregados que votaram na presidAnta?

    • saco cheio
      3 anos ago

      Ótima idéia. Perfeita.
      O problema é achar alguém que diga agora, que votou na gang….a 13 anos…

  8. Filipe
    3 anos ago

    Ingressei na aviação em 2011 e até hoje só piorou.

  9. Chumbrega
    3 anos ago

    Esse assunto me deixa muito intrigado! Comentei ainda hoje naquele outro post sobre a situação das aéreas no Brasil, eu não consigo entender este indústria (como negócio). Se o capitalista não tá fazendo dinheiro (ou não vai, como é quase certo no transporte aéreo), por que ele não investe em bonds? Não faz nada e vê o dinheiro render sem se dar a esta trabalheira geradora de prejuízo.

    • Dutra
      3 anos ago

      Tb gostaria de saber! Nunca vi empresa aérea dar lucro consolidado. Toda vez que vejo a opulência das cias árabes por exemplo, entendo que só mesmo o petróleo pra financiar. A pergunta é: Até quando será assim?

      • Marco Véio
        3 anos ago

        Caro Dutra, em 2010 fiz um estudo para fazer um histórico do lucro das empresas aéreas do ocidente, deixei poucas de fora. O número que eu cheguei foi de +0,4%. Do pós guerra até 2009. Em 2011, um sujeito que é diretor de uma empresa aérea brasileira, chegou num número mais modesto: +0,3%. Foi aí que ví que transporte aéreo é negócio para maluco suicida rssss

  10. A.M.Filho
    3 anos ago

    Infelizmente estamos vendo que o ano de 2016 já nasce morto e que será péssimo para empregabilidade na aviação comercial. Acredito que a linha aérea é o último reduto em matéria de empregos a sofrer as consequências da crise (Pois ainda não fez demissões em massa, somente por file). Pelo que escuto de colegas e pelo o que estou sofrendo na pele, fica claro que a aviação geral e executiva já foi destroçada e continua a ser destruída dia após dia. Basta um passeio pelos aeroportos para vermos que a aviação geral está no chão e muitos empresários buscam se livrar de seus aviões devido à crise.
    Esse número de 600, se confirmar, será aterrorizador. Comparável aos tempos de quebradeira das companhias clássicas e neste caso, não podemos nos enganar. SERÁ O FIM DA LINHA PARA O SONHO DE ENTRAR E TRABALHAR EM UMA COMPANHIA AÉREA DURANTE ALGUNS ANOS!!!! Em caso de demissões por redução de postos de trabalho, as companhias ficam obrigadas (O que é justo) a recontratar os trabalhadores demitidos, em um prazo de dois anos, em caso de melhora do quadro e reaquecimento da demanda. Companhias como a TAM costuma recontratar a todos que queiram voltar independente do fim do prazo. Existe ainda o caso da Gol que fez acordo com a Justiça do Trabalho e terá que recontratar todos os tripulantes da Webjet que queiram voltar mediante a necessidade da empresa. Claro que algumas pessoas falarão que muitos dos dispensados irão pra China, Oriente Médio, Ryanair, etc…o que é uma verdade, mas difícil de mensurar.
    Eu não sei como isso tudo está sendo processado dentro da cabeça de quem está recém checado ou que ainda está voando nas escolas buscando a sua qualificação. Na minha cabeça, já estolei, não vejo alternativas no curto prazo, se não abandonar a aviação e tentar sobreviver de outra coisa, situação complicada já que deixei minha antiga profissão há certo tempo.
    Sábias palavras, Raul, aos que estão começando. Busquem enxergar com os olhos da realidade para o que está acontecendo e não tomem atitudes precipitadas. Nesta fase é natural, pela ansiedade, achar tudo relacionado ao emprego atual ruim e sonhar romanticamente com a aviação, mas lembrem-se de quem paga os seus salários. Esqueçam, definitivamente, aquela onda de 2009-2010 de que ia “precisar” muitos pilotos e esqueçam também o tal relatório da Boeing que dizia que a frota da América Latina iria dobrar. Aquilo só seria possível se nós soubéssemos votar e a não nos iludíssemos com o populismo.
    Para os que estão na linha aérea, principalmente os “rabos de fila”, estudem muito, treinem o inglês, se interem dos processos seletivos. Lembrem que na aviação e na vida em geral, quem consegue antecipar movimentos, consegue o sucesso mais rápido. O conselho vale até pra quem está longe do fim da fila afinal, com um prejuízo como o da Gol em um único trimestre, eu não ficaria tão tranquilo. A estrutura está ruindo.
    De resto, só resta lamentar e ver a seletividade de nossa imprensa em atribuir boa parte do noticiário para um único corrupto (EC) e livrar a cara dos verdadeiros responsáveis por essa baderna que está aí, acabando com as únicas esperanças de dias menos piores. O jeito é sonhar com 2018, 2019…16 e 17 já era!

  11. Marco Véio
    3 anos ago

    Mal começou e o clima nas empresas está uma M.

  12. Fred Mesquita
    3 anos ago

    Esta semana tive a má notícia da demissão de dois amigos que voavam na GOL. Os cortes já começaram…

  13. Daniel
    3 anos ago

    o pior é que não há expectativa de melhora…

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