Mais informações sobre a entrada da companhia chinesa na Azul

By: Author Raul MarinhoPosted on
529Views3

Complementando o informado ontem, sobre a entrada da companhia chinesa HNA na Azul Linhas Aéreas, vejam essas duas matérias publicadas hoje pela Folha e pela Exame, que esclarecem alguns pontos importantes da transação:

  • A participação da companhia chinesa será constituída integralmente por 24,83% das ações preferenciais (sem direito a voto) da Azul, e o entendimento é de que o limite de 20% de capital estrangeiro do CBA só se aplicaria às ações ordinárias (com direito a voto). Apesar disso, a participação acionária dos chineses dará direito a uma cadeira no Conselho de Administração – logo, a voto! -, mas tudo bem, não vamos polemizar. O fato é que o controle da empresa agora será dividido com os chineses – que, é claro, não têm interesse em desenvolver a aviação brasileira, e sim aumentar o retorno de seus próprios investimentos. (Não que o principal objetivo da Azul seja “desenvolver a aviação brasileira”, mas por ser uma companhia aérea do Brasil, é evidente que para ela isso faz muito mais sentido).
  • O dinheiro que irá ingressar no caixa da Azul servirá, de acordo com a reportagem da Folha, para amortizar a dívida, para renovar a frota (o que não significa aumentar o número total de aeronaves – na verdade, o presidente da empresa diz ter “entre 10 e 15 aeronaves em excesso”…), e para tapar o buraco do malogrado IPO (abertura de capital), que já foi adiado três vezes. Ou seja: em princípio, não há motivos para a ‘pilotosfera’ comemorar a operação, por mais que ela possa ser determinante para a sobrevivência da empresa no longo prazo (nenhuma das aplicações do dinheiro chinês deve se refletir em novas contratações).
  • Sinergia, que linda palavra… Na matéria da Exame, têm-se uma noção do tamanho do grupo HNA, hoje um dos 500 maiores conglomerados econômicos do planeta. Eles investem em diversos setores, e é claro que há muitas possibilidades de sinergia, seja com as demais companhias aéreas do grupo, seja com empresas de hotelaria e turismo, e mesmo com a recém-adquirida Swissport. Mas, cá entre nós, os chineses precisavam comprar 1/4 da Azul para poder estabelecer parcerias entre a companhia e as empresas do grupo HNA? Na minha opinião, essa história toda de sinergia veio como uma explicação vendida à imprensa somente para justificar o interesse dos chineses pelo negócio. (Mas a palavra continua sendo linda…).
  • O HNA é o maior operador do Embraer-190 na Ásia, e a Azul é o maior (e único) operador E-190 no Brasil. Aí a “sinergia” começa a fazer sentido, assim como a participação acionária dos chineses na companhia brasileira (embora “sinergia” não seja o termo mais apropriado para descrever esse tipo de efeito econômico). O grupo vai aumentar o poder de barganha junto ao fornecedor (Embraer), e talvez até haja vantagens no recrutamento de tripulantes na China, onde eles são muito mais escassos. Sobre essa questão dos tripulantes, vamos pensar: um operador de E-190, que paga uma fortuna em salários para seus pilotos, adquire participação numa outra empresa que opera a mesma aeronave, famosa por ter um padrão de remuneração reduzido. Pergunto: nessa história toda, o que é mais provável? Que o primeiro operador, aquele que paga melhor, reduza o valor dos salários; ou que o segundo operador, aquele que paga menos, os aumente? Onde eu quero chegar é que a entrada da HNA na Azul tende a ser desvantajosa tanto para o fabricante brasileiro de aeronaves, quanto para os tripulantes (brasileiros, inclusive) que sonham com o mercado asiático para ganhar mais com a qualificação de piloto de E-190.

Em resumo: até o momento, eu não vi nada de positivo nesta entrada da HNA na Azul, pelo menos para os tripulantes brasileiros ou para a aviação do Brasil.

3 comments

  1. Zé Maria
    3 anos ago

    Mais um post irrepreensível do Raul!
    A “simpatia” dele para com a palavra mágica “sinergia” é minha também!
    Impressionante como nesse nosso mundinho moderno e vazio de conteúdo, esses termos absolutamente sem significado tais como “agregar valor”, “sinergia”, “resiliência”, “proatividade” etc, estão cada vez mais valorizados nesse linguajar politicamente correto, onde “empregado” virou “colaborador” e por aí vai. . .
    E com relação aos chineses, não se iludam, de bonzinhos eles não tem nada, muito pelo contrário, quem viver, verá!

  2. Juliano Rangel
    3 anos ago

    Amigo, me desculpe mas devo discordar do seu ponto de vista que não há nada de positivo na entrada do Grupo na Azul, se olharmos por um ponto de vista econômico onde o Brasil carece de investimentos, dinheiro etc… pois o governo está afundando o barco com todos nos dentro eu vejo o investimento dos estrangeiros em nossa economia como um ponto positivo e acredito que alguém está com um visão de Thunder Cats (Visão além do alcance) nesse negócio, acredito que teremos boas notícias para os próximos dois anos, até porque o governo está desgastado e eu até arriscaria dizer que está convalescendo, agonizando e a tendencia é a queda e nisso o senário econômico muda significativamente e o momento de se comprar algo é no momento de crise, pois compra barato… Os chineses sempre acertam…

    • Raul Marinho
      3 anos ago

      Olha… Pode até ser que seja bom para o Brasil que os chineses tenham investido na Azul (eu, honestamente, tenho minhas dúvidas, mas nem vou entrar nesse mérito), e certamente foi bom para os atuais controladores da Azul. Agora, para os tripulantes, eu continuo achando que não foi, não. Pelo menos no curto prazo, esse investimento não vai gerar empregos nem melhorar salários para pilotos, e é neste ponto que se concentra a minha análise.

Deixe uma resposta