Sobre o andamento do processo seletivo do SESC/Pantanal – e algumas reflexões muito interessantes sobre empregabilidade de pilotos

Sobre o andamento do processo seletivo do SESC/Pantanal – e algumas reflexões muito interessantes sobre empregabilidade de pilotos

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O processo seletivo do SESC/Pantanal para contratação de um piloto para a aeronave Cessna 206 (vide aqui e aqui) prossegue, e como muitos leitores do blog estão interessados em informações sobre o seu andamento, reproduzo a seguir uma mensagem que recebi de um amigo que está participando do processo. Na verdade, o texto abaixo é mais do que um mero relato: ele contém reflexões muito interessantes sobre empregabilidade de pilotos, vale muito a pena a leitura!

Fui a Cuiabá fazer a prova do concurso do SESC Pantanal na sexta passada (16/09/2016). Fui de ônibus na quinta, cheguei de noite e fiquei em hotel. A prova foi na sexta das 14h às 17h, nas instalações da Fly Asa. Alguns candidatos ficaram hospedados no alojamento da Fly Asa, muito mais barato. Eu não sabia dessa possibilidade.

Cheguei lá e fui recebido pelo pessoal da escola. Pelo que entendi, a Fly Asa foi contratada pelo SESC Pantanal para assessorar ou realizar o concurso. Eles elaboraram a prova, aplicaram, e me parece que vão fazer a avaliação prática também.

Ficamos sabendo que eles receberam 540 currículos, dos quais selecionaram os 41 convocados para esta segunda etapa, da prova teórica. Apareceram lá pra fazer a prova uns 28, mais ou menos. A grande maioria não era de Cuiabá, ou mesmo do Mato Grosso. Veio gente do país inteiro. Um rapaz de Belém do Pará viajou 48 horas de ônibus pra chegar. Uma piloto do Sul que mora e voa no Nordeste também estava lá. Gente de Bauru, Piracicaba. Quase todo o mundo que era de fora foi até lá de ônibus – irônico como os pilotos precisam recorrer ao transporte terrestre para os seus próprios deslocamentos pelo país; dá uma noção da situação mercadológica da profissão.

O perfil do pessoal mostrava um padrão. Pilotos da aviação geral com experiência entre mil e três mil horas. O pessoal do Norte e do Centro-Oeste com mais experiência de executiva a pistão. O pessoal mais do Centro-Sul com mais experiência na instrução. A grande maioria não tinha experiência acadêmica ou especialização teórica na aviação (CA, cursos específicos – não perguntei, mas acho que até o ICAO quase ninguém tinha*). Acho interessante como aparecem quase 30 pilotos com muito mais de mil horas em média atrás de um emprego formalizado com essa remuneração que o SESC oferece. Se o cara juntou todas essas horas e está interessado nesse emprego (a ponto de cruzar o país de ônibus para enfrentar a concorrência), deve ser porque essas horas todas foram feitas sob condições trabalhistas bem ruins, não?

A aplicação da prova foi acompanhada por dois funcionários do SESC Pantanal. Um deles me pareceu ser o diretor da unidade, pela postura protagonista que assumiu, dando informações gerais sobre o concurso e, principalmente, ressaltando os procedimentos que garantem a isenção do concurso. Ele afirmou que essa seleção está sendo “acompanhada pela direção nacional do SESC”. Aparentemente o concurso é pra valer, sem cartas marcadas.

O pessoal da Fly Asa estava algo eufóricos. Pareciam orgulhosos por estarem conduzindo a parte técnica do processo. E o fizeram com bastante competência.

A prova era composta por 30 questões de múltipla escolha com quatro alternativas cada. As questões foram divididas por matérias, com um número específico de questões por matéria. Não me lembro completamente dos títulos das matérias, mas era algo como Direito Aeronáutico, Peso e Balanceamento, Regulamentos de Tráfego Aéreo, Performance, Meteorologia, Navegação e Conhecimentos do Cessna 206. As matérias correspondiam bem razoavelmente ao conteúdo do edital. Achei o nível da prova excelente. Questões em geral muito bem elaboradas, algo desafiadoras. Nada extremamente difícil para quem estivesse muito bem preparado. Mas também não estavam fáceis, não. Alegria adicional por as questões não agredirem à última flor do Lácio, como é tradição nas bancas da ANAC. Enfim, foi uma prova típica de concurso, com uma saudável abordagem acadêmica. Gostei bastante. Como eu não estava tão bem preparado, acho que não fui muito bem. Muita raiva de eu mesmo por errar uma questão fácil, por bobeira, e por não ter estudado melhor.

É muito melhor sair de uma seleção objetiva para uma vaga de piloto com raiva de si mesmo por não ter desempenhado à altura das próprias expectativas, do que sair de uma seleção com raiva da empresa contratante, por ter dado indícios números de que houve favorecimentos indevidos e arbitrariedades aleatórias nos obscuros processos de seleção, como é típicos ocorrer em seleções de companhias aéreas. Isso quando você tem a chance de participar da seleção, cujo convite para participar já é algo extremamente obscuro.

Para concluir, tive a impressão que a adoção de processos seletivos nos moldes desse que está sendo realizado pelo SESC Pantanal podem contribuir para melhorar muito a qualificação dos pilotos. Seleções como esta são um poderoso instrumento para impor a moral da qualificação e da competência como critério de sucesso profissional na aviação. Pena que esse tipo de seleção seja tão raro na aviação. Pena também que os maiores empregadores da aviação, as companhias aéreas, resistam tanto a adotar esse tipo de seleção, isenta, objetiva e transparente como prática. Todos teriam a ganhar. A começar pelas próprias companhias, que saberiam contar com os mais bem qualificados profissionais do mercado (algo que hoje não passa de uma bravata, quando afirmado pelas companhias – quem conhece pessoalmente vários dos contratados por empresas aéreas sabe muito bem disso). Ganham, claro, os pilotos mais bem qualificados, esforçados, motivados, bem preparados. Ganham os passageiros, por terem a sua vida e segurança nas mãos de pessoas mais interessadas em serem profissionais realmente bons do que em fazer ‘selfie’ e aderirem ao ‘life style’ da moda.

*De acordo com um outro amigo que está participando do processo seletivo do SESC Pantanal, somente essa questão do “quase ninguém tinha ICAO” é que é um pouco diferente. Segundo ele, havia parte considerável dos candidatos com a certificação de proficiência em inglês, mas isto é um detalhe: o restante das informações batem, segundo esta outra fonte.

16 comments

  1. Piloto consciente
    2 anos ago

    Acho muito engraçado os pilotos que aqui comentam, por isso a aviação se encontrar do jeito que está. Os pilotos estão mais preocupados em difamar uma entidade ou um outro piloto, do que se ajudarem. A aviação seria muito melhor se todos se unissem para conseguir condições melhores, ou todos se unissem para ir até o sesc e questionar o método da escolha dos currículos. E vi ainda alguns difamarem a FLYASA sobre um favorecimento de prova ou que o emprego ficaria com alguém relacionado a Fly. Estes mal sabem que nenhum instrutor ou ex instrutor pode participar do processo para evitar este tipo de conversa em uma possível contratação.

  2. Silva
    2 anos ago

    Fiz minha inscrição para a seleção e concurso conforme edital, no currículo online diretamente no site do SESC Pantanal não havia campos específicos para preenchimento de Pilotos a exemplo de outros sites onde exitem campos para preenchimento de horas totais, licenças, validades etc. Havia um currículo padrão onde e no final um campo “observações” onde inseri que tinha Curso Superior Ciências Aeronáuticas, 550 horas de voo, que trabalhei como instrutor de voo por 18 meses e listei as aeronaves já voadas.

    Para minha surpresa e decepção NÃO fui selecionado nem para a primeira fase do edital. Mandei email questionando o porque e obtive a seguinte resposta:

    ” No cadastro do seu currículo não foi informado se possui os seguintes pré-requisitos: habilitação de piloto em comando – MNTE e CMA 1ª classe válido.
    Citamos ainda o item 2.21, do descritivo do processo seletivo:
    2.2.1 – Ressaltamos que os currículos com informações incompletas ou confusas não serão analisados.”

    Fica visível que quem está avaliado os currículos não entende “BULHUFAS” de aviação, como poderia ser Instrutor de voo com 550 horas conforme indicado acima SE NÃO TIVESSE MNTE E CMA 1 classe ????

    PORTANTO ABREM O OLHO, ACHO QUE ESSE PROCESSO SELETIVO VAI FICAR NA MÃO DE UM EX INSTRUTOR DA FLYASA OU OUTRO PEIXE…

    • A.M.Filho
      2 anos ago

      Infelizmente, essa resposta que você recebeu aconteceu com muita gente e deve explicar o fato de tantos terem ficado de fora. Tive conhecido com 6000 hrs de voo, PLA, todas carteiras em dia que obteve a mesma resposta. No caso dele, alegaram ainda que ele não tinha “habilitação de voo noturno” (???). É uma pena que a análise de currículos, conduzida sem análise técnica mais elaborada, acaba trazendo prejuízo para o processo e consequentemente para o próprio empregador.
      Mesmo assim, ainda acho a ideia de um concurso para a vaga, bastante salutar, precisando de algumas correções de proa.
      Sobre o post, bacana o relato do candidato e o fato do Raul ter exposto em seu blog. Em alguns “fóruns” de aviação, se alguém postar algo parecido, é prontamente execrado pela turma que já conquistou seu lugar ao Sol e que quer que tudo permaneça como sempre.

    • 2 anos ago

      Flyasa somente elaborou e aplicou a prova. as demais etapas do processo são realizados pelo próprio sesc.

  3. Pilotero
    2 anos ago

    Galera, deixar a Fly Asa conduzir o processo seletivo já mostra por si só um viés parcial. Vi nomes de “cupinchas” de instrutores da Fly Asa na chamada pra prova. Vi pilotos que canetaram horas lá. Eu, honesto (e idiota, pois o probo no Brasil é bobo!) coloquei apenas as horas que tenho (horas voadas, quase 200 horas, nenhuma canetada!), tenho curso superior (o que era até então uma vantagem) e tenho conhecimento em inglês (ñ possuo Icao, mas morei fora e toparia uma entrevista em inglês). Possuo CCT em PLA entre outras coisas. O amigo que relatou a prova disse q a maioria ñ detinha curso superior (ñ desmereço quem ñ tenha, apenas penso q se colocam isso como uma vantagem, ela deveria ser de fato uma vantagem. Vejo q foi sonegada essa possível vantagem). De 540 currículos recebidos, chamarem apenas 41 mostra como um amigo citou que adotaram um critério no mínimo estranho. Será que apenas esses 41 detinham os mínimos para voar um Cessna 206? Achei interessante a idéia do Sesc, mas ao se realizar um concurso (que foi o caso) deveria se chamar uma instituição de fora da cidade, que ñ levasse em conta o compadrio, que sem dúvidas houve neste caso.
    Bem é isso.
    Bola pra frente e sucesso aos que continuam no concurso.

    • Leonardo Galbiatto
      2 anos ago

      Qual instrutor da Flyasa foi chamado ?

  4. A.M.Filho
    2 anos ago

    Constatar que foram enviados 540 currículos para UMA vaga de piloto de mnte no MT (Não querendo desmerecer a oportunidade) mostra em que pé estamos com relação ao mercado. Mostra que vivemos um enorme desequilíbrio entre profissionais e vagas disponíveis e que tal situação levará bons anos para ter algum reequilíbrio.

  5. Candidato
    2 anos ago

    Fiz o teste na flyasa citado, embora a prova estivesse bem acessível e clara, o tempo de estudo foi aproximadamente 3 dias após divulgação dos nomes. Nenhum gabarito poderia ser levado, muito menos a prova, isso retira um pouco da transparência, pois o candidato não irá saber o que errou.
    Outro fato que não está muito claro foram os critérios para a seleção de candidatos, parece que nenhuma informação dos curriculos foi confirmada, levando a crer que o processo seletivo foi feito por leigos, excluo aqui a flyasa, que apenas elaborou e aplicou a prova.
    Os candidatos presentes eram de variadas experiências: desde candidato com 150h que estava pra checkar PC, outros com 300h de convencional e até ex piloto da FAB de F5.
    Se apresentaram para a prova 24 dos 41 candidatos. A próxima fase é voo pratico IFR, no 152 da Flyasa.
    Sem datas definidas.

    • A.M.Filho
      2 anos ago

      Se o candidato estava “para checar o PC” não deveria ter sido selecionado para o processo e demonstra falha na seleção de currículos.

  6. Batistaca
    2 anos ago

    Eu acho um absurdo um piloto de Phenom ganhar 1.500 reais, tamanha responsabilidade que o piloto tem e fora o valor da arcft, pra mim pessoa que diz: não tá satisfeito procura outro, não é piloto, deve ser empresário, só quem investiu nessa carreira sabe que 1.500 reais pra um avião desse porte é quase um trabalho escravo, fico triste em saber que a profissão de aviador tá assim.

    • vai vendo...
      2 anos ago

      Exatamente por achar um absurdo , disse que tem que procurar outro. Quem aceita, desvaloriza a profissão.
      Mas, só existe esse tipo de proposta pq existe quem aceite….

  7. Capt.Sávio M.Zamboni
    2 anos ago

    Já tenho quase 30 anos de profissão,e acho impressionante com dão valor as provas;é prova de conhecimento,psicotenico,dinamica de grupo,entrevista,teste de Inglês,etc.
    Só que na hora da remuneração,ai o salario é de balconista,mesmo,não precisaria de qualificação
    nenhuma,neste ponto a mão de obra qualificada não vem ao caso,tem Emprego de Phenom 100
    no Rio que o dono do avião quer pagar os miseraveis R$1.500,00 por mês,e ainda fala para o can
    didato morar com um parente qualquer,um absurdo,a categoria de Táxi Aéreo teve 2% de aumento
    só que ainda está em julgamento,muito triste em ver tudo isso,e ver a profissão ser tão banalisada
    como está agora,acho que um pouco mais de respeito ao profissional deveria ser dado,afinal a ma
    quina que ele vai pilotar não custa menos que U$1.000.000,00,ou mais.

    • vai vendo...
      2 anos ago

      Caro ” Capt”:
      Jamais despreze uma outra profissão, como fizeste, citando a profissão de balconista.
      Melhore seu português, sua gramática e sua acentuação. Mesmo com “quase trinta anos de profissão”, sempre há tempo para aprendermos, caro Captain.
      O salário do Phenom 100, no Rio é ruim ou paga pouco, simples…não vá, peça para sair e não fique reclamando, pois aceitando essa situação, VC estará “banaliZZZZZZando” a profissão.

      • Eduardo
        2 anos ago

        Caro Sr Vai Vendo,

        Dificilmente leio um post do Sr em que não seja realizada alguma crítica a outro piloto, ou direta ou indiretamente, acredito e tenho plena certeza que o senhor deva realmente ser tudo aquilo que acha que é isto é, altamente competente, compromissado com a profissao que abraçou e culto. Me desculpe a sinceridade mas sua acidez nas palavras as vezes incomoda. Nao somos o que achamos que somos nem o que acham que somos mas algo entre essas duas posições, espero que o senhor esteja muito próximo do que acha que é e longe do que aparenta ser.

        • vai vendo...
          2 anos ago

          Sr Eduardo
          Obrigado pelo seu comentário.
          Creio que estás enganado.
          Não sou e nem quero ser melhor que ninguém.
          Meu “ácido” comentário sobre o post acima refere-se ao desrespeito com uma outra profissão. Quem desrespeita outra pessoa ou outra profissão merece um “ácido ” comentário, ainda mais com tamanhos erros de gramática e escrita.
          Quanto a sua opinião do que eu “aparento ser”, me desculpe, mas realmente não me incomoda.

  8. Rodrigo Soares
    2 anos ago

    “do que sair de uma seleção com raiva da empresa contratante, por ter dado indícios números de que houve favorecimentos indevidos e arbitrariedades aleatórias nos obscuros processos de seleção”, como o autor mesmo disse, reforço, aos demais saímos da seleção sem ao menos ter a oportunidade, com aquele pensamento, qual foi o critério usado pelo SESC para chamarem os 41 candidatos, não chegando a 10% dos inscritos e pra ajudar 4% nem compareceu. Realmente alguma coisa esta errada!

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