Aerobusters #2 – O Aero “Grúfalo”, e outros Bichos

By: Author José Roberto Arcaro FilhoPosted on
382Views6

Alguém já ouviu falar do Grúfalo?

Minha filha de 7 anos me apresentou a esse monstrengo por meio dos livros de Julia Donaldson, a criadora de “O Grúfalo”, e da continuação, “O Filho do Grúfalo”.

Basicamente, é a história de um Rato que vive numa floresta recheada de predadores, os quais poderiam dar cabo, muito facilmente, da sua existência.

Para evitar que isso aconteça, o convincente Ratinho inventa uma criatura (O Grúfalo) terrível, “cabuloso”, com dentes pontiagudos, garras, enfim, com todas as características que fariam parte do inventário de algo realmente assustador.  Então, o ardiloso roedor diz para todos os seus predadores que é “amigo íntimo” (e protegido) do tal monstro, e que não seria uma boa ideia comê-lo.

O esperto Rato vendeu tão bem a sua história, que em pouco tempo se transformou no animal mais temido da floresta!

O amigo da criatura mais terrível já vista (alguns animais juravam ter visto o monstro!): “O Grúfalo”.

Um belo dia, o Rato tem uma surpresa desagradável:

 Um Grúfalo de verdade, pronto para devorá-lo!

O Roedor, então, pensa rápido e dispara:

“Senhor Grúfalo, o Senhor não pode me comer!”

“Eu sou o animal mais feroz da floresta, sou temido por todos, e sabe qual é o meu prato predileto?”

“Torta de Grúfalo!”

“O Senhor não me acredita, Senhor Grúfalo?”

“Então venha comigo para um passeio, para que eu lhe mostre”.

E então, o Rato desfilou com o Grúfalo, lhe acompanhando, vindo logo atrás, comprovando para todos os seus predadores, que era realmente, protegido do Monstro.

A Cobra, a Raposa, e a Coruja, fugiram apavoradas!

E quanto ao Grúfalo?

Vazou! Convencido de que o Rato estava realmente no topo da cadeia alimentar.

Em pouco mais de um século, a Aviação evoluiu muito.

Especialmente após a Segunda Guerra Mundial, com o reconhecimento e a popularização do que chamamos hoje de “Aviação Geral”, tivemos uma evolução bastante sensível.

Uma época de projetos novos, “erros novos”, quando pessoas de cabeça aberta e de mentalidade próspera, resolveram que, para a manutenção do “negócio”, novas técnicas, novas filosofias, deveriam ser propagadas.

Penso que nas décadas de 70/80, a Aviação Geral tenha atingido, internacionalmente, a sua “Maturidade”.

Sendo um meio liberal, por concepção, a Aviação Geral permitiu que muitos Aeronautas criassem certos conceitos pouco ortodoxos em relação aos manuais técnicos e recomendações de fabricantes.

Afinal, como garantir a sua sobrevivência, num mercado tão competitivo, com pouco ou nenhum esforço mais profissional?

Você cria “causos”, preconcebe situações, diz para todo mundo que você sabe de tudo, e que se não for do “SEU” jeito, as coisas vão acabar mal para quem não te respeitar…. Ou procura estudar, pensar, e se “capacitar” para entender informações novas?

É claro que, quase que exclusivamente, no nosso País, a primeira “Filosofia” fez mais sucesso.

Ah…. Aquelas tão proveitosas conversas de porta de hangar, com aquele super-experiente, amigão, ex-Piloto de Garimpo…

Não generalizando, esses papos podem ser riquíssimos em informações técnicas e experiências valiosas, “but chances are”…

Século XXI, anos 2000: foi aí que o “Piloto Messiânico” encontrou o seu Grúfalo!

E, acreditem-me: pelo observado, ele não está conseguindo se sair tão bem quanto o Rato.

Next in AeroBusters

  • Ar quente: Quem vai querer?
  • Hélices: “A variabilidade constante do Ser”.
  • W.O.T.: What?
  • CHT, EGT, TIT, ROP, LOP: O quão quentes (ou frias!) as coisas podem ficar.
  • Aviônicos, Glass Cockpits, GPS, PBN: O mesmo prato servido de forma diferente?
  • Certificações, TSO, STC´s: Vamos fazer de novo?

Enfim, esses e outros assuntos, não necessariamente nessa ordem, poderão ser infinitamente revisitados aqui no PSP.

E, por favor, não me tratem como um “Messias”!

Quero discussões saudáveis, contribuições, descobertas….

Já até pedi pro Raul dois carimbos: um de “Confirmed”, e outro de “Busted”.

Mal posso esperar para usá-los!

6 comments

  1. Olá Betão! Como sempre a sensatez e perspicácia que lhe são características naturais! Uma visão fantástica mesmo não sendo profissional da área apreciei muito o seu texto. Vou te Seguir aqui também meu amigo. Com certeza vou aprender muito. Um forte abraço.

    • Beto Arcaro
      10 meses ago

      Valeu Claudião!
      Muito obrigado.
      Essa semana tem mais !

  2. Drausio
    10 meses ago

    Oi, Beto. Parabéns pelo espaço aqui no PSP.

    Sobre o post, você poderia detalhar melhor quais foram as “novas técnicas, novas filosofias”, que em décadas passadas “deveriam ser propagadas” “para a manutenção do ‘negócio’” hoje conhecido como aviação geral? A história de como aconteceram os muitos desenvolvimentos técnicos e de conceitos operacionais na aviação, além de muito interessante (e algo fabulosa), pode contribuir para termos uma melhor consciência do que estamos fazendo quando voamos hoje.

    Sobre o “Grufalo” encontrado pelo “Piloto Messianico” nos anos 2000, fico me perguntando quais seriam as feições do monstro. Muitos ficariam surpreendidos e desconcertados ao conhecê-lo. Durante o ano de 2011 e início de 2012, ainda sob a efervescência do “apagão de pilotos”, as escolas estavam ultra-lotadas de alunos ávidos pela carteirinha azul que, supunham, lhes garantiria acesso imediato a um trabalho gramouroso e muito bem remunerado. Naquele contexto, testemunhei de perto inúmeros aspirante a piloto cujo perfil pessoal diferia em muito de tudo o que já havia sido visto na aviação até então. Eram rapazes e moças muito jovens que, a despeito de não trazerem em sua história pessoal qualquer registro de interesse pela aviação, juravam ter descoberto subitamente em si mesmos uma inescrutável paixão por ela que os teria acompanhado desde criancinha. Alguns eram comissários atuantes nas majors brasileiras de então, outros pareciam ser playboys, agroboys, nerds, ou simplesmente jovens comuns de classe média. Alguns deles visivelmente não possuíam o talento e a vocação necessários para pilotar bem um avião ou desempenhar as funções de um tripulante profissional. Ainda assim, a esmagadora maioria conseguia completar toda a formação, ser aprovado nas avaliações e checks e se habilitar tecnicamente ao receber a carteirinha azul. Era interessante vê-los completar duas ou três dezenas de horas em vôos realmente solo. Faziam navegações VFR solo na TMA Academia com razoável segurança e proficiência. Eu ficava apreensivo sobre como reagiriam na eventualidade de uma emergência real – a mais provável, uma pane completa de motor. Felizmente nunca tive a oportunidade de constatar como isso teria sido. Era muito esquisito ver tanta gente tão estranha à aviação desempenhando tão razoavelmente bem tarefas consideradas muito difíceis – como pilotar um monomotor – por tanta gente que passou a vida inteira em contato íntimo com a aviação sem nunca ter adquirido a proficiência e a confiança necessárias para fazer um único voo solo, ou para ir além dele. Teriam estes últimos sido vítima da pano-pretagem generalizada nas décadas passadas? Me lembrava dos “Pilotos Messiânicos” que conhecera desde a década de 80 do século passado. Me lembrava de seus súditos fazendo rodinha no final da tarde na porta do hangar para ouvir os “causos”. Me lembrava dos “causos” e do quanto tê-los ouvido me ajudou quando pude cometer os meus próprios erros. Me lembrava de tantos que conhecera, cujo sonho de voar (ainda que fosse um pequeno monomotor) houvera sido impedido ao longo de toda uma vida pela pano-pretagem estúpida e corrupta dos exames de saúde realizados exclusivamente nos hospitais militares por décadas. Ao me lembrar de tudo isso enquanto jovens despreocupados decolavam e pousavam às revoadas, com razoável segurança e proficiência, bem na frente dos meus olhos, eu agradecia aos céus por não permitir que os personagens do meu passado na aviação estivessem lá para viverem a angustia de testemunhar tamanha heresia.
    Mas, afinal, o que haveria de tão errado no fato de pessoas que nunca tiveram maior interesse pela aviação se tornarem pilotos? Até mesmo tripulantes técnicos em companhias aéreas? Tentei sem sucesso achar uma reposta objetiva para essas perguntas. Tentei encontrar diferenças consistente de proficiência em voo entre os que genuinamente queriam ser piloto desde criancinha e os “hereges invasores”. Nunca observei diferenças consistentes entre esses grupos com relação aos desempenhos ensinados, treinados e avaliados durante a formação básica de um piloto comercial realizada em aviões de trens de pouso convencional. Se alguns do “hereges” “não possuíam o talento e a vocação necessários para pilotar bem um avião”, outros o faziam com maestria.
    Ainda estranho muito a presença cada vez maior na aviação (notadamente na aviação comercial) de pessoas que não tiveram uma história pessoal longeva com a aviação, que não sonharam com ela desde a infância, que não demonstram nenhum interesse especial pelo voo, que nunca praticaram atividades aerodesportivas (como aeromodelismo, vôo livre, vôo à vela, voo de ultraleve, acrobacia, voo de passeio no final da tarde, etc) e que – sem que se possa explicar como sabemos disso – não carregam em si a paixão pela aviação. Contudo, não saberia dizer objetivamente o que haveria de errado com a presença dessas pessoas na aviação. Se é que haveria mesmo algo de errado com a presença dessas pessoas na aviação.
    Penso que essas pessoas, a quem apelidei com a carinhosa alcunha de “hereges invasores”, sejam uma espécie de “Grufalo” dos “Pilotos Messiânicos” do passado. Espécie estranha, aliás, porque embora sejam capazes de devorar sem perceber todo um mundo que um dia existiu na aviação, muitas vezes assume a forma de uma fera de pele macia. Quer ver? Assista aos vídeos abaixo:

    https://www.youtube.com/watch?v=dkEsPn6kMyE

    • Beto Arcaro
      10 meses ago

      Drausio,
      Todos esses assuntos, você verá nos próximos capítulos, como especificado nos tópicos, no final do texto.
      É claro que não ficarei só nesses tópicos!
      Muitos assuntos emergenciais surgirão.
      Inclusive essas situações atuais e reais que você indicou.
      Youtubers…..
      Muita “massagem de ego”, muita historinha bonitinha, que não “helps” ninguém.
      O negócio aqui no AeroBusters é outro.
      Obrigado.

Deixe uma resposta