Ideias ao Vento #1 | O Piloto Sumiu?

By: Author Daniel TorelliPosted on
441Views6

Neste espaço, que se inicia com este artigo, teremos por objetivo propor reflexões sobre o nosso mundo da aviação em vários aspectos: carreira, tecnologia, mercado, regulação, e o que mais vier pela frente que valha queimar neurônios para pensar sobre. Vamos começar por um assunto que nos incomoda e que mexe com ao menos três dos itens colocados acima: “Qual será a necessidade de existir um piloto a bordo das aeronaves em um futuro próximo? ”.

Até pouco tempo atrás havia um enorme tabu para tratar deste tema. O mais comum era ouvir a seguinte frase: “Imagina se o passageiro vai entrar em um avião sem piloto…” – e, normalmente, a discussão acabava por aí. Ainda não tínhamos a invasão dos drones, e a tecnologia ainda não parecia ter atingido sua maturidade para esta discussão andar.

Pouco tempo se passou e já se evoluiu para um cenário bastante diferente – porém, ainda tínhamos o “fator humano”:  a resistência à ideia de entrar em uma aeronave sem piloto. Até que, em 24 de março de 2015, um ser humano completamente transtornado chamado Andreas Lubitz, que não deveria estar tripulando há muito tempo, era o copiloto do Airbus 320 da Germanwings que cumpria o voo 9525 entre Barcelona e Dusseldorf. Aproveitando-se da saída do comandante do cockpit, tomou os comandos para si e lançou o avião com 144 passageiros e 6 tripulantes contra os Alpes Franceses, resultando na perda de todas as vidas. Pronto, a reflexão foi imediata: o piloto poderia ser uma ameaça à segurança de quem está a bordo. O mistério sobre o desaparecimento do Malaysia Airlines 370 em 8 de março de 2014, onde a principal hipótese é a possibilidade de o comandante Zaharie Ahmad Shah ter sequestrado a aeronave e tê-la deixado se chocar contra o oceano, foi o elemento que faltava para se discutir a capacidade de controlar um avião comercial do solo e qual seria o nível de ameaça que representa o piloto à segurança dos passageiros.

Para os cientistas, outro ponto pesa: depois de anos de desenvolvimento da tecnologia, hoje o ser humano tem aparecido como o elemento que mais deve ser trabalhado na cadeia que garante um voo seguro. Segundo estudo feito pela seguradora Allianz, 70% dos acidentes fatais da aviação comercial têm relação com erros humanos, e a fadiga dos pilotos foi o maior fator contribuinte.

Compõe este cenário a projeção sobre o aumento no número de viagens que exigirá cada vez maior quantidade de pilotos – só que, em paralelo, o interesse por iniciar a carreira é cada vez menor. Já se fala muito em uma falta crônica de pilotos, principalmente no mercado chinês e americano, e a demanda não parece ceder. De mesma forma, as pressões por custos menores (e, consequentemente, tarifas menores) não abre muito espaço para melhorar-se as condições dos pilotos, o que poderia atrair novos jovens para a carreira.

Realmente, hoje ainda não temos solidificado em nossa cultura a ideia de máquinas autônomas, apesar de elas já estarem presentes em nosso cotidiano. Exemplos disso são a Linha 4 do Metrô de São Paulo e alguns carros que já ensaiam a direção autônoma, como o Tesla e o Volvo. A Ford anuncia para 2021 seu primeiro carro sem motorista produzido em larga escala, sem volante ou pedais. Inicialmente será para frotas de táxi, mas em 2025 esses carros serão vendidos para o público em geral. O que hoje não nos parece natural, em 2025 deverá estar incorporado à nossa cultura. Ok, e agora? Como estará a cabeça do usuário de transporte aéreo no futuro em relação à necessidade de pilotos nos aviões?

A NASA trabalha desde 2011 em um programa chamado SPO – Single Pilot Operations, que já está em sua terceira fase. O objetivo desse estudo é analisar e criar soluções para permitir, com margens de segurança e graus de confiabilidade necessários à atividade aérea, poder ter voos comerciais com apenas um piloto a bordo. Este piloto será auxiliado por um “Super Despachante”, conforme nome dado pela NASA. Este “tripulante de solo” daria apoio a 12 aeronaves em voo simultaneamente, acompanhando os momentos de maior carga de trabalho e, em caso de alguma situação anormal, assumiria uma função de copiloto junto ao tripulante a bordo, passando o apoio aos demais voos para outros Despachantes. O piloto a bordo teria autonomia para tomar o comando da aeronave em caso de falha de comunicação com o centro de controle ou algo não previsto nos protocolos de automação. O centro de comando de voo poderia assumir a aeronave em caso de incapacidade do piloto em continuar a conduzir o voo. Hoje os testes estão sendo conduzidos em simuladores e contam com a Rockwell Collins no desenvolvimento das tecnologias necessárias. Em 2020 estão previstos os primeiros testes em aeronaves, e a tecnologia deve estar disponível para começar a voar comercialmente na segunda metade da próxima década.

Ao mesmo tempo, temos a linha que trabalha para não termos pilotos a bordo. Esses voos poderiam ser completamente autônomos ou comandados remotamente, conforme os drones utilizados em conflitos mundo afora. Inicialmente, esta aplicação seria para voos cargueiros e missões especiais como monitoramento aéreo e pulverização agrícola. Mas é fácil imaginar que com a continuidade da evolução da tecnologia e as estatísticas positivas de segurança, ao longo do tempo haverá pressão para que este conhecimento seja aplicado em voos comerciais de passageiros.

Existem algumas dúvidas que ainda não podem ser respondidas de forma definitiva pela tecnologia e cultura que temos hoje – como, por exemplo: Será que um sistema completamente autônomo conseguiria controlar um avião, assim como fez a tripulação do DC-10 do United 232 em 19 de julho de 1989? Após a desintegração do motor central, perderam-se os três sistemas hidráulicos e, consequentemente, a capacidade de controlar o avião. Usando somente as superfícies de comando das asas e a potência dos motores, com um trabalho em equipe genial os pilotos da aeronave conseguiram realizar um pouso de emergência que salvou 185 das 296 pessoas a bordo. Como será que um computador reagiria à improvável situação de se perder os dois motores logo após a decolagem, como o comandante Chesley Sullenberger em seu A320? Ele efetuou um pouso incrível sobre as águas geladas do rio Hudson em Nova York em 15 de janeiro de 2009, salvando todos os 155 ocupantes do avião. Também tivemos na década de 90 alguns eventos na frota de Boeing 737, onde inadvertidamente o leme do avião comandava seu curso total e algumas tripulações conseguiram recuperar o controle da aeronave usando recursos que não estavam previstos nos manuais, além das inúmeras oportunidades anônimas onde os tripulantes tiveram papel predominante em tirar suas aeronaves de situações críticas e não previstas pelos engenheiros e/ou processos de certificação.

Outros pontos levantados são a capacidade do ser humano de perceber as sensações do voo para auxiliar na compreensão do que ocorre com a aeronave, e atuar para que se pouse em segurança; identificar ameaças internas e externas, como pássaros e balões; perceber um cheiro de queimado antes que a fumaça se faça presente; ou atuar em ameaças como a identificação de uma bomba a bordo.

Longe de mim afirmar hoje o que vai acontecer, mas acredito que é muito importante trazermos essa discussão, pois teremos impactos diretos nas carreiras, na formação de pilotos e na definição de quais habilidades serão necessárias aos pilotos do futuro. Minha proposta é pensarmos em onde estamos e para onde vamos nesse nosso universo de aviação, porque o tempo não para, a indústria corre, e o passageiro continua querendo voar cada vez mais.

6 comments

  1. Enderson Rafael
    2 meses ago

    Texto excelente, Daniel! Também acho que a barreira psicologica é a menor de todas. Até 300 anos atrás andávamos de cavalo e barco à vela. Nos acostumamos com tudo. No entanto, a barreira tecnológica ainda é imensa. Convido vc a ler meu artigo sobre o mesmo assunto.
    Um abraço! https://newsavia.com/o-fim-da-profissao-de-aviador/

  2. Pedro Motta
    10 meses ago

    Daniel, sensacional a maneira como você pondera os benefícios e os riscos desta “evolução”. O mais interessante é que está evolução não está limitada à aviação, mas sim espalhada em todos os ramos da atividade humana onde a automação/ robôs tem o potencial de substituir 90% ou mais de nossas atividades, seja como banqueiro, médico, advogado ou administrador. O mundo de 2030 será muito diferente e resolverá muitos problemas que temos hoje mas criará outros que nem imaginamos!

  3. Fernando
    10 meses ago

    E se o “piloto em solo” ou o “super despachante” forem suicidas assim com o piloto da Germanwings?

    • Daniel Torelli
      10 meses ago

      Oi Fernando

      A fase de desenvolvimento atual é justamente para desenhar um modelo que dê as proteções necessárias que permitam um voo seguro. Entre as várias ameaças que estão sendo consideradas está a de atos terroristas, onde um elemento sozinho ou em grupo tentem atentar contra a segurança do voo. Para isso, níveis de proteção automática e de supervisão das atividades humanas estão sendo desenvolvidos.

      Pense comigo: caso um operador de solo tente tomar os comandos da aeronave do centro de controle fica muito fácil para um supervisor identificar a ameaça, a segurança remove-lo da posição e substitui-lo por outro operador.

      No caso de termos um Piloto a bordo, esse poderia sobrepujar os controles; nesse caso um modo máster do centro de solo poderia sobrepujar os comandos de bordo.

      Enfim, um bom nível de supervisão e o envolvimento de várias camadas de proteção reduzem a probabilidade de uma ação que ameace o voo.

      As hipóteses são infinitas; podemos desenhar roteiros que o avião pode ser sequestrado e/ou derrubado em todos os cenários. Lembrando que uma das ameaças possíveis é um sequestro de solo, com um grupo hackeando o link com a aeronave, mas aí teria que ter a conivência com o piloto de bordo, mas quem sabe não existiria no modo de emergência um segundo canal de comunicação que recuperaria o controle…., e por aí segue a imaginação

  4. Beto Arcaro
    10 meses ago

    Oi Daniel,
    Parabéns pelo texto de início !
    Muito bom !
    Particularmente, não imagino aviões sem pilotos.
    Pelo menos não, neste século.
    O que eu imagino, e que já está acontecendo, é uma mudança nas funções de tripulação técnica, não importa em qual setor da Aviação ela atue.
    Como você mesmo disse, uma maior “Humanização” das decisões no cockpít, podem fazer a diferença entre a vida e a morte.
    Há muita reticência quanto à isso, principalmente aqui no Brasil.
    Abraços.

Deixe uma resposta