A informalidade trabalhista dos instrutores de voo em números

A informalidade trabalhista dos instrutores de voo em números

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Todo mundo sabe que “a maioria ou “uma grande parte” dos instrutores trabalha sem registro em carteira – e, conforme comentado neste post, tal fato tem grande importância para a qualidade e segurança da formação de pilotos no Brasil. Mas faltava uma quantificação desta “maioria”, e este é o maior mérito do ‘paper’ Instrução de voo: cenário atual e o impacto na segurança, de autoria do Cmte Mateus Panaro Ayres, recentemente publicado no Portal da ABRAPAC. Em resumo o cenário encontrado foi que:

  • 75% dos instrutores atuam sem registro em carteira;
  • somente 18,5% estão registrados como aeronautas (isto é: 6,5% dos INVA/Hs estão registrados irregularmente);
  • 93,5% não recebe remuneração pelos briefings/debrifings (ou seja: só ganham pelas horas voadas);
  • cerca de 2/3 não recebe nenhum tipo de diária ou vale-alimentação;
  • mesma taxa dos que não têm a renovação do CMA custeada pela empresa (do 1/3 restante, aproximadamente a metade tem reembolso apenas parcial das despesas com exames médicos);
  • cerca de 3/4 dos instrutores tem jornada de trabalho igual ou superior a 8h/dia;
  • 87% não recebe pagamento adicional por trabalho noturno ou fora da base; e, é claro,
  • a maioria (74,7%) cairia fora da instrução, se houvesse oportunidade.

Em termos qualitativos, os itens apontados como desmotivadores para a carreira de instrutor de voo no médio e longo prazo foram os seguintes:

grafayres

Embora não seja exatamente surpreendente para quem conhece o funcionamento dos aeroclubes e escolas de aviação do Brasil, a pesquisa do Cmte Ayres não deixa de ser impressionante: quando se vê os números, o cenário fica ainda mais dramático.

Em um próximo post comento outras conclusões do trabalho.

9 comments

  1. Alexandre
    2 anos ago

    Com a aprovação da terceirização ampla e irrestrita promovida pelo governo temer, o máximo que conseguirão agora será uma “pejotização”. Vínculo empregatício, jamais. Nada é tão ruim que o político não possa piorar.

    • Raul Marinho
      2 anos ago

      Mas a terceirização, que implica em vínculo empregatício, viria justamente para substituir a pejotização!

  2. Pois é…
    O que temos hoje, em termos de realidade, é uma “criatura”.
    Criatura, oriunda do suposto apagão de pilotos, da promessa de sucesso na carreira, com custo baixo de formação, etc.
    Mudar esse “stabilishment” é imprescindível, mas o remédio será amargo.

  3. Jackson Wesley Valério
    2 anos ago

    Caro Raul, desde quando migrei profissionalmente para a aviação, vejo esse cenário desolador não só por parte dos INVAs como também de muitos PCs/Multi/IFRs, já pais de família, trabalhando sem remuneração (ou seja, pagando para trabalhar) na incerta esperança de que algum dia, depois de 90 ou 900 dias de experiência seus empregadores “bondosamente” lhes dêem uma função mais estável.

    Não comento muito da legislação trabalhista por absoluta falta de domínio mas, mesmo que a tal remuneração variável oscilasse entre R$ 200 mil e R$ 1 milhão, por mais hipotético e esdrúxulo que possa ser o exemplo, o trabalhador deve receber no mínimo 01 salário mínimo na carteira, com multa de 100% do salário para cada vez que fosse pago com atraso.

    Bons voos,
    Jackson Valério
    OAB/MT 9057

  4. Eduardo N Veloso
    2 anos ago

    Excelente artigo. É um retrato muito fiel da área de instrução que eu e inúmeros conhecidos vivemos na instrução. Triste realidade.

  5. Renilton
    2 anos ago

    Considero extremamente importante o que está acontecendo em prol dos INVAS/INVHS.
    Mas gostaria de salientar que parte expressiva da aviação executiva também encontra-se em marginalidade semelhante. Sobretudo agora com a história da obrigação de recheque em simulador. Gostaria muito de ver esse blog e o SNA se posicionando a respeito.
    Os empregos tendem a se acabar. Ou aumentar a escravização da mão-de-obra.

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