Sobre o vídeo da arremetida do 737 que circulou na ‘pilotosfera’

Sobre o vídeo da arremetida do 737 que circulou na ‘pilotosfera’

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Alguns dias atrás circulou na ‘pilotosfera’ um vídeo denominado “Extreme Go Around 737 WINDSHEAR !!!“, mostrando um comandante de B737 efetuando uma arremetida (supostamente) após um alarme de windshear. Não vou reproduzir o vídeo aqui e nem citar o link propositalmente, por quatro motivos: 1)os leitores deste blog certamente já o viram; 2)quem eventualmente não o viu não terá a menor dificuldade para encontrá-lo no YouTube; 3)não quero discutir tecnicamente o procedimento neste post; e, principalmente, 4)o foco deste artigo será justamente a questão da captação e divulgação de imagens do cockpit em que aeronautas apareçam executando sua função – portanto, não faz sentido que este blog as divulgue, né? ;-).

O momento é oportuno, uma vez que tanto a ICAO e a IFALPA globalmente, quanto o SNA localmente, estão discutindo esta questão no presente momento. Filmar o trabalho do(s) piloto(s) no cockpit ajudaria numa investigação – e, por extensão, na prevenção – de acidentes aeronáuticos? Ou as imagens podem levar a conclusões equivocadas ou têm margem para expor a intimidade de aeronautas?

As imagens da arremetida do B737 e as discussões que se sucederam nas redes sociais, nos fóruns de discussão, nos blogs, e nos comentários do próprio vídeo no YouTube, dão uma pequena amostra do que poderá acontecer quando as gravações dos cockpits se tornar compulsória – e é de se esperar que, por mais bem protegido que seja o sistema, a chance de vazamento das imagens para a imprensa e/ou para as redes sociais é extremamente elevada.

Fosse você o piloto que aparece no “Extreme…“, você estaria incomodado com a repercussão da publicação do vídeo? (E se o próprio estiver lendo estas mal traçadas, seria excelente ouvir dele mesmo o que achou!). Ou, pelo contrário, acharia interessante que se dissemine tal informação? Acho um bom ponto para discussão.

8 comments

  1. Mateus Ghisleni
    2 anos ago

    Con certeza poderá haver ganhos para a investigação mas tenho maus considerações contra, que a favor!
    No exemplo em questão foram os próprios pilotos que filmaram, já teve grande divulgação, especulação e julgamentos em uma manobra que sempre é treinada em simulador, contudo a vida real dentro do cockpit não reflete 100% o treinamento que realizamos no simulador por vários motivos, entre eles, que no simulador estamos esperando aquilo acontecer na sequência do programa de treinamento.
    Temos casos de tripulantes que foram demitidos devido imagens do cockpit e pior, por imagens externas que levaram a interpretações incrivelmente desconexas do que aconteceu: erro X violações, e punições.
    Quando falamos em vazamentos não nos referimos somente ao órgão investigador mas sim a terceiros que tiveram acesso a isso, como deputados e senadores (CPI’s) e a próprio poder judiciário! Em relação a este último vale ressaltar que a Procuradoria Geral da República está tentando declarar inconstitucional os artigos do CBAER que tratam da confidencialidade dos dados SUPER (não vamos entrar aqui no mérito dessa ação), contudo se houver a declaração de inconstitucionalidade sem sombra de dúvidas muitos, e diria a maioria dos envolvidos em ocorrências aeronáuticas não irão mais falar tudo nas entrevistas após ocorrência ao CENIPA pois terão certeza que aquilo poderá e será utilizado em processos administrativos da agência reguladora e polícia civil ou federal , fazendo que o SUPER enfraqueça. Imagens divulgadas fora de contexto gerarão interpretações erradas e julgamentos prematuros e com certeza equivocados, e mesmo que posteriormente os fatos sejam esclarecidos esses tripulantes, no mínimo, já foram julgados e sentenciados pelos próprios colegas, imprensa, sociedade e quiçá justiça, e com certeza absoluta jamais haverá a mesma divulgação do resultado final corrigindo as conclusões anteriormente divulgadas.
    Outro item a ser analisado é o comportamento humano quando se está sendo filmado (por terceiros alheio a sua vintade), e isso é fácil de observar quando os pilotos estão em treinamento em simulador ou em voos de cheque. Seus comportamentos são completamente diferentes que mas operações normais, o tom da fala muda, o comportamento muda e a pilotagem também, há uma preocupação de que nada saia fira do “script” sendo que o vôo é dinâmico e não raras vezes temos que sair no previsto no SOP da empresa.
    E por último, mesmo sendo um cavaleiro do apocalipse, vocês lembram quais eram as preocupações durante a Copa do Mundo e Olimpíadas? Atentados! Atentado é igual a greve, se não causar impactos e ampla divulgação não cumpre com uma das suas finalidades (mostrar aos demais seu poder). Imaginem imagens de um ataque terrorista filmado direto da cabine de comando, com bandeira de determinado grupo terrorista exposto sobre o painel! Havia ampla divulgação e comoção mundial, e uma ótima propaganda para os grupos que reivindicariam a autoria do ataque, arrebanhando mais pessoas a sua causa!

  2. Acredito que uma combinação de favores pode sim trazer mais segurança. Com o avanço da tecnologia para streaming de data da aeronave a capacidade de flight tracking & data recovery o “delay” de parâmetros de performance ficará reduzido (target menos de 1seg), então por que não adicionar imagens em vídeo? Claro que imagens podem trazer o patamar jurídico à tona (“imagens protegidas por lei”) e os “pilotos de YouTube” + pilotos Youtubers vão inevitavelmente ficarem restritos a publicações e acesso. Há muito espaço para discussão.

  3. Igor
    2 anos ago

    “Mas pensando bem…
    Os dados contidos no FDR por si só já formam um “filme” sobre as executadas durante o vôo.”

    Faltou a Palavra ” ações” executadas….

    Raul, faria a gentileza de corrigir essa frase no meu comentário???

    Eu dia em aprendo a revisar antes de enviar o texto :-)

  4. Igor
    2 anos ago

    Na matéria ” Cultura aeronáutica,mata”, fiz o seguinte comentário :

    “Ter um vídeos com as ações dos tripulantes deve ser o sonho de todos os investigadores de acidentes aeronáuticos. Imagina só um FDVR (FLIGHT DATA / VIDEO RECORDER).
    Seria um grande avanço para a atividade de investigação e prevenção de acidentes.
    Mas imagino que essa novidade seria implementada apenas na “121”.
    Na “91/135” isso seria motivo para vender o avião, pois trata-se de um investimento “muito caro”.”

    Mas pensando bem…
    Os dados contidos no FDR por si só já formam um “filme” sobre as executadas durante o vôo.
    Tendo um “time line” demonstrando “quando e como” cada ação foi executada, qual vantagem ter uma câmera no cockpit traria além de criar esse tipo de situação citada na reportagem !?!

    Será legal se alguém puder compartilhar informações sobre quais são ou seriam as vantagens para melhorar a prevenção de acidentes e o treinamento dos pilotos ao ter um ” filme” Mostrando as ações executadas no cockpit, já que o próprio FDR é capaz de mostrar todas as ações feitas durante o vôo.

    Abs a todos…

  5. Mario
    2 anos ago

    O que é esse “firewall” que o comando fala?

    • Zé Maria
      2 anos ago

      Firewall = Full Thrust
      Potência Máxima,ok!

    • Marcos Pereira
      2 anos ago

      Apenas para complementar o colega que já contribuiu, Firewall = “Parede de fogo”, que é presente nas aeronaves que tem o motor à frente da cabine. A expressão é mais figurada no caso de um avião desses (até onde sei não chamamos de firewall a área entre o radome e a cabine em um 737, me corrijam se estiver errado). Também há outras expressões como “manete no vidro”, “manetes a pleno”, entre outras..

      • Zé Maria
        2 anos ago

        “Ré-complementando” o Marcos Pereira então:
        Totalmente correta a sua colocação, esse têrmo vem lá da época da “aviação à lenha”, dos monomotores pioneiros, quando o piloto “enchia a periquita”, seja via vernier ou manete propriamente dita, literalmente encostava na parede de fogo.
        O termo mais apropriado no caso dos jatos seria “ToGa” ou algo próximo, ok!
        Abraço.
        Zé Maria

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