Ideias ao Vento #4 | O Brasil que necessita do avião

Ideias ao Vento #4 | O Brasil que necessita do avião

By: Author Daniel TorelliPosted on
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Nós que vivemos no Brasil que gosta – mas não necessariamente precisa – de avião para viver, talvez não consigamos entender todo o cenário que envolve a atividade aérea no meio da Amazônia e próxima das fronteiras de nosso país.

Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar o Twin Otter em voos de avaliação pelo Exército Brasileiro na região da Cabeça do Cachorro, próximo a São Gabriel da Cachoeira, no estado do Amazonas. Tive que estudar um pouco a operação na região para poder ajudar os pilotos canadenses da fábrica, que eram os responsáveis pelos voos junto à equipe do Exército.

Quando recebi o briefing da operação pretendida, tomei o primeiro susto. Parte das pistas propostas estavam com suas operações suspensas por NOTAM ou tiveram seu registro cancelado. A enorme maioria das pistas de terra que estavam operacionais têm em seu registro o limite de 2.500 kg para o peso das aeronaves, o que nos restringiu o número de localidades que poderíamos operar. Legal foi explicar para os canadenses este cenário, e que no Amazonas temos apenas 4 localidades com combustível para aeronaves civis: Manaus, Tefé, Tabatinga e São Gabriel da Cachoeira, que ficam a aproximadamente 2 horas de voo de Twin Otter entre si.

Passada a fase de análise da infraestrutura, vamos dar uma olhada nas cartas e NOTAMS. Algumas surpresas: Tefé e São Gabriel da Cachoeira não têm procedimentos RNAV – e, para ajudar, Tefé está com o VOR fora de serviço. Em São Gabriel da Cachoeira, além do NDB fora de serviço, o balizamento noturno está inoperante.

Contei com a ajuda de um dos maiores especialistas na região, o pessoal da CTA Táxi Aéreo de Manaus. Depois de muito analisar e calcular vamos ao briefing com os canadenses. Experiência antropológica memorável tentar explicar esse cenário e encaixar o que é possível ser feito respeitando as regras e as exigências da seguradora do avião.

Seguimos nosso voo para São Gabriel da Cachoeira, e lá somos recebidos pelo General Bandeira, comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, que nos dá uma aula sobre a região, as etnias de quem lá vive, e os desafios do Exército Brasileiro na região, e nos contou sobre a necessidade e a importância do avião nessa missão. Resumindo: as distâncias são grandes, sem estradas, e com rios que têm trechos não navegáveis. Nada é fácil por lá.

Estão subordinados à 2ª BIS sete Pelotões Especiais de Fronteira (PEF’s): são postos avançados do Exército próximos às fronteiras com a Colômbia e a Venezuela, onde praticamente toda a logística depende do avião. O serviço mais pesado é feito pelos Casa 295 da FAB, mas nem toda a demanda é atendida. Assim, o Exército contrata empresas de táxi aéreo para complementar o serviço.

Entendemos que o avião é importante quando faz a diferença na vida das pessoas. Significa muito para esses soldados saber que, se precisarem, eles poderão contar com um avião para apoiá-los, já que estão no limite do Brasil em vários sentidos da palavra. O avião leva comida, remédios, médicos, combustível, as notícias; leva e traz as pessoas; é o principal elo para quem vive uma realidade difícil, que mexe com a cabeça das pessoas – lembrando que nos PEFs vivem os militares e suas famílias.

Voltando a falar de aviação, não consegui escapar da reflexão de por que as coisas são como são. O que faz com que uma região onde o avião é tão importante, onde a estrutura é de responsabilidade de diferentes órgãos governamentais (em sua maioria federais), não há um mutirão para solucionar os problemas, pequenos ou grandes, como a suspenção das operações de algumas pistas – ou mesmo atualizar a resistência do piso no ROTAER? Ou implementar procedimentos RNAV, que não dependem da operacionalidade dos radio-auxílios de tão difícil manutenção nessa região de acesso limitado, e mais uma série de pequenas coisas que poderiam ser feitas para ajudar na operacionalidade.

Voltei com a certeza de que a presença do Estado é fundamental para que essa área do Brasil continue protegida, mas as instituições deste mesmo Estado precisam se coordenar para que a aviação possa cumprir seu papel.

O Exército tem a missão dele, e luta diariamente para viabilizar seu trabalho, com todas as restrições que lhe são impostas. Mas os demais elos da cadeia têm que funcionar! É triste ver que parte do problema é papel, e falta de foco e de coordenação das diferentes autarquias públicas. A velha burocracia brasileira travando a operação e, por consequência, atingindo a vida de quem depende do avião.

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4 comments

  1. Carvalho
    3 meses ago

    Camaradas posso corroborar com o relato do Daniel. Também sou militar e servi em SGC no biênio 2014/2015. Aqui só uma pequena correção sobre o relato acima, os PEF’s (Pelotões Especiais de Fronteira) sete no total com efetivo de aproximadamente 60 militares em cada um deles, são orgânicos do 5º BIS (Batalhão de Infantaria de Selva), que por sua vez é subordinado à 2ª Brigada de Infantaria de Selva. Tudo o que foi dito acima é verdade, tive a oportunidade de voar até o Pelotão de São Joaquim, fazendo um transporte de indígenas pelo DSEI. E o que se vê é um abandono quase total do estado, presente dentro das limitações nos militares da FAB e do EB. Para se ter uma ideia do abandono a ponte que liga a área urbano do município ao porto de Camanaus (o principal da cidade onde chega tudo a SGC) e ao Aeroporto Wapés caiu há mais de dois anos e até hoje não foi reconstruída. Se não fosse a construção de uma ponte de campanha do Exército por meio da 21ª Cia de Engenharia. A cidade ainda estaria isolada.

  2. EC
    3 meses ago

    Brazil zil. A região Norte é impar. As autoridades negligênciam as necessidades de forma descarada. A maioria que lá vive é conformada com a situação. “Faz parte de se morar no Norte”, é como pensam. Quem ganha com isso?

  3. Vicente Bernardo
    3 meses ago

    Meus parabéns, pela matéria, pelo seu trabalho e por expor a realidade que existe nestes “brasis” desconhecidos dos engravatados.

  4. Eduardo
    3 meses ago

    Boa Reflexão Daniel, tive a oportunidade de ser vir em Tabatinga e quando Tenente fui designado para Comandar o Pelotão Especial de Fronteira de Ipiranga, divisa entre o Brasil e Colômbia. Pude verificar que dentre todos os acertos para desenvolvimento da região entre os órgãos governamentais somente foram cumpridos pelas Forças Armadas, muitas vezes vindo a assumir o cumprimento do elo da cadeia que não foi feito pelos que se responsabilizaram. Realmente a aviação naquela região é um fator de integração nacional, pois de Tabatinga a Manaus, a capital do Estado, são mais de 600 NM, sem muita infraestrutura no percurso, auxílios de navegação precários, poucas pistas homologadas, pouco apoio em solo sem falar na meteorologia adversa, com suas famosas pancadas de chuva no período da tarde. Permaneci destacado nesse pelotão um ano inteiro de cabo a rabo, como não era casado, fui sem família, experimentei a expressão ” a solidão do comando”. Quando de minha designação para outra unidade militar, esta localizada no RJ, aguardei a exfiltração minha e de meus sargentos por parte da FAB, o que não ocorreu. Fizemos uma vaquinha eu e os sargentos e contratamos um taxi aereo do nosso bolso, que nos conduziu de volta a Tabatinga, de lá pegamos o voo para Manaus e após para o Rio.

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