Ideias ao Vento #5 | De quem é a Culpa?

Ideias ao Vento #5 | De quem é a Culpa?

By: Author Daniel TorelliPosted on
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Esta é uma das frases mais utilizadas em nossas vidas e, talvez por isso, também muito exercitada na aviação, principalmente quando as coisas não dão certo.

Em nossa raiz cultural latina/cristã temos na culpa e na punição dois dos pilares de como funcionamos e interagimos em sociedade. Isso explica muito nosso senso de justiceiros em que queremos que o “responsável” por algo que não deu certo pague por seu erro o mais rápido possível.

É mais forte que nós: não conseguimos de forma natural escapar desta forma de pensar. Somos massacrados diariamente com isso, basta assistir a qualquer jornal, e vemos a imprensa perguntando: “de quem é a culpa? ”; ou: “de quem é a responsabilidade? ”. Abrimos nossas redes sociais e temos a evolução disso com as coisas mais aceleradas ainda: lá temos a pergunta, a resposta, o julgamento e, consequentemente, a revolta pela impunidade.

Essa forma de encarar as coisas faz com que assim que atribuirmos a culpa a alguém seria como se o problema desaparecesse, e a vida prosseguisse; parece que nos damos por satisfeitos ao nos convencermos de que alguém é o culpado. Essa forma de pensar sempre me incomodou muito, principalmente quando falamos em segurança de voo.

Normalmente, o papel da imprensa após um acidente aeronáutico é, no mínimo, imprudente. Cada veículo busca um furo de notícia ou colocar a manchete mais bombástica. Esse é o negócio deles: chamar e reter, pelo maior tempo possível, a atenção das pessoas – eles vivem disso. Pouquíssimas horas (às vezes minutos) após o evento trágico aparecem os primeiros candidatos a culpados, as primeiras teorias nascem antes mesmo de os investigadores profissionais chegarem ao local do acidente. Usam-se especialistas para enriquecer as informações, para aumentar o tempo no ar, para segurar a audiência. Existem algumas opiniões sensatas, mas tenho que reconhecer que a maior parte do que se fala nessas horas são enormes asneiras que mais atrapalham a real compreensão do evento do que ajudam o público a entender o que ocorre.

Para os iniciados e convertidos à filosofia do SIPAER, talvez seja um pouco mais fácil não pensar em culpar alguém, mas sim entender o que aconteceu e, a partir desse aprendizado, tentar melhorar as coisas para que não aconteça novamente. Esse é um caminho necessário para que tenhamos a melhora da tecnologia, dos procedimentos, das normas, dos processos, etc.

É muito mais fácil termos o foco no problema do que o foco na solução. Um acidente não pode ser esquecido, mas temos que ter consciência de que para aquele evento não temos mais o que fazer, a não ser aprender com os erros cometidos e trabalhar duro para evitar que ele se repita. O desejo de justiça está sempre presente, mas não pode ser o protagonista; se assim for, teremos uma cortina de fumaça para o que realmente precisamos entender e aprender para melhorar. Deixe para quem de direito – neste caso, a polícia e a justiça – atribuir e julgar as responsabilidades. A nós da aviação cabe nos debruçar para entender a cadeia de eventos que levaram ao acidente ou ao incidente, e trabalhar dobrado para divulgar isso com as recomendações e lições aprendidas.

Caso nos deixemos levar pela busca dos culpados ao invés de entender o que ocorreu, então nós, que trabalhamos com aviação, passamos a ser, no mínimo, os cúmplices de por que as coisas não melhoram, não evoluem. Precisamos de muita disciplina quando nos depararmos com a pergunta “de quem é a culpa?”, respondendo “o que podemos fazer para que isso nunca mais ocorra?”. Desta forma, teremos uma semente de mudança cultural para que as coisas melhorem continuamente.

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