Mais uma da série “não pega nada não” (só que SIM, pega SIM!): a “decolagem americana”

Mais uma da série “não pega nada não” (só que SIM, pega SIM!): a “decolagem americana”

By: Author Raul MarinhoPosted on
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Dizem que os aviões americanos que operavam na Guerra do Vietnam tinham que decolar com a maior razão de subida possível para fugir dos tiros dos vietcongues, daí o termo “decolagem americana” para referir-se ao procedimento em que, de acordo com o Relatorio Final Simplificado do PR-AVG (um acidente ocorrido logo após a execução de tal procedimento): “após sair do chão, a aeronave permanece próxima ao solo em voo rasante e, ao final da extensão da pista, e devido à alta velocidade adquirida, sobe em ângulo elevado”. Uhuul!!!

Trata-se de “uma manobra perfeitamente normal”, de acordo com o piloto entrevistado pelo jornal Estado de Minas logo após o acidente do relatório acima. A investigação do CENIPA também revelou que “este tipo de decolagem ocorria com frequência no aeródromo [Pampulha/BH], sendo considerada normal por muitos deles [funcionários do aeroporto e pilotos daquela região]”. “Normal” é um adjetivo que permite vários significados, mas neste caso dois podem se aplicar: A)usual, comum; natural; ou B)conforme a norma, a regra; regular.

No início do meu curso de PC, eu aprendi a realizar tal procedimento como uma manobra “normal do tipo A” – ou seja: era absolutamente corriqueiro realizar uma “decolagem americana” – para mim, era como uma questão de pousar com ou sem flap. Num cheque com INSPAC, talvez eu efetuasse a manobra pensando ser totalmente correta (ou seja: eu também achava que ela era “normal do tipo B”). Só depois, quando fui voar numa escola com maior grau de padronização, foi que eu entendi que a “decolagem americana” não era nem regular e nem seria aceita ali como “usual/comum/natural”. Isso dá uma ideia do baixíssimo nível da cultura de segurança que havia naquele primeiro aeroclube – que, não por acaso, foi o mesmo onde ocorreu o incidente citado neste post.

A “decolagem americana” está fora das normas não porque quem as escreveu é “chato”, mas porque se concluiu que há risco da coisa dar errado – e é por isso que existe a “padronização” na pilotagem. No caso do PR-AVG, o resultado foram três mortes – só não foram mais porque o avião carregava um único passageiro e, por milagre, não morreu ninguém em solo (a região do acidente é um trecho urbano densamente habitado). Acidentes decorrentes de “decolagens americanas” especificamente não são frequentes, é verdade, mas a questão é que acidentes causados por despadronização são muito comuns, e quem faz uma “decolagem americana” hoje, amanhã vai dar um rasante, depois de amanhã vai encurtar um procedimento de aproximação (vide PR-AFA), e por aí vai.

Não caia na armadilha do “não pega nada não”, isso não existe na aviação. Pode “não pegar nada” uma vez, duas, cem; mas uma hora uma “violaçãozinha banal” como uma “decolagem americana” lhe coloca num relatório do CENIPA – que, a propósito, nem será concluído por causa da violação que você cometeu (e é claro que não existe isso de “violaçãozinha e violaçãozona”…). E aí, nem para Recomendação de Segurança de Voo seu acidente vai servir.

4 comments

  1. Eduardo
    7 meses ago

    Caro Raul,

    Qual é o regulamento que está sendo violado durante a decolaem americana? Nunca consegui essa resposta de maneira consistente.

    • Raul Marinho
      7 meses ago

      Está no próprio RF-S:
      RBHA 91 SUBPARTE D – OPERAÇÕES ESPECIAIS DE VOO
      91.303 – VOOS ACROBÁTICOS
      Nenhuma pessoa pode operar uma aeronave em voos acrobáticos:
      (a) sobre qualquer área densamente povoada de uma cidade, vila ou
      lugarejo; […]
      […] (c) dentro dos limites laterais dos espaços aéreos Classe B, Classe C,
      Classe D ou Classe E designados para um aeródromo; […]
      […] (e) abaixo de 1500 pés de altura. […]
      […] Para os propósitos desta seção, voo acrobático significa qualquer
      manobra intencional envolvendo mudanças bruscas na atitude da aeronave ou
      atitudes e/ou acelerações não necessárias ao voo normal.

  2. Chumbrega
    7 meses ago

    Raul concordo em tudo com o que disseste. Dito isso, não posso deixar de me queixar, mais uma vez da qualidade do RF do CENIPA. Essa interrupçao de investigaçao pra mim é preguiça, incapacidade, falta de recurso ou um pouco disso tudo. Cade a investigaçao sobre fatores humanos, cultura, etc? Cade as recomendaçoes?
    Ja pensou se o NTSB nao tivesse investigado o pinnacle 3701 so pq os pilotos cometeram violações?
    Ou o COMAIR 5191 pq violaram a regra de sterile cockpit?
    Se erros e violaçoes forem sempre motivo para interromper investigaçao, pra que ter um orgao permanente?
    Em outros tempos ja admirei muito o cenipa. Hoje, minha impressao é q sempre percorrem o caminho mais facil para “ficarem livres” do trabalho. Compreendo todas as limitacoes de recursos e de pessoal do órgao, mas se isso for desculpa pra nao fazer o trabalho, aí nao ha razao de ser.

    • Raul Marinho
      7 meses ago

      Pois é… O PR-AFA também começou com uma violação do procedimento de aproximação.

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