50+ tons de QI – As múltiplas faces da indicação profissional para a contratação de pilotos

50+ tons de QI – As múltiplas faces da indicação profissional para a contratação de pilotos

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O mercado de trabalho para pilotos oscila entre períodos de poucas contratações, como tem sido nos últimos anos (2013-17), alternado com outros mais ativos, como foi a época do “apagão de pilotos” (2009-12). Hoje, ao que tudo indica, estaríamos em uma fase de transição, com um pequeno aquecimento no ritmo de contratações que, se a crise política permitir, podem se acelerar a partir do ano que vem (2018+). O mais claro indicador desta mudança no mercado é o fato de as conversas na ‘pilotosfera’ agora estarem girando sobre os temas relacionados ao QI, às indicações profissionais para a contratação de pilotos – na maior parte das vezes, de pessoas reclamando de processos seletivos injustos, nos quais não haveria chance sem um pistolão, sem “alguém lá dentro prá te ajudar”, sem ter cursado a faculdade “certa”, sem ter um parente na diretoria da empresa.

Tudo isso é mais ou menos verdade: os processos seletivos são, via de regra, essencialmente injustos mesmo (em especial quando você não é o selecionado). Ter pistolão sempre vai ajudar, e muitas vezes é o que basta para ser admitido num emprego: até para conseguir uma colocação como faxineira é preciso de algum QI – geralmente, o porteiro do prédio ou a faxineira do apartamento vizinho. Cursar uma boa escola ou faculdade, reconhecida no mercado, faz parte da lógica da educação profissionalizante – é justamente isso o que todo bom gestor educacional pretende: que o mercado de trabalho privilegie seus ex-alunos. Enfim, goste-se ou não, concorde-se ou não, ache-se justo ou não, as contratações baseadas em QI, em pistolão, em ser ex-aluno de tal escola, fazem parte da vida, seja na aviação, seja na construção civil, na tecnologia da informação, onde for. Então, dado que o QI faz parte da vida, muito melhor que reclamar dele, é entendê-lo.

A lenda do Big White Shark

O papai comandante master que coloca o filhinho querido na empresa até existe, mas é muito mais raro do que se imagina – foi muito mais frequente algum tempo atrás. O tal do Big White Shark, o “peixão” que consegue entrar na empresa sem esforço, que é favorecido nas entrevistas ou que nem precisa fazer prova, está muito mais para lenda do que para a realidade hoje em dia. O que existe mesmo é algum nível de “insider information” e de preferência para ser convocado para ingressar no processo. Por exemplo: um candidato pode ficar sabendo antes que determinado processo seletivo será aberto, eventualmente quais os conhecimentos e habilidades que serão mais cobrados, esse tipo de coisa. Ajuda, é claro, mas é bem diferente de ter uma pessoa “te colocando lá dentro”. Além disso, a maior parte das pessoas consegue “fabricar” seu próprio QI, não se trata de filhinho de papai comandante indicando.

Os pilares do QI: confiabilidade e altruísmo recíproco

Para “fabricar QI” são necessários dois atributos: 1)ser uma profissional confiável – isto é: quem o indicar tem que estar seguro de que tal decisão não implicará em riscos para si próprio; e 2)ter condições e interesse em retribuir no futuro. A pior coisa que pode acontecer em uma indicação é a pessoa indicada ser um mau profissional – ex.: faltar ao trabalho ou se atrasar injustificadamente, ter problemas de relacionamento com colegas e chefes, etc. Além disso, a pessoa que indica alguém precisa estar convencida de que: a)a pessoa indicada faria o mesmo em situação oposta; e b)que há chance de que isto venha a ocorrer no futuro. Isto é, basicamente, o mecanismo do “altruísmo recíproco”, que é a contabilidade das trocas de favores que eu explico no meu livro sobre o assunto, Prática na Teoria.

Você não aumenta suas chances de contratação dando likes no Facebook

Ponha uma coisa na cabeça: quem realmente pode te ajudar com uma indicação é o seu amigo, seu ‘brother’, não o sujeito que você conhece superficialmente. Indicar alguém implica em riscos, em empenho, em interesse (no bom sentido), e ninguém faz isso em troca de curtidas nas redes sociais. Portanto, preocupe-se mais em ter alguns bons amigos reais do que uma enorme quantidade de conhecidos e “amigos” de Facebook. Na verdade, como os recursos são escassos (tempo, principalmente), quanto mais você ficar curtindo posts no Facebook, menos amizades você terá no mundo real. Saia do computador e vá para o aeroclube, é lá que a coisa realmente acontece.

Isso é só o básico sobre o assunto, há uma categoria inteira de posts aqui no blog sobre QI – com muito mais de 50 maneiras diferentes de entender como funciona o mecanismo das indicações profissionais para pilotos. Invista algum tempo nisso, vale a pena!

4 comments

  1. Santos
    4 semanas ago

    É verdade vc , eu e outros instrutores passam pela mesma dificuldade , nunca tive oportunidade de fazer um processo de seleção apesar de ter mais do q o necessário . Conheço pilotos q fizeram o processo por ser filho de piloto , estudar em um lugar q acham q é o suficiente enfim , filho de político , amigo e etc . O pior não passaram , tiveram uma nova oportunidade e não passaram novamente . Nem fizeram por valer a oportunidade que tantos sonham . Para os pobres mortais sem esse tal de QI ou familiares a oportunidade no mercado atual é muito difícil . Amo a aviação mas qdo me perguntam não aconselho a tentarem essa profissão não basta só sua aplicação , formação , por mais empenhado que vc esteja no final estes até podem ser reconhecidos , mas não são determinantes para sua porta abrir . Sei de toda sua frustração porque é a de todos nós .

  2. Pedro
    4 semanas ago

    Confesso que acendeu uma pontinha de esperança quando fiquei sabendo que o processo tinha a prova do ATP. A primeira coisa que pensei: “Finalmente carteiras FAA seriam um diferencial.”. Mas, vamos lá que logo logo melhoram as coisas…

  3. Everton Gil
    4 semanas ago

    Raul, boa noite.
    Voce esta certo. Ter um QI passou a ser um dos requisitos mínimos. E voce tambem esta certo quando diz que nao e somente na aviacao que isso acontece, obviamente. No entanto isso nao deixa de ser algo “injusto”. Injusto nao porque nao fui contratado ou nem ao menos chamado para entrevista, injusto pelo fato de que profissionais muitas vezes capacitados nao tem a oportunidade de fazer parte da empresa porque nao tem outra forma de ser notado que colocar seu cv no site da empresa.
    Nao questiono a selecao das empresas. Eu realmente acho que eles estao certo em fazer isso. Assim como disse, aquele que indica toma para si a responsabilidade de colocar alguem dentro da empresa e ninguem indicaria um mau profissional, o que torna ainda mais certo a aposta no colaborador.
    O Qi muitas vezes pode te ajudar a ser notado, mas nao estara la quando for submetido a sabatina. Por isso esteja preparado.
    O que acho e que aceitar o tal QI que voce diz e continuar com nosso jeitinho brasileiro de burlar as seleções.
    Nao digo isso porque estou com raivinha por nunca ter sido chamado para as selecoes e estou me sentindo injusticado e indignado de como as coisas acontecem. Isso e somente uma opniao de alguém que gostaria que as coisas fossem melhor nesse pais. Eu tenho direito de opinar sobre como funciona o sistema, mas isso nao significa que nao aceito como é, mesmo nao concordando.
    Enfim, seu post foi muito valioso como sempre sao e se estamos hoje aqui debatendo as formas de ingressar em uma cia e porque somos apaixonados pela aviacao e estamos tentando de alguma forma fazer parte da tripulacao de algum desses gigante dos ares que voam por ai.
    Seguimos na luta. Com QI ou sem QI aprendi que na vida a vitoria chega com persistencia, determinacao e foco. E assim continuamos. Um grande abraco.

    • Raul Marinho
      4 semanas ago

      Everton, só para reforçar: eu acho o QI realmente injusto, sem aspas.
      Outra coisa: QI não é exclusividade do Brasil, no mundo todo existe. “AH, mas na Emirates, o processo é impessoal”. Sim, pois o volume de contratações é brutal, e não há como ser diferente. Na época do “apagão de pilotos” do Brasil, por exemplo, o QI pesou bem menos que agora pelo mesmo motivo. Se as contratações voltarem com força em 2018, pode esperar uma importância menor do QI do que nessas seleções menores que estão acontecendo hoje.

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