AeroBusters #11 | Não tente isso em casa II

AeroBusters #11 | Não tente isso em casa II

By: Author José Roberto Arcaro FilhoPosted on
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Este artigo é o segundo na série "Não tente isso em casa",
conheça todos na coluna AeroBusters do Beto Arcaro.

Voltando ao assunto de como as aeronaves podem, às vezes, nos surpreender com relação aos seus limites operacionais, você já se perguntou quais os “desaforos” que uma aeronave pode passar para cumprir uma determinada missão?

Sempre tenho comigo que a história ensina. Então, vamos falar sobre alguns recordes que foram quebrados por aviadores fantásticos que levaram aeronaves perfeitamente comuns aos seus limites mais extremos de performance. Garanto que depois de ler estas histórias “de arrepiar os cabelos” você vai aprender a confiar mais do que nunca no seu Cessna 172G1000 Equiped”.

Como já comentamos aqui, após a Segunda Guerra Mundial a aviação geral passou por um período de grande popularização. Fabricantes tentavam mostrar ao mundo como seus produtos eram confiáveis e seguros. Ao mesmo tempo, alguns exímios aviadores tentavam mostrar que, com o devido preparo técnico, qualquer pessoa podia tirar o máximo dessas máquinas. Os próximos 30 anos do pós-guerra seriam prolíficos em termos de feitos envolvendo aeronaves da aviação geral.

Então vamos conhecer a primeira história (a segunda fica para a semana que vem):

Capt. William P. Odom e o “Waikiki Beech Bonanza”:

Bom, com toda a minha “suspeição” para falar sobre Beechcrafts (ainda mais sobre Bonanzas), vou tentar contar essa história de forma mais imparcial possível, me atendo aos fatos. Prometo que vou botar o coração de lado.

O desenvolvimento do Beech Bonanza Modelo 35 começou ainda na década de 40, como uma aposta no mercado do pós-guerra para uma aeronave de uso pessoal ou executivo que fosse confortável, rápida e segura. Quando entrou em produção, em 1947, rapidamente ficou consagrado como o “Cadillac dos monomotores”.

O nosso personagem, o “Waikiki”, foi o quarto de sua série a ser produzido. Ainda era protótipo! Alguns desses protótipos eram pintados com esquemas de pintura bem extravagantes e submetidos a mergulhos para testes em altas velocidades (atingiam velocidades acima de 300 MPH!). Alguns eram “pilotless” (rádio controlados) e adaptados com tanques extras para testes de voos de longa distância.

No caso, o Waikiki Beech possuía tanques nas asas de 90 galões, tip tanks de 62 galões cada, mais um tanque enorme dentro da cabine que totalizava 288 galões a bordo, e lhe conferia um alcance de cerca de 5.500NM. Era equipado com um motor Continental E-185 de seis cilindros “supercharged” com uma enorme hélice (2,25m de diâmetro) de madeira laminada e de passo eletricamente ajustável. O conjunto todo proporcionava ao “Straight 35” a incrível potência de 185HP!

O Capt. Bill P. Odom era um veterano da WW-II nos famosos voos de transporte para a China, na época sitiada pelos japoneses. Voou cargueiros no “The Hump” (“A Corcova”) sobre os Himalaias para abastecer os chineses. Odom já havia, em 1947, quebrado dois recordes de volta ao mundo com o Douglas A26 InvaderReynolds Bombshell”: o primeiro em 3 dias, 6 horas e 56 minutos, e o segundo em 3 dias, 1 hora e 5 minutos – com um mês de diferença entre um e outro!

Daí que, em 1949, a Beech, com fins obviamente publicitários, resolveu juntar o Capt. Odom com o BonanzaWaikiki Beech”. Em 13 de janeiro de 1949, Bill Odom decolou de Honolulu, Havaí, com a intenção de atingir o Aeroporto de Teterboro, em New Jersey.

Duvidando de seu consumo exato de combustível, o qual ele considerou excessivo, acabou pousando em Oakland, na Califórnia. Mesmo assim, quebrou o recorde de voo de longa distância em linha reta (que era de 1937, reconhecido pela FAI), perfazendo a distância de 2.300NM em razoáveis 22 horas de voo.

Então, em 8 de março do mesmo ano, Odom decolou de novo de Honolulu e conseguiu seu intento: foi de Honolulu, Havaí até Teterboro, New Jersey, perfazendo 5.273NM em pouco mais de 36 horas, queimando 272 galões de combustível (1030l!).

Dois recordes com o mesmo avião em menos de dois meses!

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William P. Odom infelizmente faleceu em um acidente com seu Mustang P51 “Beguine” nas corridas de Cleveland, Ohio. Piloto experiente nas corridas, já havia quebrado vários recordes de velocidade, ganhando o cobiçado Troféu Thompson.

E o Waikiki Beech Bonanza N80040? Foi o fim da linha para ele também?

Não!

Depois de uma turnê pelo país, ainda com Odom nos controles, ele foi entregue ao National Air & Space Museum (NASM), onde ficou até 1951, quando foi reformado pela Beech e rebatizado como “Friendship Flame”. O aviãozinho foi entregue, então, nas mãos do congressista Peter Mack (estão vendo? Existem políticos que são bons… pilotos), que o levou para uma volta ao mundo, decolando de Springfield, Ilinois, em 7 de outubro de 1951, visitando 45 cidades em 33 países! Retornou pra Springfield 113 dias depois, tendo percorrido 33.000NM! Então, foi devolvido ao NASM, onde se encontra até hoje.

Do lado esquerdo da fuselagem, pintado em grandes letras, está o nome “Waikiki Beech”, com todos os seus recordes. Do lado direito, o outro nome, “Friendship Flame”, com todas as cidades e países que visitou.

De pensar que o avião era um protótipo, testado em velocidades altíssimas e altos fatores de carga…

Que história!

One comment

  1. Beto Arcaro
    6 meses ago

    Achei esse artigo interessante.
    Só vi depois que postei a história do Waikiki
    Muitos recordes foram quebrados por Beechcrafts.
    A minha curiosidade era:
    Como o Waikiki Beech foi mandado para Honolulu duas vezes?
    Ele foi desmontado e enviado de navio até lá!
    Tudo patrocinado pela Beech.
    Pat Boling quebrou o recorde do Capt. Odom, mas com um avião extremamente modificado, o “Philippine Bonanza” em 1958.
    Voou de Manila até Pendleton, no Oregon !
    7090 Nm em 45 Horas e 43 minutos !
    Em 1960, Peter Gluckman comprou o Philippine Bonanza pretendendo quebrar o recorde de Boling.
    Queria voar de Tóquio para os EUA, “non stop”!
    Adicionou mais tanques, e pra se ter uma idéia, um Engenheiro da Beech calculou que com trem em cima, o J35 teria razão de subida igual à zero!
    Gluckman instalou uma unidade JATO (Jet assisted Take Off) no avião.
    Levou o avião voando para Tóquio, parando em Midway para abastecer.
    No voo de volta para os EUA (Decolou com o Jato) pesando mais de 6000 lbs (O MTOW do Bonanza J35 é de 2900 lbs) o Gluckman se perdeu no meio do Pacífico.
    Ele nunca chegou à Costa Oeste dos EUA.
    http://www.kingairmagazine.com/article/flight-of-the-waikiki-beech/

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