AeroBusters #12 | Não tente isso em casa III

AeroBusters #12 | Não tente isso em casa III

By: Author José Roberto Arcaro FilhoPosted on
172Views3
Este artigo é o terceiro na série "Não tente isso em casa",
conheça todos na coluna AeroBusters do Beto Arcaro.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O “Hacienda Hotel”:

Alguém já imaginou por quanto tempo um Cessna 172 conseguiria permanecer voando, se a quantidade de combustível, óleo, e a saúde física e mental de seus tripulantes, não fossem fatores limitantes?

Em 1956, Doc Bailey, um grande empreendedor de Las Vegas, construiu o Hacienda Hotel. O primeiro hotel “orientado para a família” da cidade tinha 262 quartos e um cassino enorme ao lado da recepção.

A ideia era até boa, mas devido à sua localização, na saída da “Cidade do Pecado”, além da filosofia meio avessa ao que seria normal em Vegas, o hotel acabou adquirindo uma certa “má (boa) reputação”, o que certamente não era muito bom para os negócios. Bailey já tinha tentado de tudo para atrair atenção dos “jogadores pesados”, mas não havia jeito de o negócio decolar.

Um erro terrível de marketing havia sido cometido, e alguma coisa precisava ser feita para chamar a atenção ao novo hotel cassino. Um dia, conversando com um mecânico de manutenção dos caça níqueis, descobriu uma coisa que iria mudar os rumos do Hacienda. O mecânico, um tal de Robert Timm, era um ex piloto de bombardeiros da Segunda Guerra, e contava com muita experiência de voo. Tinha também algumas ideias bem malucas!

Em 1923, ocorreu o primeiro reabastecimento em voo. Um biplano Airco DH-4B permaneceu no ar por 37 horas, sendo abastecido 9 vezes por outros aviões tanques.

Em 1949, Bob Woodhouse permaneceu voando com um Aeronca Champ por 46 dias e 9 horas, sendo abastecido de combustível, óleo, comida e água por veículos em solo.

Em agosto de 1958, Jim Heth e Bill Burkhart permaneceram voando por 50 dias, quebrando o recorde de 1949, com o Cessna 172 – “The Old Scotchman”, utilizando a mesma técnica de abastecimento por veículos em solo.

Aproveitaram esse recorde por alguns meses, até que o pessoal do Hacienda

Doc Bailey, ouvindo as ideias malucas de Timm, resolveu que a quebra do recorde de permanência no ar seria uma boa publicidade para seu hotel cassino.

Tudo que ele precisava era de dinheiro. Teve então a ideia de abrir uma bolsa de apostas. As pessoas apostariam no tempo de permanência no ar de Robert Timm, e quem chegasse mais perto levaria um prêmio de U$10.000,00. Parte do dinheiro das apostas iria para uma entidade de combate ao câncer, e outra parte financiaria a própria empreitada.

Timm e seu amigo mecânico, Irv Kuenzi, passaram um ano modificando um Cessna 172, o qual eles acharam ser a melhor opção para a quebra do recorde. Instalaram um tanque extra na barriga do 172 de 95 galões, auxiliar aos tanques de asa, de 40 galões, originais do avião. Esse “belly tank” poderia ser abastecido por meio de uma sonda externa, na barriga, e transferia o combustível por meio de bombas elétricas para as asas. O sistema de lubrificação teve de ser modificado. Em voo, eles tinham a possibilidade de trocar totalmente o filtro e o óleo do motor, obviamente com o mesmo em pleno funcionamento.

Receberam da Continental um motor O-300 de seis cilindros e 145HPs “especial”, zero horas e zero custos, a título de propaganda.

A tensão aumentou mais ainda quando, no meio de toda esta preparação, o “Old Scotchman” bateu o seu próprio recorde, significando que Robert Timm teria de ficar mais de 50 dias voando.

Faltava um copiloto. Um amigo de Timm, John Wayne Cook, mecânico com experiência de voo em linhas aéreas, topou a parada!

Após diversos ajustes e modificações finais, em 4 de dezembro de 1958, às 15:52 da tarde, o Cessna 172 “Hacienda Hotel” decolou bem acima do peso máximo do Aeroporto de McCarran, em Las Vegas (eles obtiveram uma licença especial da FAA para decolarem cerca de 400lbs acima do MTOW).

Logo depois da decolagem, uma faixa branca foi pintada nos pneus do 172 por uma pessoa em um veículo, para garantir que nossos heróis não pousassem às escondidas, durante à noite.

Comida e água eram passados para o avião por um Ford Thunderbird (também como publicidade!) e os “dejetos humanos” eram armazenados numa espécie de “privada” pequena, depois armazenados em sacos plásticos e atirados numa parte isolada do deserto de Nevada (a qual dizem estar bem “verdinha”, hoje em dia)

Primeiramente, Timm e Cook voaram por perto de Las Vegas por alguns dias, para se certificarem de que não haveriam problemas técnicos. Depois, começaram a fazer incursões pela Califórnia, indo até algumas regiões do Arizona.

Para reabastecimento com combustível, Timm ou Cook baixavam um gancho, com o qual pescavam a mangueira, abastecendo o tanque na barriga do avião.

O processo todo só demorava uns 3 minutos!

No dia 23 de janeiro de 1959, o recorde do Scotchman foi quebrado! Mais de 50 dias no ar! Timm escreveu em seu diário:

“Perdemos o tacômetro, o gerador, o piloto automático, todas as luzes, os indicadores de combustível, mas vamos continuar voando”.

No início de fevereiro, o acúmulo de carvão nas velas e nas câmaras de combustão já reduzia bastante a potência do motor, tornando difícil a subida após um reabastecimento completo. E como tudo que sobe, um dia tem que descer, os dois cansados pilotos optaram por pousar no dia 7 de fevereiro de 1959.

Pouco antes do pouso, as faixas brancas nos pneus foram checadas, para que o recorde fosse certificado. Depois de 64 dias, 22 horas, e 19 minutos, o Hacienda Hotel retornou ao solo, no mesmo McCarran Field, do qual havia decolado.

O Cessna 172 N9217B “Hacienda”, ficou em display, pendurado no teto do Hacienda Hotel & Casino até que o negócio fechou e o avião desapareceu.

Em 1988, Bob Timm o encontrou em uma fazenda, abandonado no Canadá.

O avião, perfeitamente restaurado, hoje repousa pendurado no teto do Aeroporto Internacional de McCarran, em Las Vegas.

Depois do recorde, Bob Timm voltou a trabalhar como mecânico de caça níqueis no Hacienda.

Faleceu em 2002.

John Cook voltou à sua careira como piloto/mecânico, e faleceu em 1995.

E aí?

O que vocês acharam?

Bons voos e bons pousos!

 

3 comments

  1. PATRICK
    4 meses ago

    Demais, que aventura, que história. Não tinha lido histórias como essa antes, de fato não sabia que existiam desafios como esse.

  2. Cláudio oliveira
    4 meses ago

    Fantástico! Naquela época o pessoal era raíz! E fico pensando quantas lições e aprimoramentos surgiram destes “desafios” !

    • Na verdade o meu intuito com esses posts, foi de mostrar como projetos podem ser extremamente confiáveis.
      E dependendo de como são utilizados, podem exceder em muito os limites operacionais.
      Já pensou, uma tentativa de quebra do recorde do Hacienda, nos dias de hoje?

Deixe uma resposta