Safety Tips #1 | Para início de conversa

Safety Tips #1 | Para início de conversa

By: Author Jan HessePosted on
146Views6

Pessoal,

Hoje começa mais uma coluna aqui no blog: a Safety Tips, do Jan Hesse (a pronúncia é “Iân Résse”), sobre segurança de voo & fatores humanos. Piloto da aviação particular, o Jan começou nos planadores e foi instrutor de voo por vários anos, além de ser bacharel em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi. Espero que vocês gostem do texto dele tanto quanto eu gostei!

Seja bem vindo, Jan!

Raul Marinho

– x –

Nevoeiro denso. A aeronave segue descendo em busca de referências visuais de uma pista que parece não chegar nunca. Meu aluno nivela na MDA e estabiliza o voo. Agora, olha para fora em busca da cabeceira, mas sem sucesso. Percebendo que não vai conseguir contato visual e atingindo o MAPT (missed approach point), ele entende que terá de arremeter. Confuso, baixa a cabeça e começa a procurar na carta do procedimento como deve fazer a aproximação perdida. Neste instante, ele tem as seguintes preocupações: manter a aeronave voando (velocidade, proa e altitude corretas, configuração de flap e trem de pouso), navegar (velocidade, rumo a ser voado, altitude mínima de segurança) e comunicar (callouts necessários, informar ao ATC suas intenções). A carga de trabalho agora é enorme.

Como já vi inúmeros casos de acidentes que aconteceram em situação idêntica à qual meu aluno vive agora, me vejo obrigado a interferir. Felizmente, tudo isso acontece dentro de um simulador, e meu único trabalho é apertar o botão de pausa. “Faltou você brifar o procedimento de aproximação perdida”, eu lhe digo.

Eu gosto de comentar nas aulas teóricas que o que você pensa, você cria. Através da palavra. Ou seja; o fato de expressar verbalmente os acontecimentos previstos para aquele voo induz à real experiência daquilo que foi pensado. Isso se chama “condicionamento mental”. Contaram-me uma velha história: um piloto de caça decolava de um porta-aviões quando, logo após ser catapultado em direção ao mar, seu motor falhou. No mesmo instante, ele se ejetou da aeronave. O fato de ter tomado a decisão de maneira tão imediata o garantiu uma ejeção segura, mesmo a baixa altura. Após o incidente, ele disse que “já estava preparado para tomar aquela atitude desde seu primeiro dia de treinamento”, há dezenas de anos atrás.

Nós também pré-condicionamos nossas mentes a agir de determinada forma após declararmos verbalmente nossas intenções de maneira repetida.

O briefing acaba virando uma execução prévia dos acontecimentos. Como se fosse um preview de um capítulo de uma série ou um trailer de um filme. Lembro-me de um aluno uma vez me contando que havia feito um planejamento de navegação solo de maneira tão detalhada e meticulosa que, quando chegou a hora do voo, parecia que ele estava assistindo a um vídeo no Youtube de uma missão que ele já havia feito.

Quando estamos brifando nosso voo, estamos na verdade criando o mesmo em nossas mentes. Depois disso, é só executar.

Quantas vezes fazemos o famoso briefing de decolagem, mas negligenciamos o briefing pré-pouso?! Já aconteceu comigo de simplesmente entrar no circuito de tráfego da maneira habitual e depois do pouso perceber que havia pousado com vento de cauda. Se houvesse brifado as condições para pouso e a entrada no circuito, com certeza teria me atentado à biruta e evitado esse erro.

Engana-se quem acha que o briefing deve ser feito sempre em dois ou mais pilotos. O briefing é uma ferramenta muito útil também quando se voa single-pilot. Converse consigo mesmo (em voz alta ou mentalmente, como preferir) sobre seus procedimentos de decolagem, saída, cruzeiro, descida, pouso, entre tantos outros que achar necessário.

Lembre-se: você só erra aquilo que não brifou previamente.

Para fim de conversa: o debriefing. Este tem como finalidade:

  • Fixar decisões acertadas durante o voo para que esse conhecimento fique “armazenado” para futuras tomadas de decisão.
  • Criticar, construtivamente, decisões que poderiam ter sido diferentes ou melhores.
  • Analisar o que ainda pode ser feito para elevar o nível de segurança operacional.

  Briefing e debriefing são poderosas ferramentas de consciência situacional. A adesão aos procedimentos de check-lists e a devida preparação para as diversas fases do voo fortalece a segurança de voo imensamente, pois evita que “deslizes” ou imprevistos coloquem o piloto em uma situação onde acaba voando atrás da aeronave, sendo pego de surpresa. Se o ser humano erra por natureza, por outro lado, ele tem enorme capacidade de criação e visualização. Vamos usar essa habilidade em prol de voos mais seguros!

6 comments

  1. Mickael Wejner
    4 meses ago

    Conteúdo vital com linguagem clara e objetiva. Excelente matéria.

  2. André Borin
    4 meses ago

    Muito bom!! Parabéns pelo texto. Me fez rever muitos conceitos

  3. ADEMIR DA SILVA JUNIOR
    4 meses ago

    Bem bacana o artigo. Parabéns !

  4. Bruno Erse
    4 meses ago

    Muito bom. Parabéns

  5. Peterson
    4 meses ago

    Parabéns, Inva ,Jan Hesse, por sua clareza e objetividade no texto, pois, podemos refletir sobre nossas ações; por se tornarem repetitivas, a consciência situacional, tende a diminuir. Você possui uma didática excelente, tanto na instrução teórica , quanto na instrução prática, tenho orgulho, de ter sido seu aluno. Parabéns , CMTE.

  6. Rafael
    4 meses ago

    Excelente!!

Deixe uma resposta