AeroBusters #13 | Gato escaldado tem medo de água fria

AeroBusters #13 | Gato escaldado tem medo de água fria

By: Author José Roberto Arcaro FilhoPosted on
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“Gato escaldado tem medo de água fria” ou “quem está na chuva é pra se molhar”? Confesso que fiquei meio na dúvida ao escolher o título para este post…

Ocorre que, há algumas semanas, um vídeo viralizou pela “pilotosfera sabida” das redes sociais. O vídeo foi feito por um passageiro no banco de trás de um Corisco Turbo (muito bem equipado, por sinal), e mostra um rapaz se debatendo nos controles do avião, à noite, no meio da “pauleira”, CB’s, raios, etc. O trecho era de Ponta Grossa (SSZW) para Presidente Prudente (SBDN). Obviamente a aeronave chegou ao destino em segurança, caso o contrário não poderíamos ver isto:

E daí?

Daí que em tempos em que as pessoas sabem de tudo sobre os certos e os errados (principalmente na internet), o piloto foi massacrado por críticas, chamado de irresponsável “pra baixo”, etc.

Se o sujeito tivesse morrido, viriam com aquele papinho de “quando um se vai, todos choram”.

Agora, quando o cara se mete numa enrascada, e com calma e habilidade consegue sair dela, vira o vilão da história.

É incrível!

Bom, acho que tem a ver com esse lance do nosso “sangue latino”, ou sei lá…

Enfim, vocês já ouviram falar da coluna Never Again na revista da AOPA?

É uma coluna onde pilotos comuns, nos mais variados tipos de operações, relatam situações difíceis pelas quais passaram, não no intuito de se locupletar dos acontecidos, mas sim de mostrar quais foram os erros e os acertos envolvidos no processo.

O interessante é que nos comentários da versão digital você raramente vai ver alguma ofensa ou alguma crítica que não seja construtiva.

São histórias muito interessantes sobre como, em segundos, situações de voo normais podem se transformar em caos a partir de falhas de julgamento comuns a seres humanos.

E o mais importante: sobre o que foi feito para acabar com o poder de letalidade do tal “caos”.

Histórias para as quais devemos nos sentar, “abaixar as orelhas”, ler e entender.

Aliás, falando em caos, tem uma mentalidade que tem me assustado bastante nos dias de hoje aqui no Brasil.

Às vezes, com fins “motivacionais” (geralmente comerciais), existem pessoas que divulgam por aí que a aviação vai ter que ser sempre toda “certinha, dentro de um vidrinho”.

É só abrir o tal vidrinho, engolir uma pílula de EQAS (“E”u nunca vou deixar que isso aconteça comigo, “Q”ue merda esse cara fez,  “A”viação é linda maravilhosa e eu “S”onho com ela assim todos os dias”) e ir para o voo.

E todos os seus problemas se acabaram…

Acho esse tipo de pensamento pouco evolutivo.

Outra coluna bem bacana é a da Flying Magazine – “I learned about flying from that”.

Mais ou menos no mesmo estilo do “Never Again”, o próprio nome da coluna já nos leva ao outro lado da coisa.

Aprender!

O astronauta e grande aviador Frank Borman, disse:

“O piloto superior é aquele que usa o seu julgamento superior para evitar situações que requeiram o uso de suas habilidades superiores”.

Mas, e quando não se tem um julgamento, nem habilidades superiores?

E quando ainda não se é um piloto superior?

Daí você vai ter que “comer o pão que o diabo amassou”, como o nosso amigo do Corisco Turbo?

Provavelmente…

Acho que isso se chama “experiência”.

Estudos, treinamentos, simuladores, são ferramentas muito boas que vão te ajudar a “passar” por experiências.

Não adianta também só passar e não “guardar”!

Acreditem, existem pilotos que não guardam, que não aprendem.

E se você voasse num mundo em que as condições estivessem sempre CAVOK, em aeronaves que nunca dessem nenhum tipo de pane?

Que experiência em relação ao mundo real você guardaria?

Nenhuma, né?

Pois é, existem também pilotos que pensam que vivem nesse mundo.

Acho que vou propor para o Raul a criação de uma nova coluna aqui no ParaSerPiloto.

Já tenho até o nome: “Só acontece com quem voa”!

 – x –

P.S. do editor: Não que eu seja extremamente voado (avoado, talvez…), mas já publiquei o número zero da coluna “Só acontece com quem voa” algum tempo atrás. Leiam Quando os meninos se transformam em homens (e as meninas em mulheres) na aviação.

7 comments

  1. Pertile
    5 meses ago

    A prepotência é absurda!
    Antes de jogar pedras deveria-se saber, no mínimo, quais informações o comandante possuía a respeito da meteorologia em voo (radar, por exemplo) e por que o comandante julgou prosseguir o voo nessas condições… Esse vídeo de míseros segundos não mostra praticamente nada! Só se pode afirmar que o período é noturno, que ocorrem trovoadas embutidas na camada e que há turbulência moderada! Não há nem como identificar em que parte da rota está, poderia inclusive estar em procedimento de pouso…

    O comandante que decide atravessar o mau tempo é taxado de irresponsável, e o que fica no chão esperando uma melhora é taxado de medroso! É uma incoerência tão infantil que chega a dar pena.

    Parece um voo perigoso? De fato. Você não o faria? Ótimo, então fique no chão, mas não julgue ninguém por ter mínimos pessoas maiores ou menores do que os seus… Vale lembrar que o comandante só deve satisfações ao órgão fiscalizador e ao seu patrão (se existir), mas jamais deve satisfação à internet…

  2. Antonio Carlos de Carvalho Filho
    5 meses ago

    EXCELENTE!!!!! Parabéns Beto!!!! É preciso jogar um pouco de lucidez nessa salada!!!!

  3. O.P. ESTEVES "COUGAR" F
    5 meses ago

    Meu amigo.. li este post com grande prazer! Irretocável.. construímos quem somos através de nossos erros e acertos, a mentalidade aeronáutica de aprender com os erros e acertos dos outros nos faz sobreviver mais tempo! Quando comecei onde mais aprendi foi no hangar..muito mais que na cabine!

  4. Pedro Santos
    5 meses ago

    Opa, eu cantei essa bola num comentário lá no post do ” Quando os meninos se transformam em homens (e as meninas em mulheres) na aviação”.

    Sugeri lá que isso virasse uma coluna regular aqui do PSP.

    Inclusive com contribuições dos leitores, que devem ter estórias de deixar cabelo em pé e que podem ser bem úteis no aprendizado geral da pilotosfera.

    Abraços.

    • Raul Marinho
      5 meses ago

      Estamos discutindo a viabilidade de uma coluna dessas. É um assunto delicado, em que as pessoas teriam que “confessar crimes”, ainda não chegamos a um consenso.

      • Não digo crimes Raul.
        Mas, algo como “situações que não saíram conforme o planejado”, julgamentos imprecisos, que originaram situações de risco.
        Eu tenho umas boas pra contar.

        • Pedro
          5 meses ago

          Sim, minha ideia é bem por ai.

          Eu mesmo já me vi em situações “adversas” em pelo menos uma meia dúzia de vezes, sem estar infringindo nenhuma lei, regulamento ou norma, mas que me ensinaram coisas que não foram ensinadas em salas de aula e nem mesmo em instruções de voo.

          Não devo ser o único, cada leitor aqui do blog que já acumulou algumas centenas de horas de voo deve ter as suas estórias para contar, e todos podemos aprender com as situações uns dos outros, sem precisar passar por elas.

          Fica ai a sugestão.

          Abraços.

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