Recordar é viver: “Aviação Civil cresce no Brasil, mas faltam pilotos comerciais” (notícia de 2010)

Recordar é viver: “Aviação Civil cresce no Brasil, mas faltam pilotos comerciais” (notícia de 2010)

By: Author Raul MarinhoPosted on
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O Bom dia Brasil, jornal matutino da Rede Globo, exibiu em 20/10/2010 a matéria Aviação Civil cresce no Brasil, mas faltam pilotos comerciais – Os pilotos que se formam aqui estão indo trabalhar no exterior, principalmente na Ásia. Os cursos de formação são caros – custam mais de R$ 100 mil – e demorados. Algumas escolas não estão sequer equipadas para treinar adequadamente os futuros comandantes. Bons tempos, né? Para conseguir emprego como piloto, sem dúvida era bem melhor! Mas reparem que a matéria abordava alguns problemas que são bem atuais, principalmente o sucateamento dos aeroclubes e das escolas de aviação do Brasil e a fuga de profissionais para o exterior, além do alto custo da formação aeronáutica.

Hoje em dia, por incrível que pareça, este último quesito foi o que mais “melhorou”: em termos nominais, o curso de PP+PC continua custando cerca de R$100mil; só que, se corrigirmos estes valores pelo IPC-A, chegaríamos em R$155mil – ou seja: o valor caiu em termos reais. Continua um curso caríssimo e muito acima das posses de um brasileiro médio, mas era mais inacessível ainda em 2010. A diferença, também citada na reportagem, é que havia bolsas de estudos concedidas pela ANAC, que cobriam 75% do custo do curso prático na época. Eram poucas vagas, o processo de concessão não era bom, mas pelo menos havia uma alternativa, coisa que atualmente nem se cogita (mesmo porque, convenhamos, não faria sentido ante o cenário do país).

Entretanto, os equipamentos das escolas, que já estavam sucateados em 2010, são praticamente os mesmos em 2017. Sendo que o principal “equipamento” de instrução, que é a metodologia de ensino (os manuais de PP, PC e INVA), permanece inalterada desde os anos 1990. Na época em que esta reportagem foi publicada, os aeroclubes e escolas de aviação estavam lotados (aliás, fato também mencionado na matéria), e a formação de pilotos era um negócio bastante rentável – basta verificar que o valor cobrado era mais alto em termos reais e a quantidade de alunos era bem maior. Tal rentabilidade, porém, não resultou em modernização da frota ou em qualificação de corpo docente para a maioria dos aeroclubes/escolas (salvo as exceções de praxe). Neste aspecto, acredito que pioramos o que já não era bom.

E daí chegamos ao terceiro ponto da matéria, a “exportação” de profissionais. Quando são aprovados nos ‘screenings‘ das companhias asiáticas e árabes, os pilotos brasileiros qualificados (com experiência em linha aérea) continuam indo trabalhar no exterior. O problema é que, a cada ano que passa, a taxa de aprovação diminui nesses ‘screenings‘, seja pela deterioração da qualidade da formação no Brasil, seja pelo fato de as companhias aéreas nacionais não estarem mantendo um bom ritmo de contratação nos últimos tempos. Mas os profissionais mais bem preparados têm emigrado sistematicamente ano após ano. Qual deverá ser o efeito disso no longo prazo?

Não sei quando o país sairá da enrascada em que se meteu, e depois do ‘Friboigate‘ ficou impossível arriscar uma data para a retomada econômica do Brasil, mas uma hora a economia melhora e a aviação volta a crescer. Quando este dia chegar, todos estes problemas apontados na reportagem de 2010 irão retornar com muito mais força. Quando isso vai acontecer? Em 2018, 2019, 2020… 2022? Não sei, mas em algum momento dentro dos próximos cinco anos é muito provável que ingressemos numa nova fase de “apagão de pilotos”. E aí, como faremos para a aviação brasileira não entrar em colapso? Vamos propor ao Congresso a mudança do CBA para permitir o ingresso de tripulantes estrangeiros?

 – x –

P.S.: Vocês se lembram quem era o deputado que propôs a abertura do mercado aos tripulantes estrangeiros na época do “apagão de pilotos”? Ganha um par de berimbelas com cinco faixas quem acertar o nome do parlamentar! (O gabarito está nesta nota da Folha de São Paulo da época).

8 comments

  1. Luiz
    6 meses ago

    Vale a pena fazer faculdade de direito e aviação Civil no aeroclube juntos? É um diferencial la na frente?

  2. Marcos Véio d' Guerra
    6 meses ago

    Criançada que está esperando o novo “apagão” para começar a estudar? Um aviso: põe na ponta do lápis também, aquele pessoal que ficou de fora do “apagão de 2010” mas que já está com a carteira na mão, que só precisa no máximo revalidar suas habilitações. Dica de ouro! Free!

  3. Cristiano
    6 meses ago

    MICHAEL, onde vc fez essa formação gastando tão pouco?! Informa aí, porque tô precisando muito!!

  4. Michael
    6 meses ago

    mais de R$ 100.000,00….. eu realmente queria saber quem é o louco que se formou gastando essa pequena fortuna… eu fiz PP PC MLTE IFR e somando tudo, ficou abaixo de R$ 60.000,00… Nosso bom e velho pano preto… lá lá ra laiá…

    • Leonardo
      6 meses ago

      Onde vc fez?

  5. Fred MesquitaF
    6 meses ago

    Uma matéria em vídeo da época, causou sucesso grande. Foi a do Aeroclube de Pernambuco, que falou o mesmo, prometeu empregos, mas que poucos meses depois fechou as portas.

    Vídeo exibido em: https://youtu.be/Dv58SUVP-gY

    Já rendeu pouco mais de 142 mil visualizações desde a publicação.

  6. Jose Luis
    6 meses ago

    Berimbelas de 5 cinco faixa é a versão aeronáutica da mala de R$ 500 mil?

    Se for isso é um belo trocadilho Sr Raul.

    Triste situação que assola todos que decidiram entrar na aviação após esse período e que endossa um conselho sempre dado pelo mercado financeiro e também pelos consultores de RH :

    “Assim com ações em alta tendem a te dar menor retorno pois podem já estar no teto de seu valor, as carreiras em alta hoje talvez não sejam uma boa opção em uns cinco anos, que é o tempo médio necessário para se formar em muitas profissões.”

    E na esperança que nos próximos 5 anos as coisas melhorem, os tempos serão bons para quem tiver perseverança em esperar e melhores para quem agora está começando a engatinhar nesse caminho.

  7. Angelo Carvalho
    6 meses ago

    Bingo!!!! O malandrão da mala. Cada dia que vivo em LISARB, tenho mais certeza que quero me mandar daqui, assim que for pra reserva (se deixarem).

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