Safety Tips #2 | Consciência limpa

Safety Tips #2 | Consciência limpa

By: Author Jan HessePosted on
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Quando eu ainda era aluno do curso de piloto de planador, descobri o quanto é importante uma boa habilidade de julgamento durante qualquer voo. Uma vez que estamos nos céus (e sem motor), temos que ter uma constante preocupação em relação a nosso planeio até a pista de pouso. Aprendemos o conceito de “cone de segurança”, ou seja: quanto mais eu me afasto do meu local de pouso, mais alto em relação a ele eu tenho que estar. Além disso, temos que levar em consideração, para julgamento do planeio, vários fatores como: a direção e a intensidade do vento, a razão de planeio da aeronave, e outros tráfegos voando na área.

Durante um dos meus primeiros reboques como aluno, me empolguei com uma forte térmica e desliguei do rebocador ainda abaixo da altitude combinada. Tinha certeza de que poderia ascender bastante ali. O que eu não havia percebido é que estávamos relativamente longe da pista, pois o rebocador havia feito uma volta mais longa naquele dia. Estávamos no limite do tal “cone de segurança”. Para meu azar, a térmica minguou rapidamente, e quando finalmente aproei o aeródromo percebi que minha decisão de desligar o cabo havia sido ruim. Teria sido um planeio bem sofrido para tentar chegar com segurança na perna do vento se não fossem algumas “bolhas” no trajeto, que nos tiraram de um sufoco. Claro que o instrutor não ficou muito contente com meu julgamento.

Mas como melhor definir a consciência situacional?

Bem… Por meio dos nossos cinco sentidos, temos a percepção de tudo o que acontece ao nosso redor. Essa percepção faz com que criemos uma imagem mental, um cenário em nossas cabeças. Explico de maneira simples que a consciência situacional é uma representação em nossas mentes daquilo que está acontecendo à nossa volta. Quanto mais aguçada a consciência situacional, mais fiel à realidade é o cenário que criamos.

Durante o voo, é esta percepção que nos dá a constante noção de elementos importantes, tais como o tráfego aéreo, o terreno, as condições meteorológicas e a nossa trajetória de voo. Logo, uma boa consciência situacional é importantíssima para a segurança de voo.

Vamos tomar como exemplo um acidente CFIT: quando uma aeronave voa contra um morro, concluímos que, na cabeça do piloto, não havia nenhum morro ali. Ou então, que ele achou estar voando em um lugar, quando na verdade estava em outro. Por que será que isso aconteceu? Talvez o piloto não tenha se familiarizado com a área pelo uso das cartas aeronáuticas. Talvez tenha violado uma altitude mínima. Talvez tenha feito mau uso da automação disponível. De qualquer maneira, foi uma grave falha de percepção e consequente brecha em sua consciência situacional.

Certa vez, estava decolando com um aluno para um voo de treinamento IFR em uma noite escura, de céu encoberto. A decolagem se deu aproando o mar. Resultado: alguns segundos após perdermos as luzes da pista de vista, veio aquele “efeito black hole” total – nada se enxergava lá fora. Meu pupilo, ainda voando manualmente a aeronave, distraiu-se por alguns segundos ao baixar a cabeça para programar uma mudança de rota em seu GPS. Mesmo mantendo a mão no manche, bastou que ele tirasse os olhos do horizonte artificial no PFD para que o avião entrasse em uma (quase imperceptível) curva. Deixei a situação se desenvolver um pouco mais para que ele percebesse por si só que, enquanto estava distraído mexendo em seu navegador, a aeronave ganhava em bank e pitch, perdendo velocidade, já dentro da camada de nuvens. Quando finalmente o alertei, ele se assustou – pois, é claro, na cabeça dele ainda estávamos voando graciosamente no perfil da saída.

Acho que a maioria de nós, pelo menos uma vez na vida, já se deparou com a seguinte situação em um voo ou sessão de simulador: algum imprevisto acontece, e, no meio da confusão, surge aquele pensamento: “onde é que eu estou mesmo?”. Nessa hora, você talvez tenha deixado a aeronave entrar em uma condição indesejada, assim como meu aluno o fez naquele dia.

A regra mais valiosa: Jamais deixe uma aeronave abandonar a sua trajetória lateral e vertical planejada sem que você tenha total consciência do que está acontecendo. Bons voos (conscientes)!

One comment

  1. Rodrigo Oliveira
    1 mês ago

    Muito bom texto meu amigo Jan

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